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A tuberculose (TB) é uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, que atinge principalmente os pulmões. A transmissão ocorre por meio de gotículas expelidas quando pessoas infectadas tossem, espirram ou falam. Em 2023, a TB voltou a ser a principal causa de morte por doença infecciosa (OMS, 2024). A doença é curável e, no Brasil, o tratamento é oferecido gratuitamente pelo SUS. Ela é uma doença fortemente influenciada por determinantes sociais e raciais, sendo alguns grupos populacionais, como as pessoas em situação de rua, têm maior risco de adoecimento (no caso, 54 vezes mais) (Brasil, 2024). No atendimento às pessoas em situação de rua (PSR), os profissionais das equipes de Consultório na Rua (CNR) observam que a adesão é prejudicada pela instabilidade social e econômica, somada ao uso abusivo de substâncias psicoativas, e ao estigma relacionado tanto à tuberculose quanto à cor da pele e classe social. Ademais, estão frequentemente expostos às alterações ambientais e climáticas, a insegurança alimentar e com maior tendência à imunodepressão. A equipe de CNR, por seu papel “de ponte” entre a população em situação de rua e a rede de saúde, ocupa função estratégica ao facilitar o diagnóstico precoce, reduzir barreiras de acesso, realizar busca ativa de casos, dentre outras ações. Em especial um caso vivenciado pela equipe de diagnóstico de tuberculose evidenciou a complexidade do cuidado prestado à essa população.
Relatar, por meio de um estudo de caso, as estratégias do cuidado promovidas pela equipe do Consultório na Rua para uma pessoa em situação de rua com diagnóstico de tuberculose pulmonar.
R.V.S, homem pardo, 48 anos, apelido “Bob”, há pelo menos 5 anos em situação de rua, natural de Ribeirão Preto. Em dezembro/2023, realizou a primeira coleta de escarro na UPA, com evasão sem saber o diagnóstico e posterior comunicação para equipe do CNR pela vigilância epidemiológica. Porém, o paciente não teve boa adesão ao tratamento e novamente em abril/24 fomos acionados para nova busca ativa. Equipes do CNR, SAE do distrito (Castelo) e TDO dialogavam a fim de alinhar as condutas. Ele estava bem arredio, pouco comunicativo e solicitando internação, pois não acreditava ser possível fazer o tratamento no contexto de rua. No período de janeiro a agosto/2024, ele retornou algumas vezes à UPA, com quadro de dispneia, com indicação de internação, mas frequentemente deixava o serviço antes da regulação da vaga. A comunicação entre os serviços envolvidos, as buscas ativas e novas tentativas de abordagem ao paciente foram realizadas até que em agosto/2024 foi internado no Hospital Santa Lydia. Para garantir a continuidade do vínculo, a equipe realizou visitas no âmbito hospitalar, inclusive no quarto de isolamento, onde permaneceu por meses devido à persistência de exame de baciloscopia positiva. Durante a internação o paciente sinalizou que permanecia com dificuldades em relação ao manejo da abstinência de SPA e a equipe do hospital realizou intervenção medicamentosa, o que contribuiu para que permanecesse no tratamento.
O prolongado isolamento impactou fortemente no estado emocional do paciente. Para alguém acostumado à vida em movimento nas ruas, a permanência em um quarto fechado, com janela voltada apenas para o interior do hospital, representou uma experiência de desmotivação e sofrimento. Diante disso, a equipe do CNR articulou com a assistente social e a nutricionista da instituição, e como resultado, o paciente foi transferido para um quarto com vista para a rua e teve a possibilidade de receber iogurtes, atendendo tanto a uma necessidade de desejo alimentar quanto a um conforto afetivo. Outro ponto relevante foi a aproximação da família, promovida pelo hospital, envolvendo mãe e irmã, reconhecendo a relevância do suporte afetivo e social para a adesão terapêutica. A partir desse envolvimento, iniciou-se a organização da documentação necessária para transferência ao Hospital São Camilo, (Campos do Jordão), para dar continuidade ao acompanhamento clínico especializado, pois o paciente seguia com baciloscopia positiva e dependência de oxigênio. Foi encaminhado para o Hospital em fevereiro/2025 e em meados de agosto de 2025, um ano após internação, R.V.S. contactou a equipe para informar a finalização do tratamento. Agradeceu pelas visitas realizadas durante a internação em Ribeirão Preto, segundo ele, fundamentais para que ele não desistisse do tratamento. Atualmente retornou para Ribeirão Preto e não encontra-se em situação de rua.
Esse caso reflete que a população em situação de rua tem um contexto dificultador no campo da comunicação com o serviço de saúde, ainda sendo necessário elucidar os motivos pelos quais evadem; as estratégias que os profissionais e serviços de saúde, atenção primária e secundária, já utilizam e podem ampliar para facilitar a adesão ao tratamento. A ausência de suporte institucionalizado, como vagas em equipamentos de saúde ou casas de acolhimento social, expõe essa população à manutenção da vida nas ruas, em meio a condições adversas como variações climáticas, ausência de higiene, alimentação inadequada e falta de repouso, fatores que comprometem a adesão ao tratamento e a cura. Ainda, existe a necessidade de abrangência das políticas públicas que garantam a segurança alimentar e nutricional contemplando a oferta de alimentos prontos para consumo, adequados à realidade de quem vive nas ruas e com dificuldade de preparo. Conclui-se que há necessidade de constante educação permanente para profissionais de saúde e da assistência social que atuam no atendimento à população em situação de rua, tornando-se fundamental para o melhor manejo dos casos, focando em redução de danos em populações vulneráveis.
População em situação de rua, tuberculose
JULIANA CRISTINA DIAS, TATIANE CRISTINA FARIA DA SILVA, TATIANA MARIA COELHO VELOSO, ADRIANA CRUZ DE LIMA, FABIO MEIRELLES ALVES, MÁRCIA DA SILVA PAULINO, MYLENA SOUSA PIANTAMAR, PAMELA VIDAL MENDONÇA