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O programa de residência multiprofissional em atenção básica e saúde da família de Guarulhos foi implementado em 2018 (Guarulhos, S/D) e segue se modificando e se adaptando às mudanças sociais. É dentro deste programa que, seguindo a tendência municipal de ampliação do cuidado à saúde da população indígena do município, se inicia a estruturação dos estágios dentro dos serviços da equipe de saúde indígena da cidade. O programa conta com 30 dias disponíveis para estágios obrigatórios, estes sendo realizados com o intuito de conhecer outros serviços da rede municipal de saúde, para além da vivência nas Unidades Básicas de Saúde que são do cotidiano da residência. Conhecer a rotina da equipe de saúde indígena serve como forma de se apropriar mais intimamente da temática, para a compreensão dos desafios e potências do trabalho ligado às especificidades da população indígena em contexto urbano. A vida dos povos indígenas em áreas urbanas é marcada por desafios, que, embora distintos dos vividos em territórios tradicionais, são igualmente complexos. Entre os desafios estão o apagamento de suas identidades, o racismo – que vai desde microagressões sutis a atos de violência explícita – e constantes estigmas sociais (Vieira; Naglis, 2023). Quando alguém não se enquadra no estereótipo limitado e socialmente construído do que é ser indígena, sua identidade passa a ser questionada e negada, o que pode resultar em diversas formas de sofrimento e adoecimento (Silva, 2021).
O objetivo deste trabalho é relatar e analisar as experiências vivenciadas durante o estágio na equipe de saúde indígena de Guarulhos, no contexto do programa de residência multiprofissional em atenção básica e saúde da família. A partir dessa vivência, busca-se discutir a importância de um olhar ampliado sobre a saúde da população indígena em contexto urbano, destacando as fragilidades nas políticas públicas voltadas para essa população em comparação aos indígenas aldeados, e evidenciar a necessidade de capacitação dos profissionais de saúde para lidar com as especificidades culturais e sociais das diferentes etnias em relação aos processos de adoecimento.
O programa conta com 30 dias de estágios obrigatórios e se dá a partir do acompanhamento da médica responsável pela equipe de saúde indígena, Dra. Carla Rafaela Donegá, com atendimentos multidisciplinares, tanto no ambulatório de saúde indígena de Guarulhos – localizado no Centro de Especialidades Médicas de Guarulhos (CEMEG) São João – quanto em São Paulo, e também na Reserva Multiétnica Filhos Desta Terra. Há o acompanhamento de discussões de caso com outros profissionais de saúde e a participação em reuniões de âmbito gerencial das questões burocráticas da implementação da política de atenção à saúde diferenciada dessa população no município – e municípios próximos que têm Guarulhos como referência na construção de seus serviços. A amplitude de ações realizadas dentro do período de estágio demonstra na prática que a atuação na saúde indígena não é apenas dentro dos atendimentos, mas, mais que isso, também na participação da tomada de decisões da gestão na formulação das políticas voltadas aos povos indígenas. A participação do residente multidisciplinar agrega na possibilidade de contribuição de novos olhares das diferentes pessoas e profissões que compõem o programa.
O estágio com a equipe de saúde indígena contribui para aprofundar a percepção junto aos residentes quanto à complexidade do trabalho em saúde ao se considerar a individualidade subjetiva de cada um dos pacientes devido ao próprio sistema de crenças que eles possuem – algo que é importante destacar, e certamente se amplifica quando falamos de pessoas indígenas, mas não se restringe a elas, independente de etnia, gênero, classe ou sexualidade, terá uma relação única com o seu processo de adoecimento (Mory; Rey, 2012). Essa compreensão é essencial no processo formativo de todos que se propõem a compor o Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, a implementação deste campo de estágio revelou um impacto significativo: o despertar do interesse de diversos residentes. Esse resultado permite vislumbrar que a ampliação de espaços que discutam e reflitam sobre a realidade da população indígena — e, mais importante, dialoguem diretamente com ela — tem o potencial de formar um número crescente de profissionais dispostos e capacitados a atuar nesse contexto. Ademais, é importante que a população tenha a possibilidade de atendimentos multidisciplinares com profissionais interessados no processo de cuidado que respeitem e acolham suas diferentes formas de existir no mundo, ganhando assim com as diferentes visões que estes possuem dentro de seus saberes específicos, descentralizando, dessa forma, do modelo médico-curativo (Sobral, 2022).
Diante da dívida histórica que a sociedade carrega em relação aos indígenas — marcada por séculos de genocídio e etnocídio, ainda em curso — oferecer um serviço de qualidade a essa população é o mínimo que se pode fazer. A atenção diferenciada é essencial, pois compreendemos saúde como o equilíbrio entre bem-estar físico, psíquico e social, algo que só pode ser plenamente alcançado entre os povos indígenas através do respeito por suas práticas e culturas. Formar profissionais capacitados, sensíveis a essas particularidades, é apenas o início de um longo processo de luta e conquista de direitos. Para as populações indígenas, saúde vai além do cuidado físico; é território, direito à memória, respeito à natureza e preservação dos modos de vida tradicionais. O fortalecimento dessa luta exige o apoio crescente de aliados, tanto entre a sociedade quanto entre profissionais de saúde, para que seja possível construir uma atenção à saúde indígena completa e eficaz. Assim, mais do que apenas um trabalho, atuar como profissional da saúde junto a essas populações é um compromisso político, que demanda articulação, envolvimento pessoal contínuo, e que não se limita ao horário de expediente ou às paredes de um consultório.
Saúde Indígena; Residência multiprofissional.
CARLA RAFAELA DONEGÁ, ANDREA CRISTINA GARCIA, REGIANE VIEIRA SOUZA, GABRIEL N. KOMEÇU, RAPHAELA NOCHELLI BRAZ