Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
A construção e consolidação de uma política dirigida a população que apresenta sofrimento psíquico e agravamento em sua saúde mental ainda se apresenta como um dos maiores desafios para o campo da saúde brasileira, considerando suas especificidades e necessidades. Nesse âmbito, considera-se que o cuidado em rede interdisciplinar deve buscar estratégias terapêuticas além daquelas tradicionais já praticadas pela saúde e que favoreça não apenas o desenvolvimento, como também contribua para a promoção de bem-estar e qualidade de vida. Após o período de pandemia, com suas consequências na sociedade, as equipes de Saúde Mental de São Caetano do Sul compreenderam a necessidade de realizar ações mais diversas, extra consultórios, e que fossem atrativas a ponto de aproximar mais os pacientes com sofrimento psíquico e/ou com demandas de saúde mental das unidades dos Centros de Atenção Psicossocial da cidade. Assim, no início do ano de 2023 passaram a focar suas intervenções em estratégias de cuidado ampliado, se utilizando de ações humanizadas por meio de práticas de oficinas terapêuticas e de produção, até que estes usuários dos serviços pudessem (re)ingressar no mercado de trabalho e em atividades da vida cotidiana. A partir deste contexto surge a proposta apresentada neste relato de experiência e que se mantém até hoje guiada pelo conceito de ambiência na saúde mental e compreendendo este equipamento de saúde como um espaço importante para romper com processos de adoecimento.
Consolidar uma nova perspectiva de Cuidado em Saúde Mental ao retirar do paciente Psiquiátrico os estigmas de incapacidade; Promover ações de inserção do paciente psiquiátrico em atividades artística, artesanais, e de convivência, dando-lhe acesso aos meios sociais, o que se torna uma ferramenta privilegiada para aproximar o paciente de sua reabilitação psicossocial. Garantir atividades que engajem os indivíduos em processos de socialização e expressão; ações interdisciplinares e/ou transdisciplinares; Criar espaços que concedam ao paciente seu direito de criar, interagir, estabelecer suas próprias regras, opinar, intervir, escolher e se relacionar de forma autônoma; Canalizar todo o processo expressivo da Oficina para um fim material simbólico: a produção durante a atividade.
O presente projeto se destina aos pacientes que se encontram em acompanhamento terapêutico no CAPS de São Caetano do Sul e contempla a execução de oficinas terapêuticas sob uma perspectiva de clínica ampliada e interdisciplinar. Orientando-se pelos conceitos das oficinas terapêuticas, o projeto promove atividades recreativas e de produção como elemento orientador na construção de uma rede de intervenção em saúde, educação e integração social. Além disso, apresenta-se como um potente instrumento para que o usuário da RAPS possam voltar a desenvolver autonomia e possibilidades de voltar ao mercado de trabalho, mesmo que de maneira informal, até que tenha condições de galgar outros espaços. A inserção do paciente, nas variadas oficinas realizadas pelo projeto, se dá a partir da elaboração de um Plano Terapêutico Singular (PTS), o qual é definido como uma estratégia a partir das demandas apresentadas por cada paciente. Cabe destacar que as oficinas são apenas uma das estratégias utilizadas e que o paciente continua recebendo suporte terapêutico e médico pelas equipes técnicas. Atualmente o Centro de Atenção Psicossocial de São Caetano do Sul conta com oficinas de marcenaria, culinária, costura e atividades físicas, estas são atividades que promovem a educação nutricional, incentivam a alimentação saudável, desenvolvem habilidades motoras e de coordenação, estimulam a atenção e concentração, desenvolvem autonomia, promove a inclusão social, além de impulsionar o empreendedorismo.
As oficinas vêm oferecendo contornos ainda mais expressivos às mudanças pensadas para um novo modelo de cuidado em saúde mental, desenvolvendo sob a forma de atividades em que o centro se torna, então, o indivíduo e não mais sua patologia. Observa-se a potencialização no tratamento do indivíduo, representando um instrumento importante de ressocialização e inserção individual em grupos, na medida em que propõem o trabalho, o agir e o pensar coletivos, conferidos por uma lógica inerente ao paradigma psicossocial que é respeitar a diversidade, a subjetividade e a capacidade de cada sujeito. Tem se mostrado como um espaço importante para romper com processos de adoecimento criado pela institucionalização e proporcionado um ambiente acolhedor, humano e resolutivo. As oficinas terapêuticas têm permitido a possibilidade de projeção de conflitos internos/externos por meio de atividades artísticas, com a valorização do potencial criativo, imaginativo e expressivo de cada usuário.
Para que as oficinas tenham seu caráter terapêutico consolidado, faz-se necessário exigir um esforço de seus coordenadores no sentido de criarem e fortificarem conexões entre a produção psicológica, seus benefícios e os caminhos para se atingir de maneira a alcançar a realidade do próprio usuário. Nesse sentido, as oficinas terapêuticas seriam como catalisadores da produção psíquica dos indivíduos envolvidos, possuindo uma função variável para cada usuário, dependendo de como ele demonstre se relacionar com o material oferecido. Utilizando-se dos elementos que os indivíduos trazem o profissional deve ter a capacidade de escutar e perceber o que eles estão querendo dizer. Há aqueles que podem se comunicar pela escrita, pela arte, pela identificação, entre diversos outros elementos. No final do processo, as oficinas devem promover a convivência, a socialização e a cidadania dos usuários. É necessário produzir espaços de interação fundamentais para a função que os CAPS buscam alcançar, com objetivos definidos e claros, e não somente acreditar que os usuários têm se beneficiado das oficinas porque essas ocupam o tempo com oficinas de diversos tipos.
Saúde mental, humanização, CAPS
FLÁVIA ISMAEL PINTO, RAFAEL ERIK DE MENEZES