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O envelhecimento populacional é um fenômeno global.1 No Brasil, estima-se que até 2060, cerca de 33% da população será idosa. Atualmente, a cidade de São Paulo abriga 3.252.531 pessoas com 60 anos ou mais.1,2 Para atender a essa demanda, foram criadas as Unidades de Referência à Saúde do Idoso (URSI), que oferecem atenção ambulatorial especializada a pessoas idosas.3 Em 2021, com a atualização das diretrizes da Rede de Atenção à Saúde da Pessoa Idosa (RASPI)4, foi instituído o Núcleo de Apoio Gerontológico (NAG) nas URSI, visando fortalecer sua atuação territorial, especialmente para casos de fragilidade e vulnerabilidade com dificuldade de acesso aos serviços especializados. Paralelamente, cresce o número de pessoas em situação de rua no Brasil, com um aumento de 140 % entre 2012 e 2020, totalizando 31.884 indivíduos apenas no município de São Paulo.5 Esse grupo é heterogêneo, atravessado por questões de dificuldade de acesso a políticas públicas e outras problemáticas, como uso abusivo de drogas.6 Pessoas idosas, por terem maior potencial de fragilização, agravamento de doenças crônicas e perda de autonomia e mobilidade, tornam-se ainda mais vulneráveis se em situação de rua.6,7 Diante desse cenário, é pertinente mobilizar estratégias que atendam integralmente a população idosa em situação de rua, a partir do cuidado já existente em todo o território da cidade de São Paulo oferecido pelas URSI, realizando as adaptações necessárias.
Criar um modelo de atenção especializada no território da Supervisão Técnica de Saúde (STS) Lapa/Pinheiros, que poderá ser replicado por outras regionais, para ampliação do cuidado em saúde oferecido às pessoas idosas em situação de rua na cidade de São Paulo envolvendo a modalidade de atenção oferecida pelas URSI.
Considerando as especificidades, complexidades e necessidades de atenção em saúde à população idosa em situação de rua na cidade de São Paulo, foi desenvolvido um projeto piloto pela URSI Geraldo de Paula Souza, dividido nas seguinte fases: Fase 1 – Diagnóstico situacional: contato com a STS Lapa/Pinheiros para levantamento do número de idosos cadastrados pelas equipes de Consultório na Rua (CnRua) do território; conhecer os principais locais de atendimento das equipes de CnRua; reuniões entre as equipes de CnRua e URSI para aproximação e conhecimento das principais demandas; participação da URSI na reunião Rede Rua para aproximação com os serviços e com a realidade do cuidado a essa população. Fase 2 – Planejamento e implementação de ações (em execução): capacitação de todas as equipes CnRua da STS Lapa/Pinheiros para a aplicação da Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa (AMPI-AB); matriciamento URSI-CnRua para desenvolvimento da competência cultural na atenção à essa população; desenvolvimento de fluxos de encaminhamento para a URSI. Fase 3 – Atenção especializada à população idosa em situação de rua: ações de atendimento compartilhado em grupo com as equipes CnRua e Serviços da Política de Assistência Social do território; atendimentos individuais pela equipe URSI; levantamento das especificidades clínicas, sociais e psicológicas da população idosa em situação de rua no território Lapa/Pinheiros. Fase 4 – Reavaliação das estratégias utilizadas até o momento.
Atualmente, há 174 pessoas idosas em situação de rua cadastradas pelas equipes CnRua da STS Lapa/Pinheiros (75 na equipe Pinheiros, 84 na Lapa e 15 na equipe CEAGESP), com maior concentração de indivíduos no endereço Largo da Batata e no Centro Temporário de Acolhida (CTA) Zancone. A média de idade desses idosos é de 65 anos. Foram realizadas três capacitações para uso da AMPI-AB pelas equipes CnRua. A equipe da URSI, via NAG, realizou atividades compartilhadas em locais estratégicos do território: CTA 8 Lapa: apoio do Centro de Especialidades Odontológicas Lapa com kits de higiene bucal para aproximação com os acolhidos. CTA Zancone: roda de conversa sobre envelhecimento na rua. Largo da Batata: busca ativa de idosos acompanhados pela CnRua Pinheiros para aplicação da AMPI-AB. Núcleo de Convivência Pinheiros – SASBJP: ação do Novembro Azul sobre saúde do homem. Houve aproximação e integração entre os serviços que atendem idosos e pessoas em situação de rua (Rede Intersetorial de Proteção à Pessoa Idosa Lapa/Pinheiros e Rede Rua) por meio do Fórum de trabalhadores do território. Além disso, a URSI tem se consolidado como um ponto de atenção à saúde dessa população, evidenciado pelo encaminhamento de indivíduos pelas equipes CnRua (três até o momento), pela discussão de casos complexos e pelo atendimento compartilhado no território.
As ações implementadas até o momento apontam pontos para reflexão e aprimoramento da estratégia: A média de idade das pessoas idosas em situação de rua do território é bem menor que a média de 80 anos do público atendido na URSI Geraldo de Paula Souza, levantando questionamentos sobre sua expectativa de vida. Viabilidade e aplicabilidade da AMPI-AB no contexto da rua: o contexto da rua impõe desafios à aplicação dessa avaliação, uma vez que alguns de seus aspectos não contemplam plenamente a realidade dessas pessoas. O cuidado à população idosa em situação de rua representa um desafio para toda a Rede, exigindo uma abordagem transversal, articulando as diferentes Redes de Atenção à Saúde e setores como saúde, assistência social, trabalho e moradia. Os fluxos de encaminhamento para URSI precisam ser flexibilizados e as ações via NAG ampliadas, garantindo acesso. Dar visibilidade às pessoas idosas em situação de rua e refletir sobre suas necessidades é essencial para construir novos modelos de atenção que ofereçam um cuidado mais adequado.
envelhecimento, situação de rua, população idosa
FLÁVIA HORTA HUNGRIA, ISADORA CARDOSO SALLES FILA PECENIN, NOELLY JAYNE DE OLIVEIRA SILVA