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O envelhecimento populacional é uma realidade crescente no Brasil, trazendo desafios às políticas públicas de saúde, especialmente na saúde mental. O aumento da expectativa de vida exige reorganização dos serviços para atender às necessidades da população idosa, considerando aspectos biopsicossociais e cognitivos. Na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) têm papel central na promoção do cuidado em liberdade e na reabilitação psicossocial. Entre os usuários, cresce o número de idosos com transtornos mentais graves, quadros depressivos e comprometimentos cognitivos leves, além de sofrimento psíquico associado ao isolamento social e perdas funcionais. O envelhecimento traz mudanças naturais no funcionamento cognitivo, mas não deve ser visto como incapacidade. A estimulação cognitiva, a manutenção de vínculos sociais e a participação em atividades significativas favorecem autonomia, autoestima e funcionalidade. Nesse contexto, oficinas de trabalhos manuais no CAPS configuram estratégia terapêutica potente, articulando expressão, coordenação motora, criatividade e interação social. O uso de materiais diversos possibilita experimentação sensorial, desenvolvimento de habilidades e estimulação de funções cognitivas como memória, atenção e resolução de problemas. A experiência ocorre no CAPS III Alvorecer, em Santana de Parnaíba, desde agosto de 2023, com participação de idosos acompanhados pela equipe multiprofissional.
O objetivo geral da experiência é analisar a contribuição da oficina temática de trabalhos manuais no desenvolvimento cognitivo, funcional e psicossocial de usuários idosos acompanhados em um CAPS. Busca-se estimular habilidades de coordenação motora e percepção visuoespacial, favorecer a manutenção e ampliação das funções cognitivas como memória, atenção e planejamento, promover autoestima, autonomia e protagonismo dos participantes, fortalecer vínculos sociais e o convívio grupal, além de contribuir para a construção de projetos terapêuticos singulares voltados ao envelhecimento saudável.
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido no CAPS III Alvorecer, em Santana de Parnaíba, por meio da implementação de uma oficina temática de trabalhos manuais voltada a usuários em processo de envelhecimento, mas aberta também a outras faixas etárias, favorecendo a intergeracionalidade. A oficina ocorre semanalmente, com duração média de 1h30, conduzida por dois profissionais da equipe multiprofissional. As atividades são planejadas de forma estruturada, mas flexível, considerando grau de funcionalidade, interesse dos participantes, datas comemorativas e objetivos terapêuticos definidos nos Projetos Terapêuticos Singulares (PTS). São utilizados diversos materiais (papel, cartolina, EVA, tecidos, tintas, linhas, madeira, recicláveis), estimulando habilidades motoras e cognitivas. As atividades incluem recorte, colagem, pintura, costura simples, montagem de objetos decorativos e produção artesanal. A convivência intergeracional amplia o potencial terapêutico, promovendo trocas de saberes, valorização da experiência dos idosos e estímulo à participação dos mais jovens, fortalecendo vínculos sociais e comunitários. A avaliação ocorre por meio de observação clínica sistematizada, registros em prontuário, discussão em equipe e acompanhamento longitudinal da evolução funcional e psicossocial dos participantes.
A experiência demonstrou impactos positivos em diferentes dimensões. No aspecto cognitivo, observou-se melhora na concentração, maior organização sequencial das tarefas e estímulo à memória operacional, especialmente em atividades que exigem seguir etapas e instruções. Quanto à coordenação motora, as atividades de recorte, pintura, colagem e costura favoreceram a destreza manual e a percepção visomotora, contribuindo para a manutenção da funcionalidade nas atividades de vida diária. No campo da autoestima e protagonismo, a produção de objetos concretos reforçou o sentimento de capacidade e pertencimento, com relatos de satisfação ao compartilhar os trabalhos com familiares. A socialização também foi fortalecida, já que a oficina se constituiu como espaço de convivência e troca de experiências, reduzindo o isolamento social e ampliando vínculos. A intergeracionalidade trouxe benefícios adicionais, promovendo trocas de saberes entre diferentes faixas etárias, valorização da experiência dos idosos e estímulo à participação dos mais jovens, o que fortaleceu laços comunitários e ampliou a diversidade das interações. Por fim, a oficina passou a integrar de forma estruturada os Projetos Terapêuticos Singulares, sendo reconhecida como estratégia de cuidado integral e reabilitação psicossocial, indo além de uma atividade manual.
O envelhecimento no contexto da saúde mental exige estratégias que articulem cuidado clínico, reabilitação psicossocial e promoção da autonomia. A oficina de trabalhos manuais mostrou-se uma ferramenta potente para estimulação cognitiva, fortalecimento da coordenação motora fina e ampliação dos vínculos sociais. Mais que atividade manual, constitui espaço de cuidado em liberdade, produção de sentido e valorização da história de vida dos usuários. A convivência intergeracional ampliou os benefícios, promovendo trocas de saberes, valorização da experiência dos idosos e estímulo à participação dos mais jovens, fortalecendo laços comunitários e diversidade nas interações. Essa dimensão reforça o caráter inclusivo do CAPS e aponta para a necessidade de expandir práticas que integrem diferentes gerações, favorecendo o envelhecimento ativo e o protagonismo coletivo. Destaca-se a importância de ampliar investimentos em práticas grupais estruturadas, formação das equipes e valorização de tecnologias leves no cuidado à pessoa idosa e na promoção da convivência intergeracional na RAPS.
CAPS, envelhecimento, oficina terapêutica
CLAUDIA PAOLA SAAVEDRA SCHUSTER, RODNÉIA MARIA BROSTOLINE, NATÁLIA DE CÁSSIA ALVES, JANAINA CRUZ MARINI, ENEIDA COSTA RAMALHO, SOLANGE RODRIGUES ROSSONE, JEFERSON GIOVAN VOLKWEIS, RAFAEL RAFAINI LLORET, MARIA SILVIA DE ALMEIDA MELLO FREIRE