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A presente experiência desenvolve-se no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) III Alegria de Viver, no município de Sorocaba/SP, com atividades iniciadas em março de 2025. O projeto justifica-se pela urgência em consolidar estratégias de cuidado em liberdade que operem na contramão da lógica manicomial e da patologização da vida. No contexto da saúde mental pública, a escrita experimental surge como um dispositivo clínico- político fundamental para a produção de subjetividade. Fundamentamo-nos no referencial teórico de Mary Jane Spink sobre as práticas discursivas, compreendendo que a linguagem não é meramente um veículo de transmissão de informações, mas um lugar de ação onde os sentidos são construídos socialmente. A produção de sentidos, conforme Spink, é uma prática social situada, dialógica e constante no cotidiano. No CAPS, onde o sujeito muitas vezes chega com sua história fragmentada pelo diagnóstico, a oficina oferece o suporte para a reorganização dessas narrativas. O local da prática é a própria unidade, envolvendo trabalhadores e usuários em sofrimento mental grave. A relevância para o SUS municipal reside no fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) através de Práticas Integrativas que valorizam o saber do usuário, promovendo a equidade ao dar voz àqueles historicamente silenciados, permitindo que a população beneficiada reconstrua sua identidade para além do estigma do transtorno mental.
O objetivo central é construir um espaço coletivo de produção de subjetividade onde a escrita atue como instrumento de expressão e cuidado, permitindo a invenção de novos sentidos para o viver. Sob a densidade teórica da psicologia social, busca-se compreender como o uso da palavra escrita pode operar como uma ferramenta de mediação entre a experiência subjetiva e o compartilhamento público no território do CAPS. Pretende-se fomentar o protagonismo e a autonomia dos participantes, oferecendo um suporte para que os afetos e memórias encontrem contornos discursivos. A oficina não visa a correção gramatical ou a estética literária, mas sim o potencial emancipatório da narrativa. Objetiva- se, ainda, fortalecer a dimensão de pertencimento ao grupo, utilizando a escrita como um disparador para a reflexão crítica sobre a própria trajetória de vida, facilitando a negociação de sentidos no contexto das práticas cotidianas de saúde mental e promoção de cidadania.
A metodologia da oficina é orientada pela ética do acolhimento e pela dialogia. Os encontros são semanais, reunindo de 6 a 12 participantes, e estruturam-se em três momentos interdependentes: 1) Sensibilização: Utilização de objetos disparadores de sentidos, como músicas, poesias, imagens ou temas da atualidade, visando mobilizar o que Spink denomina de repertórios interpretativos dos sujeitos. 2) Escrita Livre e Experimental: Um tempo protegido para a grafia do desejo, onde os participantes são encorajados a produzir textos sem o rigor da norma culta, permitindo o fluxo de consciência em diversos formatos (cartas, versos, frases soltas ou desenhos-palavra). 3) Momento da Roda de Conversa e Compartilhamento: Esta é a etapa crucial de produção dialógica. Ao lerem seus textos, os participantes não apenas transmitem conteúdo, mas performam novas identidades. A escuta coletiva é pautada na ausência de julgamento, focando nas ressonâncias que cada fala produz no outro. Teoricamente, este processo baseia-se na ideia de que os sentidos não estão dentro das pessoas, mas entre elas, na interação social. O coordenador do grupo (Psicólogo) atua como um facilitador que auxilia na circulação da palavra, garantindo que o CAPS se mantenha como um espaço de trocas sociais ricas, onde o cuidado se faz na construção conjunta de novas possibilidades de interpretação da realidade e do sofrimento psíquico.
Os resultados alcançados após quase um ano de implementação revelam a eficácia da escrita como tecnologia leve de cuidado. Observou-se uma significativa melhora na capacidade de autoexpressão dos usuários, que passaram a utilizar a escrita para mediar conflitos e elaborar perdas. Quantitativamente, a adesão constante de um núcleo de usuários demonstra o fortalecimento do vínculo com o serviço. Qualitativamente, a análise dos relatos evidencia a produção de novos sentidos: usuários que se descreviam apenas por sintomas passaram a se narrar como poetas, escritores e sujeitos de desejos. A oficina Escrita Experimental permitiu a emergência de vozes que antes se encontravam em estado de isolamento afetivo. Através das reflexões coletivas, percebeu-se uma diminuição nas crises agudas durante os dias de oficina, sugerindo que a externalização da dor via palavra atua como um regulador subjetivo. A experiência é considerada exitosa por converter o espaço institucional em um território de invenção e liberdade, onde a produção discursiva favorece o resgate da dignidade e da autoestima. Os participantes relatam uma sensação de alívio e de serem ouvidos de verdade, o que corrobora a tese de Spink de que a linguagem é o lugar onde a subjetividade se materializa e se transforma. A oficina consolidou-se como um nó potente na rede de afetos do CAPS III, promovendo um espaço de cuidado através da escuta e da palavra escrita.
A experiência da oficina no CAPS III Alegria de Viver reafirma que o cuidado em saúde mental deve contemplar a complexidade da produção humana. Conclui-se que a escrita experimental, fundamentada na perspectiva da produção de sentidos nas práticas cotidianas, é uma estratégia potente para a consolidação dos princípios do SUS, especialmente a integralidade e a humanização. As reflexões ocorridas durante o processo mostram que, quando oferecemos condições para a fala e para a escrita, o sujeito sai da posição de objeto da medicina para tornar-se autor da própria história. O grupo demonstrou ser um espaço de resistência contra o empobrecimento existencial, evidenciando que a articulação entre as práticas artísticas e as dinâmicas discursivas institucionais fortalece o cuidado em liberdade. As expectativas futuras envolvem a ampliação do projeto e a criação de publicações que façam circular os sentidos produzidos no CAPS para a cidade de Sorocaba, combatendo o estigma e fortalecendo o laço social. A escrita, portanto, não é apenas um registro, é um ato de vida e de luta política pela saúde pública.
saúde mental, espaço coletivo, sujbetividade
VICTOR RODRIGUES PAES DE CAMARGO