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A agitação psicomotora constitui situação frequente e desafiadora nos serviços de urgência e saúde mental, estando associada a risco aumentado de agressividade, danos físicos e impactos emocionais sobre as equipes de saúde. Condução inadequada dessas situações pode resultar em escalonamento do quadro, uso precoce ou inadequado de contenções físicas e farmacológicas e eventos adversos evitáveis. Tornou-se necessária intervenção em Educação Permanente em Saúde (EPS), considerando que o trabalho é simultaneamente lugar de produção de cuidado e aprendizagem. O conhecimento é produzido a partir de questões identificadas nos processos internos, refletidas através de diferentes estratégias, no qual a reflexão crítica sobre o trabalho vivido se articula à ação transformadora – promovendo a abertura para novos modos de pensar, cuidar e se implicar. A EPS rompe com o modelo tradicional de ensino teórico, concebendo produções coletivas de saberes, alicerçadas na aprendizagem como práxis (reflexão crítica indissociável da ação) e como devir, um processo inacabado e contínuo em busca de reinvenções. A oficina foi estruturada com base em metodologias ativas, que enfatizam experimentar, problematizar e transformar. A utilização da simulação permitiu a criação de um ambiente seguro de experimentação, reflexão crítica e aprimoramento das condutas, favorecendo a internalização/transformação de técnicas de desescalada verbal, avaliação clínica estruturada e execução da contenção física.
Desenvolver postura crítica nos profissionais, desenvolvendo habilidades interpessoais, comportamentais e técnicas dos profissionais de saúde por meio da simulação prática, com o objetivo central de qualificar/humanizar o manejo de situações críticas relacionadas à agitação psicomotora. Os objetivos específicos foram: (1) instrumentalizar os participantes para a identificação precoce da agitação psicomotora e do risco de agressividade; (2) aprimorar o manejo verbal por meio das técnicas de desescalada verbal; (3) treinar a avaliação clínica estruturada do usuário agitado; (4) desenvolver competência técnica para a realização da contenção física, quando aplicado; (5) estimular a reflexão crítica sobre atitudes, decisões e trabalho em equipe em contextos de alta complexidade assistencial.
A primeira etapa envolveu a produção de material teórico em forma de panfleto com a finalidade de ser base teórica para a oficina e ser distribuído amplamente nos serviços de saúde como material de apoio para as equipes. A oficina foi baseada na simulação de uma situação real e realizada com grupos de até dez profissionais de saúde. A atividade foi estruturada em 5 etapas: abertura, simulação 1, discussão, simulação 2, fechamento. Inicialmente, realizou-se uma etapa de acolhimento e apresentação dos objetivos da oficina (abertura). Em seguida, os participantes vivenciaram a simulação de um caso clínico envolvendo um usuário agitado e com comportamento ameaçador. O cenário foi cuidadosamente preparado para reproduzir condições reais de atendimento e teve a participação de um profissional do CAPS como “ator”. Os participantes decidiram de forma autônoma quantos integrantes atuariam diretamente na cena, sendo desafiados a realizar a história clínica, o manejo verbal, a avaliação de risco e contenção física. O caso evoluía progressivamente conforme as respostas da equipe, exigindo tomada de decisão em tempo real. Após a simulação, foi conduzida uma discussão teórica e reflexiva, na qual se analisaram as condutas adotadas, os aspectos técnicos, bem como os sentimentos despertados pela experiência. Após a discussão foi realizada novamente a mesma simulação envolvendo um usuário agitado. O encerramento incluiu avaliação coletiva da oficina e espaço para feedback dos participantes.
Foi observada participação ativa e colaborativa dos profissionais, que relataram elevado grau de envolvimento emocional e cognitivo durante a simulação. Notou-se aprimoramento na capacidade de identificação precoce dos sinais de escalonamento da agitação, maior valorização do manejo verbal como primeira linha de intervenção e melhor compreensão da importância da segurança do ambiente e do trabalho em equipe – fato evidenciado na segunda rodada de simulação. A simulação também possibilitou desmistificar a contenção física, reforçando seu caráter excepcional, técnico e ético, além da necessidade monitorização contínua e registro adequado no prontuário. De forma geral, a atividade contribuiu para a redução de atitudes impulsivas, fortalecimento da atuação interdisciplinar e ampliação da consciência crítica sobre o cuidado em situações de crise. A primeira oficina (experiência relatada) foi conduzida por um médico psiquiatra do CAPS III da cidade de Hortolândia com participação de profissionais dos 3 CAPS da cidade (CAPS III, CAPS IJ e CAPS AD). Em um segundo momento esse profissionais reproduziram as oficinas nas suas unidades. O terceiro passo é conduzir a oficina de agitação psicomotora na Atenção Básica e urgência locais (2026).
A experiência evidenciou que oficinas práticas baseadas em simulação de situações reais constituem uma estratégia eficaz para a capacitação de profissionais da saúde no contexto do SUS. Ao integrar teoria e prática, a metodologia favoreceu a construção colaborativa do conhecimento, desenvolvimento de habilidades relacionais e qualificação da tomada de decisão em contextos complexos. A iniciativa mostrou-se especialmente relevante para serviços que lidam com alta demanda de usuários em sofrimento psíquico grave, contribuindo para a segurança assistencial, a humanização do cuidado e proteção da equipe. A possibilidade de incorporação sistemática desse tipo de capacitação nos programas de educação permanente em saúde do SUS se torna factível dado o baixo custo de execução e uso de recursos humanos já disponíveis.
Educação permanente, saúde mental, crise
CLAUDIO MARINS DA ROCHA BORGES