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A pandemia de COVID-19 fez com que o Brasil deixasse de diagnosticar casos de tuberculose em 2020 e 2021, dado inferido a partir da diminuição da incidência da doença nestes anos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) apontou que o Brasil está entre os 13 países que conseguiram recuperar a detecção de pessoas com tuberculose após a pandemia de 2019. A população em situação de rua (PSR) tem 54 vezes mais chances de adoecimento por tuberculose em relação à população geral. Articulações intersetoriais são essenciais para o enfrentamento dos determinantes sociais da tuberculose na PSR. A equipe de Consultório na Rua de Pinheiros conta com 540 pessoas cadastradas. Em 2023, o município de São Paulo teve um coeficiente de incidência de tuberculose de 1841/100 mil habitantes em situação de rua. Se considerarmos o dado epidemiológico do município em 2023, a equipe de CnaR deveria ter diagnosticado 10 casos de infecção de tuberculose. Entretanto, a equipe finalizou 2024 com 25 cadastrados com tuberculose, dado superior ao que seria esperado. É importante que as equipes de consultório na rua façam a prevenção, o diagnóstico e tratamento de tuberculose nas PSR, considerando dados epidemiológicos de seu território de atuação e, portanto, fortalecendo assim a orientação à comunidade como atributo da Atenção Primária à Saúde.
Este trabalho é um relato de experiência sobre a organização do processo de trabalho de uma equipe de Consultório na Rua (CnaR) para diagnosticar tuberculose pulmonar durante o ano de 2024. A equipe de CnaR no município de São Paulo é uma equipe de estratégia de saúde da família que atua in loco e nas unidades de saúde do território. O objetivo deste trabalho é descrever como a equipe de CnaR de Pinheiros atuou para aumentar o diagnóstico de casos novos de tuberculose no território e também seu tratamento.
Foram realizadas ações de educação em saúde no modelo de rodas de conversa com trabalhadores do Serviço Especializado de Abordagem Social, do Centro Temporário de Acolhimento COR Esperança, do Núcleo de Convivência para Adultos Pinheiros e do Hotel Social 9 de julho com o objetivo de informar sobre a tuberculose, sua transmissão, seu diagnóstico, seu tratamento e também o sobre o preconceito que as pessoas com tuberculose podem sofrer. Durante as formações, os profissionais foram orientados sobre a coleta de escarro e avaliação de tosse na demanda espontânea nas unidades de saúde. Foram realizadas reuniões de matriciamento com as Unidades Básicas de Saúde do território com o objetivo de priorizar a coleta de escarro da Pessoa em Situação de Rua, em demanda espontânea, na presença de tosse independente de sua duração. Também pactuamos o início de tratamento tão logo o diagnóstico, responsabilizando a equipe de CnaR pela busca ativa dos pacientes diagnosticados. Houveram coletas mensais em todas as 6 microáreas da equipe, in loco, em forma de campanha de busca ativa. Além disso, fizemos 4 discussões de educação continuada sobre tuberculose com a equipe ao longo do ano. A equipe também se organizou para acompanhamento dos pacientes com coinfecção TB-HIV aos serviços secundários a fim de garantir o acesso ao tratamento bem como sua continuidade, acompanhando-os durante as consultas.
Foram realizados 5 encontros com profissionais da assistência social a fim de informar sobre a tuberculose. Os serviços passaram a indicar avaliação no acolhimentos das UBSs ao identificar sintomáticos respiratórios. Através dos encontros, orientamos sobre a transmissão e acesso ao tratamento. A fim de diminuir o preconceito, orientamos profissionais da cozinha dos equipamentos que não separem a louça de quem faz tratamento de tuberculose, pois essa medida não tem impacto sobre a transmissão e segrega o paciente em relação às pessoas de seu ambiente de convívio. Coletamos uma média de 112 amostras de escarros por mês. O ano foi finalizado com 25 pacientes com tuberculose. Houve 1 óbito, 4 pacientes aceitaram internação em hospital de longa permanência, 5 estão em abandono de tratamento. Enquanto a taxa de abandono nas PSR do município em 2023 foi de 40%, a dos pacientes acompanhados pela equipe foi de 20% em 2024. Nas ações de coleta nos equipamentos da assistência social, foi desenvolvido um plano para coleta de escarro em cada serviço, considerando o momento do dia de maior fluxo dos usuários nos serviços. Com intuito de aumentar a adesão ao tratamento e facilitar o acesso ao benefício da cesta básica disponibilizadas às pessoas com tuberculose, a equipe de CnaR levava a cesta básica até o paciente todos os meses. Além disso, oferecemos a todos os pacientes acompanhamento para retirada de documentos e inscrição no Cadastro Único como forma de incentivo à cidadania.
Considerando que de acordo com dados do Ministério da Saúde 3,4% da população em situação de rua adoeceu por tuberculose em 2023, finalizamos 2024 com 25 pessoas cadastradas diagnosticadas com tuberculose, representando 4,6% de nossa população. As ações realizadas pela equipe foram fundamentais para o aumento de casos diagnosticados com tuberculose pulmonar. Os momentos de matriciamento com as equipes de assistência social, contribuíram para esses resultados na medida em que aumentou a articulação entre as equipes para amenizar barreiras de acesso ao exame. Apesar do aumento de casos de tuberculose na equipe, é necessário compreender que a doença é intrinsecamente relacionada a determinantes sociais, por isso é importante que o município desenvolva mais estratégias para seu enfrentamento, como, por exemplo, leitos de isolamento respiratório em equipamentos socioassistenciais e políticas de acesso à moradia.
consultório na rua, tuberculose
GABRIELA GONÇALVES CARNEIRO, PRISCILA ALVES DA LUZ, GABRIEL BAJADARES DA SILVA, MAUREEN DE ALENCAR FILONE, VINICIUS RAMOS BEZERRA DE MORAIS, LAIS SANTOS DA SILVA