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As violências interpessoais e autoprovocadas configuram um importante desafio para o Sistema Único de Saúde (SUS), dadas suas repercussões físicas, emocionais e sociais e o impacto direto sobre a rede de serviços de saúde. No município de Marília/SP, a Unidade de Pronto Atendimento – UPA Zona Norte, sob gestão municipal em parceria com a Associação Beneficente Hospital Universitário (ABHU), tem papel estratégico na identificação precoce dos agravos e no registro das notificações compulsórias. A Unidade registra grande volume de atendimentos de urgência decorrentes de agressões físicas, tentativas de suicídio, violência doméstica e outras formas de violência, conforme dados do Relatório Anual SINAN 2025. A experiência surge da necessidade de qualificar a notificação, fortalecer os fluxos internos e ampliar a integração da UPA com a rede municipal, especialmente com a Vigilância Epidemiológica e o Núcleo de Prevenção e Cuidado às Pessoas em Situação de Violência. Iniciada em janeiro de 2025 e ainda em execução, a iniciativa envolve médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, equipe de Serviço Social, coordenação da UPA, além de profissionais da Secretaria Municipal de Saúde. A justificativa central reside na necessidade de transformar a notificação do agravo em ação mobilizadora de cuidado, articulando vigilância e assistência para garantir resposta rápida e resolutiva.
•Qualificar o processo de notificação das violências interpessoais e autoprovocadas na UPA Norte, integrando-o ao fluxo municipal. •Fortalecer a articulação entre a UPA, a Vigilância Epidemiológica e o Núcleo de Prevenção e Cuidado às Pessoas em Situação de Violência vinculado à Atenção Primária à Saúde (APS). •Garantir que os casos atendidos na UPA sejam devidamente acompanhados pela rede, especialmente pela APS. •Reduzir subnotificações e melhorar a completitude das fichas do Sistema de Notificações de Agravos em Saúde – SINAN. •Sensibilizar e capacitar as equipes internas para reconhecer violência como agravo de saúde e não apenas como demanda policial ou social.
A experiência foi construída a partir da organização dos fluxos internos da UPA Norte para identificação, acolhimento, registro e encaminhamento de casos de violência. As etapas incluem: •Triagem qualificada pela enfermagem, com identificação de sinais de violência física, psicológica ou sexual. •Atuação do Serviço Social, responsável por escuta qualificada, orientação e articulação dos encaminhamentos. •Preenchimento padronizado da ficha do SINAN, com revisão técnica e envio semanal à Secretaria Municipal de Saúde, conforme relatado no documento institucional da UPA Norte. •Encaminhamento dos casos ao Núcleo de Prevenção e Cuidado à Pessoa em Situação de Violência da Secretaria Municipal de Saúde, responsável por analisar e redistribuir os casos às unidades de referência para acompanhamento. •Discussão permanente entre gestão da UPA, equipe ABHU e Núcleo de Prevenção e Cuidado à Pessoa em Situação de Violência para ajustes nos fluxos. •Monitoramento mensal dos indicadores da UPA (violência doméstica, violência contra criança, tentativa de suicídio, intoxicações). •Capacitações internas periódicas em violência, acolhimento e notificação. Participam da metodologia: enfermeiros, técnicos, assistentes sociais, equipe médica, coordenação da UPA, Vigilância Epidemiológica e Núcleo de Prevenção e Cuidado à Pessoa em Situação de Violência.
A experiência fortaleceu o processo de notificação e ampliou a visibilidade epidemiológica das violências na região Norte do município. Somente em 2025, a UPA registrou: •332 casos de violência interpessoal/autoprovocada, com destaque para tentativas de suicídio e violência doméstica; •75 casos de violência doméstica, a maioria praticada por parceiros ou ex-parceiros; •8 casos de violência contra crianças (principalmente suspeita de violência sexual); •211 tentativas de suicídio, com predominância entre mulheres; •217 casos de intoxicação exógena vinculados a tentativas de autoextermínio. (Dados obtidos do relatório institucional SINAN/UPA Norte 2025) Além dos resultados quantitativos, a experiência produziu avanços qualitativos importantes: •Maior sensibilidade das equipes para identificar violência; •Melhoria considerável na completitude das fichas; •Fortalecimento da articulação entre UPA e APS para monitoramento dos casos; •Resposta mais rápida da rede municipal aos agravos graves; •Maior participação da UPA nos fluxos municipais de vigilância.
A experiência demonstra que a UPA pode exercer papel fundamental no enfrentamento das violências, funcionando como porta de entrada qualificada e articulada ao cuidado longitudinal. A parceria entre gestão municipal e ABHU possibilitou fortalecimento de fluxos, qualificação das notificações e integração com a rede de proteção. Entre os desafios identificados estão: garantir a continuidade da educação permanente, reduzir a subnotificação, ampliar a segurança das equipes diante de situações de risco e consolidar protocolos assistenciais. Como perspectivas, destaca-se a ampliação da formação das equipes, integração dos dados do SINAN ao planejamento local e fortalecimento da articulação com Atenção Primária, Saúde Mental, Assistência Social e Justiça. A continuidade da experiência tende a consolidar a UPA Norte como ponto estratégico para vigilância e cuidado em situações de violência no SUS municipal.
Violência; Vigilância; Emergência; APS
FABIANA MARTINS, MARIANA PONTELLI DE SOUZA, ANDREA UCHIDA, KELLY CRISTINA ENCIDE DE VASCONCELOS DONADAI, PALOMA APARECIDA LIBANIO NUNES