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Trata-se de um relato de experiência a partir de ações da terapia ocupacional junto aos moradores da Residência Terapêutica tipo II (RT) de São Carlos, realizadas por duas terapeutas ocupacionais do Centro de Atenção Psicossocial II – Amigos da Liberdade (CAPS II), na qual a RT está vinculada. As atividades ocorreram quinzenalmente, na residência, com duração aproximada de 90 minutos, durante um ano. A RT é uma casa localizada no espaço urbano, que responde às necessidades de moradia de homens com transtornos mentais graves, egressos de longa internação em Hospital Psiquiátrico. Caracterizada por tipo II devido aos seus moradores necessitarem de suporte contínuo, em função do grau de dependência, a RT se constitui como uma modalidade assistencial substitutiva à internação psiquiátrica prolongada e foi introduzida como equipamento do SUS por meio de portarias do Ministério da Saúde. O processo de desinstitucionalização exige a complexidade e a intensidade de se pensar no humano, do ser, do existir, e envolve a ampliação do questionamento das práticas e formas de relação que são estabelecidas com as pessoas com transtorno mental. Nessa direção, os terapeutas ocupacionais pautados nos ideais da reforma psiquiátrica buscam transformar o cuidado, a fim de combater a anulação do indivíduo e fazer dos encontros oportunidades de interações sociais, manifestações de interesses pessoais e descoberta da subjetividade adormecida e violada por longo períodos de vivência hospitalar.
A experiência foi realizada à luz da Terapia Ocupacional, considerando o campo da saúde mental, com foco nos princípios da reforma psiquiátrica e da atenção psicossocial. As atividades desenvolvidas pretenderam estimular a experiência criativa como identificação e (re) estabelecimento da existência dos moradores, considerando para isso a individualidade, a singularidade, as interações, os diferentes modos de sociabilidade e os diferentes sentidos do fazer e do interesse pessoal. Dentro dos grupos terapêuticos existem diversos tipos de grupos, que não são específicos da Terapia Ocupacional, entretanto seus princípios podem ser utilizados dentro do processo terapêutico ocupacional, desde que o profissional possua as habilidades necessárias. Entre as modalidades de grupos temos o grupo de atividades, que é muito aplicado pela Terapia Ocupacional, já que utiliza a atividade como recurso terapêutico.
As ações foram desenvolvidas com os moradores que estavam presentes na casa e desejosos em participar. Foram usados materiais de papelaria, pintura, recorte, colagem e jogos, sem orientação para um fazer único, sempre incentivados a fazer suas escolhas conforme seus interesses. Ao longo do fazer muitas memórias foram identificadas, habilidades cognitivas e artísticas despertadas e desejos sendo atribuídos. Temas sensíveis de vivência hospitalar, em especial a violência e abusos foram evidenciados por meio das frases e desenhos; a assinatura com letra cursiva e a escrita de um ditado mostravam a compreensão e o letramento de um morador que quase não se utiliza da linguagem verbal; a escolha por animais de uma revista frente ao interesse particular por elementos da natureza; a solicitação para ouvir determinadas músicas despertou sensações e lembranças do passado; o ato de colar e expor algo na parede, indicava a apropriação do espaço. Por vezes, a calmaria de alguns não estava em sintonia com a agitação e desorganização de outros. Porém, numa mesma mesa com atividades distintas e comportamentos diferentes uma relação acontecia, ora com afetos, ora com certa agressividade. Mas os comportamentos se tornavam mais flexíveis, os materiais divididos, com olhares atentos sobre a produção do outro. Uma construção individual, no coletivo, por vezes caótica, mas com percepções, olhares, risos, irritabilidade e sensações que a terapia através do grupo, alcançou diferentes resultados.
A nossa chegada sempre foi recebida com entusiasmo e alegria pelos moradores. Havia uma movimentação entre eles na organização do início do fazer, como a busca pelo ambiente da realização da atividade, a solicitação de uma conversa inicial, questionamentos sobre os materiais levados, ou com formas não verbais de comunicação que transmitiam intenções e emoções. O grupo de moradores é bastante heterogêneo, porém têm em comum a vivência de décadas em hospitais psiquiátricos, quadro de envelhecimento, prejuízos clínicos e cognitivos, a cronificação da doença e a perda da identidade. Situações diversas levaram a institucionalização de longa permanência desses moradores, a saber: deficiência intelectual, transtorno mental devido a lesão e a disfunção cerebral e a doença física; possível quadro de TEA nível 3 (não diagnosticado à época), quadro neurológico e transtornos mentais graves. Assim, considerando as especificidades e a individualidade de cada morador, os resultados indicaram que as atividades realizadas produziram e potencializaram relações, possibilitaram espaços de trocas e de negociação, permitiram a expressão de emoções e conteúdos; fortaleceram a percepção pessoal como ser criador e a valorização do que é significativo para si; criaram espaços de expressão e de relação com o outro, favoreceram habilidades envolvendo limites e autogestão. Considera-se, portanto, que a experiência criativa evidenciou a subjetividade adormecida.
O Serviço Residencial Terapêutico como equipamento integrante da rede de saúde mental tem em si mesmo duas funções contraditórias, a de moradia e a de serviço. O que é indispensável dentro deste contexto paradoxo é a desmontagem de práticas institucionais, que regulou os moradores ao longo da vida institucionalizada, e a criação de mecanismos e processos que possam permitir novos símbolos e significados para a vida. A redução de leitos psiquiátricos e a criação de serviços substitutivos à internação, ainda apontam para a dificuldade da superação do modelo manicomial. Seguindo o paradigma da atenção psicossocial, é importante atentar para o funcionamento desses serviços, que se propõem a acolher o sujeito dentro de suas particularidades e promover seu encontro com os aspectos da vida cotidiana. Nesse sentido, a Reforma Psiquiátrica vai além da implementação de novos serviços, exige esforços de diferentes setores e atores, requer profissionais que vençam a prática asilar e segregacionista e que invistam na mobilização dos sujeitos, a fim de descobrir novos sentidos, produzir comunicação e qualificar as relações. Sendo assim, fica evidente a necessidade de continuidade do trabalho e do esforço de todos os atores envolvidos.
residência terapêutica, CAPS
CARMEN LUCIA DE OLIVEIRA PEREIRA, CAROLINA ELISABETH SQUASSONI, JANAINA TERESINHA DA SILVA JUNQUEIRA, LUCIANA FRANCISCO LUJAN