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O grupo Mulheres Por Si Mesmas acontece desde novembro de 2018 no território de Pirituba com parceria entre as secretarias de saúde e cultura da Prefeitura de São Paulo. Idealizado como uma ação de outubro rosa que ampliasse o olhar sobre a saúde da mulher, o grupo nos permitiu unir ideias, recursos e saberes com os diversos equipamentos de saúde em parceria com a Biblioteca Brito Broca, possibilitando abordar temas como empoderamento feminino em um espaço com mulheres de diversos níveis socioeconômicos e culturais. O bairro de Pirituba em São Paulo, localizado na região periférica da Zona Noroeste de São Paulo, é conhecido na área da Saúde Mental por abrigar um dos maiores hospitais psiquiátricos do país, o antigo Sanatório Pinel. De sua fundação em 1929 até o início desse projeto tivemos muitos avanços no cuidado da saúde mental, pautado principalmente pela luta antimanicomial e ampliação da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), buscando atuar na prevenção e promoção de saúde.¹ A prevalência de mulheres com queixas de saúde mental ou transtornos mentais comuns diagnosticados pode ser justificada por alguns fatores como: maior procura pelos serviços de saúde; violência de gênero; desigualdade racial e econômica, dependência financeira; enfoque na saúde da família, deixando o cuidado com a própria saúde em segundo plano; sobrecarga de responsabilidades forçadamente assumidas por mulheres, entre outros.²
O grupo Mulheres Por Si Mesmas tem como objetivos: ampliar o cuidado em saúde e acolhimento de mulheres do território; proporcionar a apropriação de outros espaços públicos disponíveis no território e formas de produção de saúde, como acesso à cultura; incentivar a leitura como recurso terapêutico e propiciar a aproximação entre pessoas que possuem um objetivo em comum ou não. Já o presente trabalho tem como objetivo relatar os desafios na retomada de um grupo com vínculos tão estabelecidos após dois anos de restrições para o controle da pandemia de coronavírus.
Entendemos como um diferencial na elaboração deste relato poder valorizar uma ação que está acontecendo enquanto a descrevemos, por meio da escrita desse trabalho em metodologia ativa, do tipo relato de experiência.³ O grupo Mulheres Por Si Mesmas teve um papel importante no protagonismo feminino no território de Pirituba entre 2018 e 2020. Em março de 2020 reunimos 15 usuárias para o grupo que não sabíamos que seria o último por um longo tempo; alguns dias depois foram decretadas as primeiras medidas de contenção da COVID-19. Considerando essa nova demanda pensamos em outras estratégias para manter o grupo em atividade como “lives” pelas redes sociais da Biblioteca. Foram alguns ensaios para a retomada do grupo, porém sempre que estávamos próximas de voltar uma nova onda da COVID com outras demandas de saúde chegava. Finalmente, em julho de 2022 retomamos os grupos, mantendo a frequência mensal, na segunda segunda-feira do mês, no mesmo horário, formato e local. O grupo é aberto para mulheres a partir de 16 anos, divulgado pelas equipes de saúde e mídias sociais da Biblioteca.
Dentre os temas abordados ao longo desses anos tivemos: papel da mulher na sociedade, maternidade real, violência, autoestima, depressão, pressão estética e gordofobia, saúde, sexualidade e prazer, racismo, saúde mental, entre outros. Cada tema contava com um centro na roda, dando simbologia à temática. Em março de 2020 tudo mudou com a chegada da pandemia de COVID-19, todos os cuidados em saúde estavam direcionados ao manejo da COVID, com isso veio a orientação de suspensão dos grupos até segunda ordem. A pandemia do Coronavírus trouxe um novo cenário para vida de mulheres, que passaram a ter mais tarefas dentro de casa, maior risco para violência doméstica e menos espaço para procurar por atendimento em saúde e outras instâncias protetivas.4 Os grupos pós-pandemia têm outra característica, além da máscara cobrindo os sorrisos também temos questões mais complexas com trabalho, família, casa, vulnerabilidade social e autoconhecimento que não apareciam nos grupos anteriores. Quase dois anos após a retomada, é notória a diferença naquelas mulheres, no volume reduzido de usuárias que procuram o grupo e suas demandas. A percepção subjetiva do que as usuárias procuram nesse espaço e a resiliência das coordenadoras se mostraram peças chave para elaborarmos estratégias e perceber o aumento da frequência e permanência das usuárias no grupo.
Nesse relato de experiência podemos ver como o grupo fortaleceu as mulheres que o frequentam, das usuárias às coordenadoras; além de ampliar o olhar para saúde mental das usuárias e ajudar na divulgação de espaços públicos da cidade como os CECCOs e as Bibliotecas Públicas. O resultado é observado pela conscientização das questões de saúde específica, prevenção e autocuidado, além da oferta de um ambiente de suporte contínuo, sobretudo pelo atendimento com trocas coletivas, fomentando a participação social e a promoção da saúde e cultura de maneira integrada de transição para nova normalidade. Durante os anos de existência do grupo, foi observado que a união e resistência dos profissionais e usuários são essenciais para sustentar este espaço ativo e dedicado às questões sociais e de saúde do gênero feminino. Essa importância se estabelece, pois a colaboração fortalece a conscientização, promove a troca de experiências e impulsiona a defesa de direitos. O fundamental desse esforço coletivo é transcender barreiras, contribuindo para uma sociedade mais equitativa e saudável, onde a voz das mulheres é ouvida e respeitada.
saúde mental, emponderamento, saúde da mulher
Mayara Moreira Rogerio Carvalho, Paula Oliveira Vasconcelos, Vanessa Faro Chaves