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As mudanças climáticas têm intensificado a radiação solar, configurando um risco crescente à saúde de trabalhadores informais expostos ao ambiente externo. Entre esses grupos, destacam-se ambulantes de praias, cuja atividade laboral ocorre sob exposição solar prolongada e sem proteção adequada, em contexto de vulnerabilidade social e acesso limitado aos serviços de saúde. Diante desse cenário, serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) desenvolveram uma experiência territorial inovadora voltada à adaptação climática, integrando vigilância em saúde, busca ativa e cuidado integral. A iniciativa rompeu com o modelo tradicional passivo ao levar equipes diretamente aos locais de trabalho, realizando avaliação clínica imediata, educação em saúde e encaminhamento oportuno à rede assistencial. Implementada entre 2023 e 2025 na orla de Santos-SP, a estratégia priorizou equidade e prevenção, fortalecendo a capacidade do SUS de responder aos agravos relacionados à exposição solar ocupacional. A experiência demonstra como ações territoriais podem reduzir iniquidades, ampliar o acesso e consolidar práticas sustentáveis de adaptação às mudanças climáticas no âmbito da saúde pública.
Descrever a implementação e os resultados de uma experiência territorial do SUS voltada à vigilância, monitoramento e resposta aos agravos associados à exposição solar ocupacional em trabalhadores ambulantes. Especificamente, buscou-se: identificar riscos climáticos e agravos relacionados à radiação solar; ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e ao cuidado integral; fortalecer a atuação intersetorial e territorial da vigilância em saúde; e contribuir para estratégias de adaptação climática com foco em equidade e proteção de populações vulneráveis.
Trata-se de um relato de experiência com abordagem epidemiológica e intervenção estruturada em saúde, desenvolvido entre 2023 e 2025 na orla marítima de Santos-SP, integrado à rede do SUS. A estratégia baseou-se nos princípios da vigilância em saúde, territorialização e intersetorialidade. Foram avaliados 620 trabalhadores ambulantes informais expostos cronicamente à radiação solar durante a atividade laboral. A inovação central consistiu na busca ativa territorial, com deslocamento das equipes até os locais de trabalho, rompendo o modelo convencional centrado na demanda espontânea. A intervenção incluiu ações educativas, avaliação clínica imediata, identificação de lesões potencialmente malignas, registro epidemiológico e encaminhamento direto à rede assistencial para diagnóstico e acompanhamento. A iniciativa utilizou estrutura e recursos humanos já existentes no SUS, garantindo sustentabilidade e integração com a linha de cuidado.
Observou-se elevada carga de agravos relacionados à exposição solar ocupacional. Entre os trabalhadores avaliados, a prevalência de alterações labiais foi de 34,1%, evidenciando impacto significativo dos riscos climáticos. A média de idade foi de 41,9 anos e o tempo médio de exposição laboral de 150,3 meses. Cerca de 95,1% trabalhavam seis horas ou mais por dia e 98,9% permaneciam sob exposição solar direta. Embora 68,1% utilizassem chapéu ou boné, apenas 6% adotavam proteção labial adequada, demonstrando baixa efetividade das medidas individuais. A idade apresentou associação positiva com a presença de alterações labiais (OR=1,04). Foram identificados 212 casos suspeitos, encaminhados ao SUS para diagnóstico e acompanhamento, ampliando o acesso ao cuidado e fortalecendo a vigilância dos agravos relacionados às mudanças climáticas.
A experiência demonstrou que a atuação territorial do SUS é estratégica, resolutiva e custo-efetiva para a adaptação climática em saúde, especialmente na proteção de populações vulneráveis. A integração entre vigilância, educação, prevenção e cuidado longitudinal possibilitou diagnóstico precoce, ampliação do acesso e redução de iniquidades. A sustentabilidade da iniciativa é evidenciada por sua execução contínua desde 2023, utilizando recursos já existentes, sem necessidade de tecnologias adicionais ou aumento de custos. Recomenda-se sua ampliação e replicação em territórios costeiros e urbanos, incorporando definitivamente a agenda climática às políticas públicas de saúde e fortalecendo o papel do SUS na proteção social frente aos impactos das mudanças climáticas.
Mudanças climáticas, vigilância, equidade, SUS
CAIO VINICIUS GONÇALVES ROMAN TORRES, ALVARO LUIS MENDONÇA PINHEIRO BARBOSA, LUANA DE CAMPOS, TATIANA DE ALMEIDA BEZZI, SUMAYA TAKAN BORDALO, RICARDO ANTONIO NUNES NETO, BRUNO SCALPELLI QUIQUETO