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Os transtornos de saúde mental têm aumentado nos últimos anos, afetando especialmente indivíduos em situação de vulnerabilidade socioeconômica, que estão frequentemente expostos à estigmatização, discriminação e violação de seus direitos (WHO, 2022). O transtorno de acumulação (TA) é uma psicopatologia caracterizada pela dificuldade persistente de descartar ou se desfazer de pertences, independentemente do valor real, como consequência do sofrimento psíquico associado ao descarte (APA, 2014). No acúmulo de animais, manifestação especial do transtorno, muitos indivíduos são mantidos no mesmo local, em condições precárias e sem padrões mínimos de nutrição, saneamento e cuidados (Silva-Júnior et al., 2019). O TA representa importante risco à saúde única, impactando a saúde, qualidade de vida e segurança da própria pessoa e dos seus animais, familiares e ambiente (Rafael e De Moraes, 2018). No Brasil, os dados epidemiológicos quanto à prevalência da acumulação ainda são escassos e não há, até então, uma política pública de saúde específica, reforçando a invisibilização dessa população por parte da sociedade e dos órgãos públicos. Assim, considera-se que pesquisas para identificação e caracterização dos casos de acumulação no território são indispensáveis para articulação do cuidado na Rede de Atenção Psicossocial e para construção de políticas de atenção integral, intersetorial e multiprofissional às pessoas em situação de acumulação (PSA).
Relatar a experiência acadêmica de identificação e caracterização de pessoas em situação de acumulação de objetos e/ou animais em Jaboticabal/SP, bem como as atividades desenvolvidas pelo Laboratório de Saúde Única (LabSU) da FCAV/UNESP – Câmpus Jaboticabal, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Jaboticabal, para acompanhamento e atenção integral, intersetorial, longitudinal e multiprofissional às pessoas em situação de acumulação. O presente trabalho também tem como finalidade ampliar o debate sobre o transtorno de acumulação, o perfil dessas pes soas e o impacto na saúde mental, bem como reduzir a invisibilização e a estigmatização da população em questão.
Trata-se de um estudo descritivo, adequado para relatar as experiências nos cenários de práticas interno (Universidade) e externo (Secretarias de Saúde e de Assistência Social). O projeto está sendo desenvolvido nas etapas: identificação de potenciais PSA; contatos iniciais nos domicílios ou unidades de saúde e assistência social, com participação da equipe de referência e pessoas do elo, para construção de vínculo; coleta de dados para avaliação demográfica e socioeconômica e das condições sanitárias, ambientais e habitacionais; acompanhamento do modo de vida e de relação frente aos animais e objetos; diagnóstico situacional e multiprofissional e possíveis encaminhamentos aos serviços de saúde e assistência social para tratamento e mitigação de danos decorrentes da acumulação; devolutiva dos resultados às equipes, aos participantes e responsáveis legais; e elaboração da proposta de política pública intersetorial. Os casos foram denunciados aos setores de Vigilância em Saúde, Obras e Limpeza Urbana ou tiveram como porta de entrada as Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), Centros de Referência em Assistência Social (CRAS) e Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS). Como o transtorno não é definido somente pela quantidade de itens, mas também pela falta de cuidados com os envolvidos, a identificação e abordagem inicial dos casos são feitas ao “comportamento de acumulação” e relação com animais e materiais inservíveis.
Até o momento foram identificados 20 potenciais PSA e destas, 15 estão sendo acompanhadas por equipe multiprofissional (médico da família, psiquiatra, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, agentes comunitários de saúde e médicos veterinários). Diferente de outras relatos na literatura, reconheceu-se um perfil de público-alvo mais amplo e interligado a outros em vulnerabilidade socioeconômica e sanitária, como catadores de recicláveis, pessoas em situação de rua e com necessidades decorrentes do uso de álcool e drogas. Esses grupos compartilham o mesmo território e, muitas vezes, os mesmos tipos de objetos, seja para apego emocional, potencial econômico ou aquisição de drogas. Notou-se que a ocorrência prévia de eventos traumáticos ou comorbidades psiquiátricas, como depressão ou esquizofrenia, serviram, na maioria dos casos, como fator desencadeante ou de exacerbação da acumulação, como uma estratégia obsessiva e compulsiva de compensação. Com construção de vínculos e sem julgamentos ou estigmas, a equipe buscou sensibilizar os participantes quanto à importância de adesão ao tratamento oferecido nas unidades, principalmente na Atenção Psicossocial. Para facilitar e assegurar o acesso ao cuidado integral, os pesquisadores auxiliaram na articulação, acompanhamento e deslocamento até as UBS, CAPS, Ambulatório de Infectologia e IST/AIDS, CRAS e CREAS. Também foram envolvidos os serviços de Vigilância em Saúde e Limpeza Urbana, cooperativas de recicladores e voluntários.
Devido à complexidade dos casos e subjetividade dos sujeitos, não há um “desfecho” linear para os casos acompanhados pelo projeto piloto. Entretanto, as experiências iniciais apontam para a importância de estratégias de persistência acolhedora e construção de vínculo, tanto com os participantes da pesquisa (pessoas em situação de acumulação, recicladores, protetores de animais, pessoas em situação de rua e com necessidades decorrentes do uso abusivo de álcool e outras drogas), quanto com os diferentes profissionais. Pesquisadores, profissionais e familiares devem compreender como a acumulação opera na sua multiplicidade de manifestações e reconhecer as limitações dos tratamentos e as possibilidades de recidiva, principalmente quando as intervenções são bruscas ou impositivas. Ainda assim, o acolhimento, escuta qualificada e atenção humanizada e centrada nas necessidades das pessoas são fundamentais para garantia do acesso à rede e para o desenvolvimento de estratégias de redução de danos. Além disso, na construção de políticas públicas de atenção às pessoas em situação de acumulação devem ser promovidas ações direcionadas ao combate aos estigmas e preconceitos, ampliando a visibilização dos indivíduos perante a sociedade.
acumulação, atenção psicossocial, saúde mental
MARIELA FONSECA TOSCANO, JUAN CARLOS GERMAN, VITÓRIA TIEMI MATSUMOTO ELOI, ANDRIELLY GONÇALVES SCHIMIT NUNES, BRUNA CAROLINA CANUTO, SAMARA RIBEIRO BRITO, JÚLIA RABÊLO DE MAGALHÃES, LUANA BONON, RENAN HENRIQUE FERNANDES, DIEGO CASSIO RAFAEL BRAULINO NOGUERA, CAMILA ROBERTA GARAVELLO ACORSI, ROBERTA CRISTINA RODRIGUES, KARINA PAES BÜRGER