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O envelhecimento populacional representa um desafio crescente para o Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente quando envolve pessoas em sofrimento psíquico grave, cujas trajetórias foram marcadas por longas internações psiquiátricas, privação de direitos, rompimento de vínculos familiares e exclusão social (Veras & Oliveira, 2018). No âmbito municipal, o cuidado a essa população exige estratégias que assegurem atenção integral. O Serviço Residencial Terapêutico (SRT) constitui dispositivo fundamental da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), ao possibilitar o cuidado em liberdade e a reconstrução de projetos de vida (Brasil, 2004; Lima et al., 2023). A experiência ocorre em um SRT destinado a pessoas com histórico de institucionalização psiquiátrica prolongada, atualmente em processo de envelhecimento, com diferentes graus de dependência clínica e psicossocial. Entre os 9 moradores, 3 são idosas, evidenciando a necessidade de estratégias específicas para o envelhecer com dignidade em contextos de desinstitucionalização. A convivência intergeracional na casa tem se mostrado um diferencial, pois favorece trocas de experiências, solidariedade e vínculos afetivos que funcionam como uma nova configuração familiar. O falecimento de uma moradora reforçou o papel do SRT como espaço de cuidado integral até o fim da vida, reafirmando o compromisso do SUS com a Reforma Psiquiátrica e com a garantia de direitos no envelhecer (Amarante, 2007; Pitta, 2019; Carvalho de Lima et al., 2023).
A experiência tem como propósito promover o envelhecimento digno de pessoas em sofrimento psíquico residentes em Serviço Residencial Terapêutico, assegurando-lhes cuidado integral e pertencimento social. Busca favorecer a autonomia possível nas atividades da vida diária, respeitando os limites e potencialidades individuais, ao mesmo tempo em que fortalece vínculos afetivos e relações interpessoais, estimulando a convivência comunitária e o sentimento de inclusão. Pretende ainda reduzir comportamentos desorganizadores e ampliar a estabilidade emocional por meio do cuidado contínuo e da construção de vínculos sólidos com a equipe. Outro objetivo central é articular o SRT à rede municipal de saúde, garantindo acompanhamento clínico, longitudinal e integrado, em consonância com as diretrizes da RAPS.
A experiência foi desenvolvida no cotidiano de um SRT do município de Santana de Parnaíba. Participaram nove moradores (dois homens e sete mulheres), todos com histórico de longas internações psiquiátricas. Durante o período, ocorreu o falecimento de uma moradora, evidenciando a importância do cuidado humanizado também nos processos de terminalidade e luto. As ações envolveram acompanhamento diário, organização da rotina da casa, estímulo à autonomia nas atividades de vida diária (higiene, organização do espaço, preparo de refeições simples, circulação no território), mediação de conflitos e incentivo à convivência coletiva. O cuidado foi articulado com a Atenção Primária à Saúde e com os serviços de saúde mental do território, assegurando acompanhamento clínico regular, manejo medicamentoso, atenção às doenças crônicas e prevenção de agravos relacionados ao envelhecimento. A metodologia priorizou o cuidado em liberdade, o vínculo e a escuta qualificada, evitando práticas institucionalizantes.
A experiência revelou avanços significativos na qualidade de vida dos moradores. Observou-se reconstrução da dignidade humana por meio do acesso à moradia, privacidade, participação nas decisões cotidianas e reconhecimento como sujeitos de direitos. Houve evolução na autonomia possível, com moradores passando a realizar atividades antes não desempenhadas, refletindo positivamente na autoestima e no senso de pertencimento. No aspecto comportamental, constatou-se redução de episódios de agitação e desorganização psíquica, associada à estabilidade da moradia, previsibilidade da rotina e fortalecimento dos vínculos com a equipe. A convivência intergeracional entre idosos e adultos mais jovens mostrou-se especialmente rica, pois promoveu solidariedade, aprendizado mútuo e fortalecimento da identidade coletiva. Consolidou-se a formação de uma nova configuração familiar no interior do SRT, baseada no cuidado mútuo e no afeto. O falecimento de uma moradora reforçou o papel do SRT como espaço de cuidado até o fim da vida, garantindo dignidade no envelhecer e evidenciando que o envelhecimento pode ser vivido com qualidade mesmo após longos períodos de privação de direitos.
A experiência do SRT de Santana de Parnaíba demonstra que o envelhecimento de pessoas em sofrimento psíquico, historicamente privadas de direitos em hospitais psiquiátricos, pode ocorrer com dignidade quando sustentado por políticas públicas comprometidas com o cuidado em liberdade. O SRT se consolidou como espaço de reconstrução de histórias de vida, vínculos e identidades, especialmente para idosos que envelhecem em contexto de desinstitucionalização. A convivência intergeracional na casa fortaleceu a solidariedade e o pertencimento, mostrando que o envelhecer pode ser vivido em comunidade, com afeto e apoio mútuo. Os resultados evidenciam a importância do investimento municipal nos SRTs, da qualificação das equipes e do fortalecimento da articulação em rede. Como perspectiva futura, destaca-se a ampliação de ações voltadas ao envelhecimento saudável, à prevenção de agravos e à consolidação de estratégias intersetoriais que garantam cuidado integral, pertencimento social e qualidade de vida. A experiência reafirma o compromisso do SUS com uma saúde pública humanizada, inclusiva e centrada na vida com dignidade.
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WANDERSON OLIVEIRA DA SILVA, NATÁLIA DE CÁSSIA ALVES, SOLANGE RODRIGUES ROSSONE, ENEIDA COSTA RAMALHO, RAFAEL RAFAINI LLORET, MARIA SILVIA DE ALMEIDA MELLO FREIRE