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Em abril de 2024 foi inaugurado o CAPS AD – “Prof Abílio da Costa Rosa” no município de Assis, São Paulo, fortalecendo o cuidado das pessoas em sofrimento psíquico relacionado ao uso de álcool e outras drogas. Desde sua inauguração, foram iniciadas atividades regulares de capoeira, até o momento presente, conduzida por uma psicóloga e um educador social. As atividades de capoeira são destinadas a usuários do serviço, com a integração de trabalhadores do serviço, estagiários e capoeiristas da comunidade. As atividades contam com musicalidade, movimentação de capoeira, rodas de conversa sobre a história da capoeira, trocas afetivas de experiências individuais e coletivas e também sobre a relação que cada um constrói com as substâncias psicoativas. A Capoeira enquanto ferramenta produtora de saúde mental tem caráter potencializador da retomada da própria história, quando destinada para sujeitos em sofrimento devido ao uso prejudicial de Álcool e outras Drogas. As movimentações de capoeira para sujeitos que já foram praticantes em algum momento da vida, trazem memórias corporais e, com elas, o desejo pela retomada de sua própria saúde física. Por ser um movimento popular coletivo que acolhe a diversidade de pessoas, e por ser uma prática de saúde física e mental, essa experiência concretiza os princípios do SUS e também promove acesso ao cuidado de pessoas em sofrimento e pessoas em vulnerabilidade social, através da vinculação ao serviço.
Elaborar questões da própria saúde mental que levaram a pessoa atendida no serviço a fazer uso prejudicial de álcool e outras drogas e retomar a autonomia e responsabilidades nesse processo; Identificar a necessidade de retomada da saúde física e a prática de redução de danos; Ressignificar a relação que o indivíduo em sofrimento possui com a substância que faz uso prejudicial; Transformar o imaginário social sobre a loucura e a drogadição e ressocializar os indivíduos através da integração com capoeiristas da comunidade; Retomar o sentido que a capoeira já proporcionou para a organização e saúde mental de pessoas que já praticaram em algum momento da vida, reconectando memórias e histórias; Construir um espaço coletivo de protagonismo de cada sujeito e promover a convivência em diversidade de pessoas; Retomar a autonomia sobre as próprias potencialidades e desejos.
As atividades de capoeira ocorrem duas vezes na semana com a durabilidade de duas horas. Conta com instrumentação, cantoria, alongamento, movimentos de capoeira, dinâmicas, rodas de conversa sobre história da Capoeira, da Diáspora Africana, da escravização, do racismo estrutural, da criminalização, descriminalização e reconhecimento da Capoeira e trocas afetivas de experiências individuais e coletivas decorrentes desse processo sócio-histórico, incluindo trocas sobre uso de substâncias, redução de danos, abstinência e recursividade. As atividades são destinadas a pessoas atendidas no CAPS AD, com a integração de trabalhadores do serviço, estagiários e capoeiristas da comunidade. O trabalho conta com articulação de Rede Intersetorial e a movimentos culturais da cidade: No Dia Nacional da Luta Antimanicomial, em maio de 2024, os integrantes das Oficinas de Capoeira dos CAPS AD, II e IJ, compuseram uma passeata na avenida principal, dialogando com a Luta; Em maio de 2024, a Secretaria da Assistência Social organizou um evento com ações direcionadas para a população de rua, tais como Cadastramento no CadÚnico, corte de cabelo e alimentação. Neste evento, foi realizada uma roda de Capoeira, que possibilitou uma integração entre usuários do CAPS AD, capoeiristas da comunidade externa, população de rua, Consultório na Rua e Assistência Social; Aos segundos domingos do mês, os usuários do CAPS AD e do Consultório na Rua se juntam aos capoeiristas da cidade na Roda da Feira Livre;
Podemos afirmar que a capoeira possibilita a reintegração de pessoas atendidas no CAPS AD que transitam em diversos cenários e territórios da cidade através do cuidado em liberdade. Observamos que a atividade apresenta um caráter terapêutico de curto prazo, onde as pessoas relatam melhorias consideráveis em seu estado mental após cada encontro. Também observamos caráter terapêutico de médio a longo prazo, onde as pessoas realizam práticas de redução de danos, iniciam uma rotina de atividades físicas, retomam o desejo do cuidado com a saúde, atividades laborais e retomada de relações pessoais e familiares através da experiência coletiva. Nas atividades extramuros, Intersetoriais e movimentos culturais da cidade, foi possível observar, de um lado, a reintegração de pessoas em vulnerabilidade na sociedade e, por outro lado, a transformação do imaginário social a respeito da drogadição e pessoas em situação de rua. Uma das consequências do uso abusivo de substâncias psicoativas são lesões e ferimentos graves, causados pelos riscos que o sujeito se coloca quando está sob efeito. Por conta disso, as pessoas que participam da capoeira se encontram frequentemente lesionadas, o que dificulta a evolução de práticas físicas, nos limitando a desenvolver com mais qualidade a prática musical e rodas de conversa.
A capoeira é uma tecnologia africana produtora de saúde mental. Estar no contexto de atividade terapêutica é um reconhecimento importante, pois seus fundamentos são potencializadores da autonomia. A potencialização da autonomia para pessoas que estão em uso intenso de álcool e outras drogas é de extrema importância, devido ao fato de que essas pessoas criam uma relação tóxica com a substância que fazem uso e frequentemente perdem o controle de esferas importantes da vida, tais como relações, vínculos, trabalho, autocuidado, estudo e atividades que fazem sentido em suas vivências. Consideramos que a vinculação com a capoeira permite que essas pessoas voltem a desejar cumprir com compromissos que fazem sentido para a própria subjetividade. Ela funciona como um fio condutor para a retomada da história. A recursividade nesse processo de retomada se relaciona com fundamentos da capoeira e também com o caráter processual que a aprendizagem dessa arte proporciona. Sendo a capoeira considerada como uma aprendizagem interminável, assim também é a reelaboração da subjetividade, da saúde mental e o uso prejudicial de álcool e outras drogas.
Capoeira, álcool e drogas, cuidado
JULIANA ALMEIDA DE MOURA, THIAGO DE BARROS SOUZA