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No início 2023, a cidade de Caieiras inaugura o ano com o 1º edital de concurso público para saúde, angariando o cargo de Apoiador em Saúde Multiprofissional como aposta de fortalecimento do diálogo entre o território e seus serviços, gerentes, trabalhadores e usuários com as respectivas Diretorias Técnicas. Em maio do mesmo ano, trabalhadoras convocadas pelo concurso iniciam a implementação do Apoio em Saúde enquanto ferramenta de produção e gestão do cuidado na Atenção Especializada, incluindo a responsabilidade de um Centro de Atenção Psicossocial Infanto Juvenil (CAPS IJ) recém inaugurado na cidade. A demanda e a necessidade em saúde de crianças e adolescentes com transtornos mentais intensos e persistentes e com sofrimento ou transtorno mental em geral, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas1 eram identificadas pelas equipes de saúde de maneira crescente, com maior evidência para as crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), assim como o vazio assistencial para compartilhar, matriciar e/ou encaminhar os devidos usuários. É a partir dessa demanda percebida e relatada por mães, usuários, trabalhadores da saúde e gestores da qual se delimita o caminho a ser percorrido para o compartilhamento, cooperatividade, reorganização e resolutividade como estratégia e ferramenta constante de pactuação do que mesmo viria a ser a Rede de Atenção Psicossocial Infanto Juvenil no município de Caieiras.
(Re)organizar a RAPS Infanto Juvenil no município de Caieiras integrando os seguintes objetivos específicos: Qualificar e ampliar o cuidado em saúde realizado pela equipe da Atenção Básica aos transtornos mentais mais comuns e com alta resolutividade comunitária e territorial, especialmente o cuidado em saúde ofertado às crianças e adolescentes no Transtorno do Espectro Autista; Qualificar os encaminhamentos da Atenção Básica ao CAPS IJ com a diminuição dos encaminhamentos evitáveis e remodelação da solicitação por especialidade para preferência à equipe multiprofissional; Qualificar contrarreferrência ao CAPS IJ dos atendimentos em neuropediatria realizados no Ambulatório de Especialidades do Mandaqui, município de São Paulo; Ampliar e consolidar referência regional para avaliação neuropsicológica em crianças e adolescentes com TEA em acompanhamentos no CAPS IJ.
A Educação Permanente em Saúde (EPS) foi a ferramenta utilizada para ativar os encontros do cotidiano no mundo do trabalho em saúde2 através da estruturação de alguns encontros programáticos e outros a partir da demanda percebida no território, foram eles: 2 reuniões com gerentes da Atenção Especializada; 3 encontros de matriciamento em Saúde Mental; 6 encontros gerais com psicólogos da rede; 1 reunião de alinhamento sobre o fluxo de crianças e adolescentes com TEA, acionada pelo município e com a participação da gerente do Centro de Apoio às Regiões de Saúde (CARS 06-DRSI) da região Norte de São Paulo, da referência técnica de Saúde Mental do Departamento Regional de Saúde da Grande São Paulo I (DRS I), do gerente do Conjunto Hospitalar do Mandaqui, das apoiadoras da Atenção Especializada de Caieiras e a participação da enfermeira e duas fonoaudiólogas do CAPS IJ. O Ambulatório de Especialidades do Mandaqui, através da neuropediatria, foi acionado pelo alto volume de acolhimento realizado no CAPS IJ a usuários com diagnósticos ou alta de acompanhamento emitidos após primeira e única consulta no Ambulatório, estabelecendo um desafio para equipe comunitária em investigar outros transtornos, até o eximir, além da ausência de laudos ou relatórios de apoio na contrarreferência e na alta do paciente. A experiência relatada iniciou em maio de 2023 e segue sendo bordada e costurada, mas para fins da pesquisa, considerou-se o período entre maio de 2023 a janeiro de 2024.
Os resultados obtidos tiveram desdobramentos a partir de espaços específicos de diálogos, determinados pelos atores presentes e as discussões em pauta. Da reunião geral dos psicólogos da rede, foram realizadas as seguintes ações: construção de ficha de encaminhamento para psicologia da e-multi, potencializando a ação cuidadora de transtornos e sofrimentos mentais na Atenção Básica e diminuindo os encaminhamentos diretos ao CAPS, principalmente o cuidado relacionado ao TEA e; conversas intersecretariais com Desenvolvimento Social e do Esporte e da Juventude. O diálogo com Ambulatório esclareceu o protocolo de acesso de crianças e adolescentes com TEA a partir de comorbidades existentes, possibilitou a qualificação da contrarreferência e propiciou, através da representante do DRSI, a consolidação do fluxo para solicitação de avaliação neuropsicológica. Após um mês da reunião, tivemos ciência do primeiro agendamento realizado desde a inauguração do CAPS IJ. Até janeiro de 2024, 11,5% dos nossos encaminhamentos tinham sido agendados. Por fim, a reunião com os gerentes da Atenção Especializada resultou na construção de formulário para notificação ao CAPS IJ da entrada de pessoas com tentativa de suicídio nos dois Prontos Atendimentos da cidade, além de ferramenta de monitoramento instantâneo das informações relatadas pelo Pronto Atendimento e pela busca ativa realizada pelo CAPS IJ.
A rede está em constante pactuação e, por isso, há um esforço significativo em retomar e manter os espaços de diálogo para estarmos atentos às necessidades de organização do processo de trabalho e ao modelo de cuidado hegemônico posto e alienado no dia a dia, com algumas potencialidades e desafios mais predominantes. As potencialidades tem sido o apoio composto por equipe multiprofissional; a presença da interlocução regional para catalisar a garantia da integralidade do cuidado quando acionada; os novos profissionais de saúde através do concurso e a publicação da 1ª Política Nacional da Atenção Especializada em Saúde, garantindo diretrizes para ações no âmbito desse nível de atenção. Já os desafios, a referência regional recém pactuada para avaliação neuropsicológica não compartilha o cuidado com o CAPS IJ e a atenção básica ainda em estruturação e consolidação através da estratégia saúde da família leva um tempo outro de aproximação com o CAPS IJ, principalmente com seu modelo de cuidado. A saúde mental se mostrou condutora na provocação de processos de trabalhos e modelos de gestão, potencializados pela articulação essencial conforme os caminhos possíveis de um apoiador, costureiro do que é feito mesmo a RAPS IJ no território.
Educação Permanente em Saúde; Território; Apoio
Julia de Campos Cardoso Rocha, Jakeline Juliana Eusebio Cueval, Rogério Leme Lima, Genilson Geraldo dos Santos, Danielle Fortaleza