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O presente documento refere-se ao relato de experiência de acompanhamento de um usuário com deficiência intelectual inserido no Programa de Apoio à Pessoa com Deficiência (APD), cujo início no serviço ocorreu em 31 de agosto de 2021, sem previsão de alta. O usuário apresenta histórico de institucionalização desde a infância, passando por serviços de acolhimento institucional (SAICA), instituições psiquiátricas na vida adulta e, posteriormente, inserção em Serviço Residencial Terapêutico (SRT) em 2019, sendo encaminhado ao APD com diagnóstico de deficiência intelectual (CID F70). No primeiro contato, foram observados comportamentos de isolamento psicossocial, baixa autoestima, medo relacionado à sua liberdade, pouca percepção de território, ausência de senso crítico e social, além de dificuldades de interação social e de elaboração de sua própria história de vida. Embora apresentasse autocuidado preservado, havia dificuldades importantes em habilidades funcionais, sociais e cognitivas. Além da deficiência intelectual, o usuário já se encontrava em processo de envelhecimento ao ingressar no serviço, o que contribui para um maior declínio cognitivo e dificuldades na aquisição de novos aprendizados, impactando diretamente o trabalho terapêutico. Tal contexto evidencia a necessidade de um cuidado ampliado, que considere não apenas a deficiência, mas também os efeitos do envelhecimento e da institucionalização prolongada.
O objetivo principal dos atendimentos realizados foi promover a construção e o fortalecimento da criticidade do usuário, visando ampliar sua participação social de forma ativa, com maior autonomia ou com o mínimo de suporte necessário, respeitando os aspectos cognitivos e o processo de envelhecimento.
A metodologia adotada baseou-se na avaliação funcional, cognitiva e psicossocial do usuário, a partir da observação direta, acompanhamento longitudinal e construção de um Projeto Terapêutico Singular (PTS). Foram identificados déficits em habilidades como circulação no território, uso do dinheiro, organização da rotina, leitura de horas, interação social, orientação temporal e espacial, além de dificuldades em atividades instrumentais e inserção no mercado de trabalho. As intervenções foram realizadas por meio de treinos repetitivos, visando a cristalização e automatização dos aprendizados, considerando as dificuldades impostas pelo envelhecimento e o diagnóstico da deficiência intelectual. As estratégias incluíram: construção de vínculo, reconhecimento de dinheiro, números e cores, organização da rotina, estímulo à socialização, ampliação do repertório da linguagem verbal, promoção da comunicação em espaços comunitários, uso assertivo do recurso financeiro, validação de sentimentos e desejos, fortalecimento da identidade civil e imposição de limites no contato com o outro.
Ao longo do acompanhamento, observou-se importante evolução no campo psicossocial, com o usuário passando a se reconhecer como sujeito de direitos, deveres e desejos. Houve avanços na autonomia para atividades de autocuidado, já previamente preservadas, e manutenção de habilidades instrumentais como cuidados domésticos, preparo de refeições e organização do espaço. Apesar do rebaixamento cognitivo e do impacto do envelhecimento, o usuário demonstrou maior participação social, ampliação de vínculos comunitários e maior inserção no território, vivenciando experiências com mais dignidade e respeito. Esses avanços evidenciam a relevância do cuidado contínuo e do acesso a recursos adequados para pessoas idosas com deficiência intelectual.
O relato evidencia a importância de políticas públicas fundamentadas na Lei Brasileira de Inclusão (LBI) e na garantia do direito à saúde, habilitação e reabilitação das pessoas com deficiência intelectual que envelhecem, especialmente aquelas com histórico de institucionalização de longa permanência. O trabalho desenvolvido pelo Programa de Apoio à Pessoa com Deficiência mostra-se essencial para a promoção da autonomia, independência e participação social dessa população, atuando como instrumento de reparação histórica frente aos anos de segregação e violação de direitos. O cuidado integral e ético, aliado ao envolvimento do território e da comunidade, contribui não apenas para a qualidade de vida do usuário, mas para o fortalecimento de uma sociedade mais inclusiva e justa.
Envelhecimento; APD; Inclusão Social
FABIANA GOMES DE SOUZA, ANA PAULA MARQUES DA SILVA, MARIANA ROCHA SANTOS, RIVANIA ALVES DOS SANTOS VICTORINO