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O caso M.A.D.A., 56 anos, foi acolhido em janeiro de 2025. Após um evento traumático em 1988, envolvendo sua moto, iniciou quadro de vômitos pós-prandiais espontâneos e incontroláveis. Procurou especialistas, realizou exames, não sendo identificada causa orgânica. Passou a evitar alimentar-se em locais públicos e, cansado desse sofrimento, tentou o autoextermínio com uma espingarda, cujo disparo não ocorreu. O cuidado deu-se sob visão holística do ser, por meio do Projeto Terapêutico Singular (PTS), com atendimentos psiquiátrico, individual e grupos. O CAPS consolidou-se como espaço de acolhimento e pertencimento, sendo esse serviço um desfecho da Reforma Psiquiátrica e da Luta Antimanicomial, alinhado à proposta de desinstitucionalização iniciada por Franco Basaglia e inspirada por Nise da Silveira, com ênfase na valorização do afeto, da escuta e da inclusão social. A Lei nº 10.216/2001 consolidou a proteção dos direitos das pessoas em sofrimento psíquico no SUS. Posteriormente, a RAPS (Portaria nº 3.088/2011, incorporada à Portaria nº 03/2017) fortaleceu a desinstitucionalização e estruturou os CAPS como serviços comunitários pautados no cuidado psicossocial, na autonomia e na cidadania.
Analisar, a partir de levantamento documental e do relato de caso, o percurso de cuidado de um usuário atendido em um CAPS III Adulto, evidenciando as relações entre mente e corpo, bem como os efeitos do cuidado psicossocial, do Projeto Terapêutico Singular e do acolhimento territorial na ressignificação do sofrimento psíquico e na promoção da autonomia.
Trata-se de um estudo de caso documental, complementado por relatos do usuário, desenvolvido a partir de registros do prontuário e do acompanhamento realizado em um CAPS III Adulto. A análise do material ocorreu por meio da análise de conteúdo, fundamentada em referenciais teóricos da saúde mental e do cuidado psicossocial, com rigor científico. A inserção do usuário no serviço ocorreu a partir de uma atenção horizontal e humanizada, orientada pela escuta qualificada, anamnese clínica, construção de vínculo e afeto. O Projeto Terapêutico Singular (PTS) foi elaborado de forma democrática e corresponsável, envolvendo atendimentos individuais, participação em Grupo Terapêutico Intensivo (GTI), oficinas terapêuticas e acompanhamento psiquiátrico, assegurando a interdisciplinaridade do cuidado. O usuário apresentou frequência integral nas atividades propostas, permanecendo em acompanhamento no serviço até o momento da elaboração deste estudo.
Após 37 anos de sofrimento intenso, o usuário iniciou acompanhamento interdisciplinar em saúde mental, com participação assídua no cuidado proposto e corresponsável. Observou-se quadro marcado por ansiedade intensa, pensamentos de morte, submissão relacional e comportamentos compulsivos. Inicialmente diagnosticado com Transtorno de Ansiedade Generalizada e Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o usuário apresentou resposta parcial às primeiras intervenções farmacológicas. Posteriormente, diante do surgimento de sintomas hipomaníacos, caracterizados por agitação, aceleração do pensamento, humor eufórico e comportamento exaltado culminando em episódios impulsivos, houve reavaliação diagnóstica para Transtorno Afetivo Bipolar, com ajuste medicamentoso e melhora sintomática. A participação no GTI configurou-se como espaço de escuta, expressão e construção coletiva do cuidado, favorecendo o autoconhecimento e maior autonomia do usuário, evidenciada em relato sobre a redução de conflitos internos, “aquela segunda pessoa que existia dentro de mim não está mais vindo”. Observou-se também melhora dos sintomas psíquicos e clínicos, além de mudanças na relação com o corpo e com o sofrimento. O caso evidencia a complexidade das manifestações psíquicas e a importância do cuidado psicossocial contínuo, demonstrando que intervenções interdisciplinares, centradas no vínculo e na escuta qualificada, contribuem para a ressignificação do sofrimento e ampliação da participação social do usuário
O caso evidencia o CAPS como espaço de transformação subjetiva e garantia do direito à saúde no SUS. Entre o silêncio e o grito que intitula este trabalho, descreve o sofrimento de M.: “se o CAPS não me acolhesse […] teria tentado o suicídio de novo e não estaria mais aqui para dar esse depoimento”. Ressignificando: “hoje eu vivo uma vida completamente diferente do que eu era, encontrei o caminho certo, voltei a engordar, tô mais falante, tô mais alegre, eu tenho mais determinação para conversar com as pessoas. Eu achei a luz no fundo do poço, porque eu estava no fundo do poço”. Freud descreve as “neuroses atuais” como afecções corporais sem etiologia orgânica, enquanto Groddeck complementa que a doença não é inimiga, mas criação do próprio organismo. Já o DSM-5 inclui os Transtornos de Sintomas Somáticos, caracterizados por sofrimento físico ligado a fatores emocionais e cognitivos. A trajetória da saúde mental ainda está em construção, como propõe Teixeira (1996): “O novo paradigma força uma visão sistêmica e uma postura transdisciplinar […]. A transdisciplinaridade reata a ligação entre os ramos da ciência com os caminhos vivos de espiritualidade […]”, em uma abordagem holística do ser.
Escuta, vínculo, pertencimento e humanização
FABIANA MIRANDA TORRES, PAOLA MATOS CARVALHO, PAULA ROBERTA PEDRUCI LEME, ALESSANDRA MARIA PEDROSO, LETÍCIA SILVEIRA DE SOUZA BRINAS, INGRID ODETE PEREIRA ALVES, SUSAN CARLA PEREIRA RODRIGUES, DANIEL FERREIRA MARTINS JR.