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A Unidade Básica de Saúde (UBS), porta de entrada preferencial do Sistema Único de Saúde (SUS), acolhe demandas complexas que ultrapassam o campo estritamente biomédico, envolvendo sofrimento psíquico, vulnerabilidades sociais e atravessamentos institucionais. Nesse contexto, o trabalho com grupos constitui importante estratégia de cuidado em saúde mental, embora enfrente desafios relacionados à adesão dos usuários, às condições institucionais e ao enquadramento da prática profissional. A Fotolinguagem é um dispositivo de mediação grupal que utiliza a fotografia como objeto mediador cultural. Tal recurso favorece a expressão verbal por meio da associatividade psíquica, facilitando a colocação em palavras de vivências intrapsíquicas e promovendo a constituição de vínculos grupais, sendo especialmente indicado para pessoas com dificuldade em expressar sentimentos, mostrando-se eficaz também na aplicação online (Emilio y otros,2020). A apresentação desta experiência justifica-se, pois, mesmo adaptado a condições institucionais adversas, o dispositivo mostrou-se um potente recurso clínico-institucional para o cuidado em saúde mental em uma UBS de Barueri, que no período de dezembro de 2022 a dezembro de 2024, ficou alocado em um Ginásio de Esportes, com limitação de infraestrutura. Ressalta-se a relevância de apresentar modificações de métodos que tenham sua eficácia já bem demonstrada em diversas pesquisas e podem ser adequados à realidade institucional da Atenção Básica.
-Objetivo geral: Relatar a experiência de adaptação do método Fotolinguagem em grupos de saúde mental em uma UBS durante período de contingência institucional; -Objetivos específicos: ●Refletir sobre os desafios institucionais e de enquadramento enfrentados pelo psicólogo no trabalho com grupos na Atenção Básica. ●Analisar efeitos na expressão subjetiva, na construção de vínculos e na adesão dos usuários. ●Propor a ampliação de adaptações dessa metodologia para atingir públicos maiores em contexto intersetorial.
Trata-se de relato de experiência, desenvolvido a partir da prática profissional da psicóloga em uma UBS de Barueri, quando o serviço estava alocado no ginásio de esportes do bairro. Foram conduzidos grupos utilizando uma adaptação do método Fotolinguagem que, originalmente, deveria ser realizado presencialmente, com fotos impressas e com sessões coordenadas por dois profissionais. Durante a pandemia (2020-2021), o método foi adaptado para uso online por meio de videoconferência. Posteriormente, entre 2022 e 2024, na ausência de fotos impressas e espaço físico, realizou-se grupos presenciais com o recurso digital praticado durante a pandemia online. As fotos foram baixadas da internet, organizadas em slides e compartilhadas no grupo, pelo computador da sala da profissional. Realizou-se grupos pontuais com diferentes populações, entre as quais: idosos, trabalhando identidade e percepção de si; mães, resgatando seus interesses pessoais; adultos, resgatando experiências e memórias significativas; adolescentes, trabalhando as representações e experiências familiares; homens, trabalhando as representações da figura paterna e as dificuldades no exercício da parentalidade. Por serem grupos pontuais, realizou-se fechamento a cada encontro, o que não é próprio do método original. Devido ao contexto institucional, foi necessária a organização dentro do tempo disponibilizado e número variável de participantes a cada sessão.
O trabalho com grupos em saúde mental enfrenta barreiras institucionais, especialmente na coordenação. Quando o serviço funcionou em espaço adaptado, realizaram-se grupos utilizando a Fotolinguagem que, mesmo de forma adaptada, favoreceu adesão, coesão grupal e fortalecimento de vínculos institucionais. A percepção visual permite superar limitações da expressão verbal, favorecendo a expressão de sentimentos, experiências e emoções, pois a Fotolinguagem “puxa a palavra”. Não foi possível detalhar ganhos psíquicos individuais, mas observam-se mudanças na percepção da própria história, maior espontaneidade, expressão de conteúdos subjetivos, verbalização de afetos, memórias e conflitos, inclusive em participantes inicialmente resistentes. Houve escuta e coesão à nomeação de experiências dolorosas, como o abandono. A Fotolinguagem não eliminou o sofrimento, mas promoveu compartilhamento, contribuindo para bem-estar emocional, saúde mental e resiliência. Após a experiência, notou-se avanços como maior pontualidade, comunicações antecipadas de ausências, pontualidade, interação e compartilhamento de sentimentos sem constrangimento. Grupos com mediação cultural demandam coordenação em dupla e participação ativa dos profissionais, o que favoreceu a adesão. A aplicação da Fotolinguagem, mesmo adaptada, possibilitou a construção de vínculos grupais e institucionais, abrindo espaço para a continuidade de grupos terapêuticos com Fotolinguagem mais próxima ao preconizado.
Desafios de enquadramento institucional e práticas grupais exigem reflexão constante do psicólogo sobre sua tarefa profissional, articulando técnica, ética e realidade institucional. Photolangage®, método criado na França, constitui-se de dossiês temáticos de fotografias francesas. Fotolinguagem, releitura brasileira, também denominada Fotoexpressão em algumas publicações, utiliza fotografias brasileiras e todos os procedimentos do método seguem orientações de Vacheret (Oliveira, 2021). Apesar das dificuldades institucionais como espaço, tempo, continuidade dos grupos e baixa adesão inicial, a Fotolinguagem ainda que adaptada, contribuiu para criar um ambiente seguro e acolhedor, favorecendo o cuidado no trabalho grupal em saúde mental, a adesão grupal e vínculos grupal e institucional, atualmente observáveis em assiduidade, redução da rotatividade dos participantes; busca de suporte no serviço em momentos de crise psicossocial. A experiência evidencia que a Fotolinguagem pode ser incorporada como prática inovadora no SUS, ampliando possibilidades na UBS e o repertório de estratégias grupais em saúde mental. Recomenda-se continuidade de estudos que avaliem sua eficácia em diferentes contextos institucionais e socioculturais.
Saúde Mental; Atenção Primária à Saúde
TEREZA APARECIDA MALUF