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A feira do Centro Especializado em Reabilitação (CER) Dr. Edmundo Campanha Burjato surge como parte do processo terapêutico da oficina terapêutica de meio ambiente da unidade, que atende mais de 200 pacientes de todas as idades com deficiência intelectual e/ou física. A ideia de comercializar os produtos da horta tem como objetivo completar um ciclo de produção, que inclui a semeadura, o transplante, o cultivo, a colheita e a venda. Durante esse processo, os participantes têm a oportunidade de vivenciar atividades práticas de uma feira, como realizar a colheita, reposição dos itens, interagir com os clientes e lidar diretamente com o dinheiro. Isso proporciona uma experiência não apenas terapêutica, (o que envolve o desenvolvimento de habilidades operacionais e sociais) como apropriação e pertencimento social. A feira promove um espaço de troca entre o cotidiano do CER e os moradores do bairro local e próximos, ampliando também repertório de cidadania. Desse modo, é uma iniciativa que abrange os objetivos terapêuticos que competem ao CER, bem como traz consigo uma inovação incluindo a prática da economia solidária a partir de uma unidade de reabilitação.
Os objetivos do projeto são terapêuticos e de inclusão em participação social e cidadania. No campo terapêutico, promovendo o bem-estar dos participantes por meio da conexão com a natureza e o autoconhecimento, desenvolvimento da coordenação motora ampla, construção da noção espacial, habilidades sensoriais, desenvolvimento da memória e a ampliação do repertório dos participantes sobre a flora e os alimentos, além de abordar o conceito de processos e ciclos naturais e estimular a qualificação dos hábitos alimentares. Para o objetivo de inclusão social, a promoção da autonomia e do protagonismo dos participantes, incentivando-os a tomar decisões e a se envolver em atividades externas que favoreçam a cidadania, o cuidado e a integração com os espaços públicos. Valores como cooperação, respeito às pessoas, aos seres vivos e ao meio ambiente, valorização das diferenças e conscientização ecológica são trabalhados de maneira contínua.
A metodologia está dividida em dois momentos: construção da oficina de meio ambiente e estruturação da feira agroecológica. As oficinas possuem atividades definidas, em que se destaca: oficinas de plantio, manejo de hortas e produção de mudas, realizadas periodicamente de acordo com as fases da lua e as estações do ano. O processo envolve estimulação dos participantes a reconhecerem as necessidades da horta, como poda, rega, plantio, adubação, colheita e cuidados com o espaço. Também são oferecidas oficinas de culinária natural e/ou típica de acordo com a época, atividades de ciclagem de matéria orgânica (compostagem e manejo de minhocários), e ações de bioconstrução, escultura e pintura utilizando materiais naturais, com o objetivo de promover o contato direto com a terra e estimular a criatividade. As atividades incluem ainda ações de cuidado e plantio em praças públicas próximas ao CER, promovendo o direito à cidade e a ocupação responsável do espaço público. A feira ocorre mensalmente, geralmente na última quinta-feira do mês, de forma alternada entre os turnos da manhã e da tarde, com o intuito de que todos que participam da oficina do meio ambiente possam atuar na feira. Em média, são comercializadas 200 unidades de hortaliças por edição da feira. As decisões sobre quais hortaliças serão vendidas, a quais valores e organização dos atributos financeiros, é pactuada entre profissionais, usuários envolvidos na oficina e gestão da unidade.
Em dois anos de projeto, os objetivos traçados não só foram contemplados, como expandiram-se em relação ao inicialmente proposto. A interface entre objetivos clínico-terapêuticos e de emancipação social e ocupação da cidade tornou-se factível e elucidou um ponto importante para o campo da reabilitação: a necessidade de ampliação de ações extramuros para as pessoas com deficiência. Desse modo, observa-se que as habilidades em reabilitação propostas para os usuários em oficinas foram trabalhadas e eles obtiveram melhoras significativas em todas elas, de acordo com os dados controlados de avaliação das oficinas, proposta pela gestão. Na avaliação são observados os aspectos: interação com os colegas, com o espaço, com a terra e com as atividades propostas, reconhecimento e identificação das plantas da horta, identificação do uso da terra, organização espacial, aspectos de funções executivas, cooperação com o grupo, coordenação motora e saúde mental. Ao longo dos dois anos de projeto, os participantes das oficinas obtiveram melhoria qualitativa dentro dos aspectos avaliados. Além disso, cabe ressaltar que a estruturação da feira, bem como participação ativa na atividade de venda do dia, contribuiu amplamente para o repertório social dos participantes.
No contexto urbano, observa-se um distanciamento generalizado da origem e dos processos envolvidos na produção dos recursos essenciais. O cultivo de hortas surge como uma estratégia para restaurar essa conexão entre os indivíduos e os ciclos naturais, permitindo o reencontro com práticas ancestrais e fundamentais, como a produção de alimentos. A interação com esses processos naturais pode ter um impacto significativo no bem-estar dos participantes, promovendo não apenas a saúde física, mas também um fortalecimento do senso de coletividade. Além disso, essa prática fomenta hábitos alimentares mais saudáveis e uma maior conscientização sobre a origem dos alimentos consumidos. Quanto ao projeto, cabe ressaltar a dimensão no campo de apropriação social que envolve a relação com o alimento e a troca com as pessoas que o compram. É um espaço em que as pessoas que frequentam o CER podem assumir outros papéis além de usuário. A prática voltada para economia solidária é comum à saúde mental. Essa experiência acontecer a partir da reabilitação é um avanço no campo, que pretende expandir-se.
Economia solidária, CER, Cidadania
LAÍS VIGNATI FERREIRA, ITALO DA SILVA FREITAS, REBECA MANCINI, RICARDO BESERRA GOMES DA SILVA, LOURDES APARECIDA PAULA, GABRIELA ESPOLADOR PREVIATTO, ROZENILDA DE CARVALHO SOUZA