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Introdução e Justificativa O envelhecimento é frequentemente compreendido a partir de uma perspectiva estritamente cronológica, desconsiderando os atravessamentos sociais, econômicos e territoriais que produzem diferentes formas de envelhecer. No contexto do CAPS Adulto de Embu das Artes-SP observou-se que usuários em sofrimento psíquico, especialmente residentes de territórios periféricos, apresentam marcas de envelhecimento precoce relacionadas à vulnerabilidade social, à exposição contínua ao estresse e às desigualdades no acesso a direitos. Diante disso, percebemos a necessidade de problematizar o envelhecer para além da idade cronológica, ampliando a leitura clínica e psicossocial das equipes. A experiência foi desenvolvida com usuários adultos do serviço, ao longo de atividades grupais, rodas de conversa buscando qualificar o cuidado em saúde mental no SUS e fortalecer práticas sensíveis às determinantes sociais da saúde.
Refletir e ampliar a compreensão do envelhecimento para além da idade cronológica considerando marcadores sociais e territoriais no cuidado em saúde mental problematizando, junto aos usuários, as múltiplas formas de envelhecer em território periférico. Qualificando o olhar da equipe para sinais de envelhecimento relacionados a vulnerabilidades sociais, ofertar espaços grupais de expressão sobre corpo, tempo e trajetória de vida, promovendo espaços territoriais de convivência e fortalecimento de vínculos e autonomia do usuário frente ao seu cuidado em saúde
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido em um CAPS Adulto do município de Embu das Artes-SP, conduzido pela equipe técnica multidisciplinar composta por psicólogos, assistente sociais, enfermeiros e técnicos de enfermagem e oficineira. Participam usuários do serviço, acompanhados de seus familiares, com média de 10 a 20 utentes por encontro. São realizados grupos terapêuticos semanais, rodas de conversa e dinâmicas expressivas, incluindo atividades com poesia, música e construção da linha do tempo de vida dos participantes. As intervenções buscaram promover a elaboração simbólica das experiências relacionadas ao envelhecimento, ao sofrimento psíquico e ao pertencimento territorial. Paralelamente, ocorrem discussões de casos em reunião de equipe multiprofissional, com análise ampliada das situações e construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS) no âmbito dos Grupos de Referência Técnica. Nesse processo, foram considerados os impactos do envelhecer singular de cada sujeito, compreendendo que identidade, pertencimento e sofrimento são produzidos nas relações humanas e nas dinâmicas do território geográfico e político, atravessado por relações de poder. As atividades abordam percepções sobre envelhecimento, impactos do território, experiências de sofrimento e estratégias individuais e coletivas de cuidado.
Observou-se que muitos usuários se reconheciam “envelhecidos” não pela idade cronológica, mas pelo acúmulo de vivências marcadas por pobreza, violência, exclusão social e sobrecarga emocional. A problematização coletiva possibilita a ressignificação dessas narrativas, favorecendo maior consciência acerca dos determinantes sociais do sofrimento psíquico. Acarretou no aumento da participação dos usuários nos grupos terapêuticos e nos Grupos de Referência Técnica, maior abertura para a expressão de sentimentos e fortalecimento do vínculo com a equipe, ampliou o olhar dos usuários sobre o próprio cuidado, especialmente frente às demandas impostas pelo território, com maior reconhecimento de estratégias de resistência e produção de saúde, refletindo positivamente na construção e no acompanhamento do Projeto Terapêutico Singular (PTS).
A problematização do envelhecer para além da idade cronológica mostrou-se estratégia potente para qualificar o cuidado, fortalecer vínculos e promover autonomia no território. A experiência evidenciou que o envelhecimento, no contexto da saúde mental e dos territórios periféricos, não pode ser reduzido à idade cronológica. Marcadores sociais, históricos e territoriais produzem formas singulares de desgaste, sofrimento e também de resistência e potência. Incorporar essa leitura ampliada no CAPS fortalece o cuidado integral, a clínica ampliada e o compromisso do SUS com a equidade, favorecendo intervenções mais sensíveis às condições concretas de vida dos usuários.
Envelhecimento; determinantes sociais da saúde;
BÁRBARA BELLA URBAN, FRANCIELE LOPES DOS SANTOS, ALEXANDRE OLIVEIRA DO NASCIMENTO, EDINEIA AVELINO, ERIVANDA BATISTA DE HOLANDA, LAYS GABRIELA FONSECA, LILIAN DA SILVA CORREA RODRIGUES, KARIN ALINE GALLO TELIS, PEDRO DANIEL GOIS DE MIRANDA, MIRIAM PONTES MARREIRO, VIVIANE CARDOSO SILVA