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A Atenção Primária à Saúde (APS) desempenha papel essencial na identificação de vulnerabilidades e na promoção do cuidado integral. Em 2024, uma adolescente de 15 anos iniciou acompanhamento psicológico na UBS Palmeiras, município de Suzano/SP, apresentando baixa autoestima relacionada principalmente ao significativo desalinhamento dentário. A queixa evidenciava sofrimento psíquico importante, interferindo em seu convívio social e em sua autopercepção e, durante o atendimento, identificou-se que o tratamento odontológico poderia contribuir de forma decisiva para sua saúde mental. O fluxo do serviço para encaminhamentos em ortodontia priorizava determinadas faixas etárias e, diante disso, estabeleceu-se um diálogo cuidadoso com o setor de odontologia para avaliar as possibilidades de cuidado dentro da realidade do serviço A partir da escuta sensível e da articulação entre Psicologia, o setor de Saúde Bucal da UBS, coordenação e Centro de Especialidades Odontológicas (CEO), foi possível viabilizar o acesso ao cuidado especializado. A adolescente iniciou ainda em 2024 os atendimentos no CEO, passando por procedimentos cirúrgicos e acompanhamento regular, recebendo cuidado integral. Essa experiência destaca a importância de reconhecer a saúde bucal como componente fundamental da saúde mental, bem como a relevância da flexibilização responsável frente às singularidades dos usuários, especialmente em territórios de vulnerabilidade, onde barreiras de acesso são intensificadas.
Demonstrar a importância da articulação entre Psicologia e Odontologia na APS para garantir cuidado integral. Evidenciar como a escuta qualificada possibilitou superar barreiras de acesso ao tratamento ortodôntico. Relatar o impacto positivo do cuidado multidisciplinar na autoestima e no bem-estar emocional de uma adolescente do território. Ressaltar a relevância da humanização e da consideração do contexto social no processo de cuidado.
Relato de experiência desenvolvido na UBS Palmeiras, a partir do acompanhamento psicológico de uma adolescente com queixa de baixa autoestima. A metodologia envolveu: Escuta qualificada e acolhimento psicológico, identificando a relação entre sofrimento emocional e condição dentária. Monitoramento dos impactos do cuidado integrado na saúde mental da usuária. Avaliação conjunta com o setor de Saúde Bucal para análise de possibilidades de cuidado especializado, considerando o protocolo vigente e as especificidades do caso, reconhecendo a singularidade clínica e psicossocial da usuária e sua vulnerabilidade territorial. Encaminhamento ao Centro de Especialidades Odontológicas (CEO), realizado em setembro de 2024. Tratamento odontológico integral, iniciado ainda em 2024, incluindo procedimento cirúrgico prévio ao uso de aparelho em 2025.
A experiência resultou em um cuidado ampliado e efetivo. A adolescente, antes retraída e insegura, passou a demonstrar progressiva melhora da autoestima ao longo do tratamento. O acesso ao CEO possibilitou procedimentos essenciais que antecederam a ortodontia, culminando, em outubro de 2025, na instalação do aparelho ortodôntico. A equipe de Odontologia articulou-se sensivelmente às demandas da Psicologia, reconhecendo o impacto da saúde bucal na saúde mental. A adolescente passou a relatar maior autoconfiança, retomada da vida social e percepção de si como sujeito de direitos e de cuidado. A partir desse caso, a unidade revisitou sua prática e fortaleceu a pactuação entre Psicologia e Odontologia, ampliando a comunicação interna e a identificação conjunta de situações semelhantes. Isso gerou maior alinhamento entre as equipes e estimulou a replicação desse olhar integrado para outros usuários em sofrimento psíquico ou com dificuldades de acesso, o que deverá ocorrer conforme novas demandas desse tipo forem surgindo. O caso evidenciou que o olhar ampliado permite identificar necessidades que nem sempre se encaixam nos fluxos formais, demonstrando como a sensibilidade profissional pode orientar ajustes e flexibilizações responsáveis dentro da rede. A experiência gerou aprendizados institucionais e reforçou a importância de práticas integradas, que podem ser sistematizadas e replicadas, qualificando o cuidado e fortalecendo a atuação da rede.
A experiência reafirma a potência da Atenção Primária como porta de entrada e coordenadora do cuidado integral. A articulação entre Psicologia e Odontologia evidenciou que a humanização não é um adendo, mas uma prática essencial para que o SUS seja capaz de enxergar sujeitos em sua complexidade. Ao reconhecer que o sofrimento psíquico também se manifesta no corpo, inclusive no sorriso, a APS fortalece sua capacidade de transformar vidas. O caso demonstra que flexibilizações responsáveis, fundamentadas no princípio da equidade, são ferramentas legítimas para ampliar acesso e garantir dignidade, principalmente se considerarmos os desafios de acesso ainda maiores decorrentes da localização ruralizada do território atendido pela unidade de saúde. A trajetória da adolescente revela que saúde mental e saúde bucal não são campos isolados, mas dimensões complementares do cuidado. A experiência reforça a necessidade de equipes sensíveis, dialogadas e abertas às singularidades dos usuários, especialmente em territórios vulneráveis. Assim, reafirma-se o SUS como projeto vivo de acolhimento e construção compartilhada de caminhos possíveis.
articulação, integração, comunicação, humanização
CAMILE LARISSA FERREIRA, CÍCERA FERREIRA DA SILVA