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A esporotricose humana é uma micose subcutânea que surge quando o fungo do gênero Sporothrix acessa o organismo, por meio de uma ferida na pele ou mucosa causadas por trauma decorrente de acidentes com espinhos, palha ou lascas de madeira; contato com vegetais em decomposição; ou arranhadura ou mordedura de animais doentes, sendo, o gato, atualmente, o principal transmissor da doença (forma zoonótica), que se apresenta em expansão em vários locais do Brasil. Considera-se que a enfermidade em questão envolve a tríade da Saúde Única, representada pela integração da saúde animal, humana e ambiental, sendo que o fungo se encontra no solo, em matérias orgânicas em decomposição e vegetação. Até o presente momento, a esporotricose humana e animal não são doenças de notificação obrigatória à nível nacional e doença é ignorada por muitos profissionais de saúde e pela população em geral. Em Jundiaí, o número de casos da doença apresentava tendência de alta nos últimos anos e não havia uma estruturação do Programa de Vigilância e Controle da Esporotricose humana e Animal com fluxos bem definidos, bem como não era fornecido o medicamento Itraconazol aos pacientes humanos com a enfermidade, o que chegou a levar a abandono de tratamento em paciente sem condições de compra do mesmo.
Elaborar e instituir o Programa de Vigilância da Esporotricose Humana e Animal em Jundiaí, mediante avaliação adequada dos casos suspeitos e confirmados detectados pela Rede de Atenção à Saúde (RAS) e estabelecimentos veterinários (clínicas, consultórios e hospitais), respectivamente, identificando e monitorando o perfil epidemiológico e os fatores de risco da doença no município, se atendo às normas técnicas vigentes. Além disso, desenvolver os fluxos a serem seguidos pelas áreas envolvidas, seja na saúde humana ou na animal, tanto na parte da assistência/atendimento, diagnóstico, tratamento (quando aplicável) e medidas de prevenção e controle, classificando também as áreas prioritárias segundo a intensidade de transmissão. A Vigilância em Saúde Ambiental (VISAM) e a Vigilância Epidemiológica (VE), que fazem parte do Departamento de Vigilância em Saúde da Unidade de Gestão de Promoção à Saúde foram os órgãos responsáveis pelos objetivos citados anteriormente.
Foi feita consulta a manuais técnicos de Esporotricose Humana e Animal do Município de São Paulo, ao Guia de Vigilância em Saúde 6a Edição e à Nota Técnica n°60/2023, ambos do Ministério da Saúde. Além disso, os casos animais e humanos foram tabulados em planilha do Excel e georreferenciados no Google para avaliação epidemiológica do território e desenvolvimento dos fluxos mencionados anteriormente, sendo que técnicos participaram de reuniões técnicas com profissionais da Vigilância de outros municípios e do Governo do Estado de São Paulo. Na parte animal, fortaleceu-se a parceria com o Centro de Controle de Zoonoses para encaminhamento de amostras (suabes estéreis em meio de Cultura Stuart para cultura fúngica, que é considerado o método de referência para a identificação da esporotricose animal pelo Ministério da Saúde) e capacitação de técnicos da VISAM no exame citopatológico que é realizado no próprio laboratório do setor. Na parte humana, foi feita parceria com o Departamento de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Jundiaí , que passou a fornecer atendimento especializado aos pacientes, além da definição do fluxo de atendimento, diagnóstico, tratamento e acompanhamento de casos suspeitos e confirmados. Desenvolveram-se também um material educativo de esporotricose, em conjunto com a Comunicação da Prefeitura de Jundiaí, sob a forma de folder, que serviu como instrumento de trabalho para as ações e fluxo de atendimento de animais envolvendo o Bem-Estar Animal.
Na parte animal, fez-se compra de insumos para o diagnóstico da doença e desenvolveu-se também o fluxo de investigação de casos suspeitos e medidas de controle, como a eutanásia de animais positivos sem tutor. Outro avanço importante se deu na parte da Assistência Farmacêutica, com a inclusão do itraconazol na lista de medicamentos fornecidos para os pacientes humanos confirmados. Ademais, realizaram-se 5 capacitações com a RAS e mais de 30 com os estabelecimentos veterinários (incluindo Faculdade de Medicina Veterinária) do município, no sentido de aumentar a capacidade de suspeição da doença. A elaboração desse Programa possibilitou a investigação adequada dos suspeitos, sendo em 2023/2024 42 em animais (17 confirmados: 16 gatos e 1 cão) e 20 em humanos (com 5 casos confirmados, sendo 4 deles na mesma família), além de ações casa a casa em alguns bairros, no sentido de busca ativa de novos casos humanos e animais (realizada mediante casos novos confirmados em áreas até então silenciosas). As principais portas de entradas desses casos humanos e animais foram as unidades básicas de saúde, tendo o agente comunitário de saúde um papel de destaque na suspeição dos mesmos, considerando sua proximidade com o território. Foram padronizados os formulários de notificação e da busca ativa. Além disso, foram também realizadas comunicações de risco aos municípios vizinhos em áreas limítrofes com casos de esporotricose, permitindo assim a detecção oportuna por lá também.
Um sistema de Vigilância deve possuir sensibilidade, oportunidade e representatividade para atender aos desafios epidemiológicos atuais, sendo que o Município deverá ser capaz de formular políticas públicas e protocolos de enfrentamento para atuação de maneira contínua, ágil e efetiva. Assim, o Programa de Vigilância da Esporotricose da Prefeitura de Jundiaí desenvolvido atendeu às normas técnicas vigentes, permitindo assim um atendimento de maior qualidade e eficiência aos pacientes, um trabalho interdisciplinar e intersetorial, minimizando os riscos à população e possibilitando a assertiva comunicação do risco da doença à RAS e à população, bem como fortalecimento do vínculo entre a Vigilância em Saúde e os profissionais da ponta. A complexidade da esporotricose envolve ações integradas em Saúde Única (temática animal/ambiente/homem), sendo que foi criado um Grupo Municipal para discussão da doença, incluindo o Departamento de Bem-Estar Animal, ampliando assim o olhar e abordagem da doença para além da saúde, sendo que há planos futuros de outras parcerias público privadas para contribuição no Programa.
esporotricose, vigilância, Jundiaí
FELIPE ROBERTO VITA DE ARRUDA PEDROSA, FERNANDA CARRIL ARNAL OLIVEIRA, ELISA CREPALDI ALMEIDA ROSA, ANA LUCIA CASTRO DA SILVA, LUIS GUSTAVO GRIJOTA NASCIMENTO, MARIA DO CARMO BARRETO POSSIDENTE