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Atender pessoas surdas na saúde mental requer mais do que adaptação técnica: implica repensar práticas e modos de comunicação, para construir uma abordagem humanizada. Entende-se a deficiência a partir de duas concepções: o modelo médico e o modelo social. O primeiro toma a deficiência como um problema individual no corpo, que sofre intervenções, pensando em sua normalização. No modelo social da deficiência, a surdez não é mera limitação corporal, mas produto de barreiras socioculturais que negam a diversidade comunicativa (ROMANO, SERPA, 2021).Os profissionais frequentemente se sentem despreparados para dialogar com usuários surdos, sobretudo quando não dominam Libras. Quando se trata de buscar atendimento em serviços de saúde, estes usuários deparam-se com a existência de importantes barreiras no atendimento comprometendo o acolhimento e a relação entre usuário e profissional de saúde. A experiência relata o acompanhamento de um usuário surdo, E.A., 52 anos, situação de vulnerabilidade social, comportamento de acumulação e uso de múltiplas substâncias, atendido pelo CAPS AD III. A equipe, inicialmente insegura, precisou criar estratégias de comunicação inclusivas, para garantir um cuidado integral.
O objetivo deste relato é apresentar diferentes formas de comunicação que podem acontecer no encontro entre uma pessoa surda e profissionais de saúde nos serviços de saúde mental. As estratégias utilizadas tiveram o objetivo de fortalecer vínculo terapêutico, favorecer adesão ao cuidado e participação nas atividades do serviço, fomentar a inserção social por meio de oficinas, grupos e saídas terapêuticas, reabilitação psicossocial, sensibilizar a equipe para práticas inclusivas e formação continuada para cuidado com pessoas surdas.
O processo começou com a articulação entre a UBS de referência e o CAPS AD para planejar uma visita domiciliar: foi fundamental visitar o ambiente de vida do usuário e entender sua realidade social. Uma vez no serviço, a equipe se comprometeu a aprender com o usuário: usamos gestos, mímicas, olhar, escrita e até sinais de Libras que ele mesmo ensinou. Este processo comunicativo foi parte integrante da construção do vínculo assim como sua participação em oficinas, grupos terapêuticos, estratégias de autocuidado (como corte de cabelo e barba) e saídas terapêuticas, incluindo caminhadas, eventos culturais e visitas externas, para facilitar sua reabilitação psicossocial. Ficou dois períodos em hospitalidade integral neste ano, em duas ocasiões: a primeira como parte da intervenção planejada; a segunda por demanda espontânea dele, reforçando a relação de confiança.
A barreira inicial de comunicação foi superada com criatividade e afeto. O usuário nos ensinou como se comunicar com ele, criou estratégias adaptadas a cada profissional que encontrava: por vezes fazia gestos, sinais em libras, leitura labial, mímica, escrita, e a equipe aprendeu junto, construindo uma relação de confiança e respeito mútuo. Este se envolveu ativamente nas oficinas e grupos. Uma experiência marcante foi sua participação no grupo de música, ocasião em que sentia a vibração do violão pelo toque, acompanhava o ritmo da música pelas palmas dos demais e tocava pandeiro, demonstrando engajamento e integração. Esta ferramenta inicialmente foi descartada pela equipe, pois não imaginávamos como seria sua participação em uma atividade que envolve, principalmente, o ouvir. A segunda internação, por demanda do usuário, revelou que este passou a ver o CAPS AD como local seguro e acolhedor em momentos de crise, não apenas como serviço de intervenção pontual. As saídas terapêuticas, como caminhadas, eventos externos, visita a loja de skate (hobbie do usuário), sarau na Casa da Palavra, contribuíram para ampliar seu repertório social, fortalecer sua autoestima e reduzir o isolamento. A vivência com esse caso despertou na equipe a necessidade de se reconfigurar e reinventar práticas, para fazer caber modos de existir e comunicar.
Ofertar cuidado é sempre um desafio, visto que exige que o profissional articule as necessidades de quem busca atendimento com as possibilidades reais do serviço. Quando o usuário é uma pessoa surda, essa atenção precisa ser ainda maior. A experiência mostra que a presença de pessoas surdas em um serviço aberto como o CAPS AD favorece a criação de modos de comunicação que ultrapassam a lógica do falar e ouvir, e que se constroem a partir das demandas singulares de cada usuário. Ao cogitar novas formas de comunicação, reinventar práticas e formas de acolhimento, a equipe conseguiu construir e fortalecer o vínculo terapêutico com o usuário, e promover cuidado integral. A possibilidade de se reinventar também abre espaço para uma clínica comprometida com a construção e a produção de subjetividade, potencializando os processos de transformação do cotidiano (ROMANO, SERPA, 2021). Ainda assim, não é fácil para nós trabalhadores reinventar nossas práticas a cada novo encontro. Por isso, torna-se indispensável investir em espaços de formação e atualização contínua, que sustentem a construção de cuidados atentos à singularidade da pessoa surda nos serviços de saúde.
Surdez, Comunicação em Saúde, Acolhimento
MARIA EDUARDA DE CALDAS SAMUEL, PATRÍCIA ALVES TEIXEIRA BATISTA