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Através deste trabalho procura-se explicitar como a arte, no caso, o Teatro do Oprimido é aliado importante no tratamento de pessoas em sofrimento e que se encontram em tratamento em CAPS III – SUS. As práticas que ocorrem dentro dos pontos de atenção da Raps e não devem manter-se limitadas ao âmbito individual, nem tem como serem repetitivas, empobrecidas, reproduzindo a lógica manicomial de outros tempos ou mesmo a lógica neoliberal que reforça a rapidez e o distanciamento da atualidade. Assim, no cotidiano de 3 profissionais de um CAPS III, notava-se a necessidade do desenvolvimento de um trabalho corporal, criativo e estético, onde houvesse a possibilidade de que as histórias pessoais e coletivas pudessem vir à tona, porém, ampliando-se as formas de expressão do sofrimento, assim como as vivências singulares e coletivas. O Teatro do Oprimido, cujo precursor é Augusto Boal, teatrólogo surgiu a partir do período da ditadura militar no Brasil, possibilitando a prática de jogos e exercícios que desmencanizam corpos, auxiliam na construção da estética, assim como na construção de peça teatral a partir das histórias individuais e coletivas que são compartilhadas. Abrange o Teatro Jornal, Teatro Legislativo, Teatro Invisível, Arco-Íris do Desejo, Teatro Imagem e o Teatro Fórum, sendo que estes dois foram os escolhidos para serem desenvolvidos junto ao grupo de usuários.
– Promover o protagonismo dos usuários em saúde mental no escopo de seu tratamento e na sociedade; – Promover espaços de expressão da subjetividade, a partir da arte e da cultura, considerando-se os aspectos sociais e coletivos; – Fortalecer espaços coletivos, comunitários e antimanicomiais;
As oficinas de Teatro do Oprimido tiveram início em março/2023 e continuam até os dias de hoje. Ocorrem todas as 5ªs feiras, das 14:00 às 16:30. Optou-se por espaço externo ao CAPS (Centro Cultural Diadema – área interna e externa, Teatro Clara Nunes – palco, e Centro Cultural Serraria – sala de ensaios e área de apresentações). Todos os pacientes que apresentavam desejo e identificação com a arte e o Teatro, no momento de elaboração de seu PTS, puderam participar. Porém, é importante a continuidade na participação, para que seja possível o alcance dos resultados. Quanto ao método teatral, foi escolhido o Teatro do Oprimido de Augusto Boal, onde procura-se analisar e trazer à tona a partir das vivências singulares e coletivas a dialética das relações opressor X oprimido. Com a utilização de joguexercícios (jogos e exercícios) trabalham-se as 5 categorias dos sentidos: “sentir tudo o que se toca”; “escutar tudo o que se ouve”; “ver tudo o que se olha”; “ativando vários sentidos” e “memória dos sentidos” (BOAL, 2002). Para a partir daí construir-se o Teatro Fórum, que se caracteriza por ser participativo, onde o público não é passivo, mas sim chamado a intervir nas cenas enquanto ator/atriz, ao identificar-se com o oprimido e /ou seus aliadas/os. Após cada uma das intervenções, onde todos tornam-se “espectatores” (BOAL, 2002), promove-se discussões, sendo que a intenção não é a salvação individual ou mágica, mas a promoção de ideias e ações coletivas.
Após um ano de oficinas, considera-se que os joguexercícios proporcionaram maior consciência corporal, fomentando novos sentidos e reflexões, além de serem fundamentais para a construção da estética do oprimido e das relações internas e interpessoais. Aspectos relacionados ao sofrimento psíquico foram trabalhados coletivamente, considerando-se as singularidades, no entanto, todo o processo e construções são coletivas. Foram realizadas 2 apresentações, sendo a primeira uma performance: a partir da construção de uma “máquina” de corpos, para uma máquina com sentidos, onde cada peça foi fundamental na concretização das opressões direcionadas aos usuários da saúde mental, finalizando com apresentação dos atores/atrizes. A segunda obra foi uma peça de Teatro Fórum, onde concretizaram-se vivências relacionadas à opressão direcionada a usuária de saúde mental no ambiente de trabalho, e em ambiente hospitalar. Trata-se ainda da primeira apresentação desta obra, que ocorreu em uma universidade de medicina na cidade de São Paulo. A discussão gerou reflexões sobre a implicação dos profissionais na atuação junto a pacientes da saúde mental e a violência institucional, assim como estigma e preconceito na sociedade. Já os usuários entraram em contato com outras estratégias, ideias, e emoções trazidas pelos novos “espectatores”, transformando alguns aspectos de suas subjetividades e vivências coletivas.
O Teatro do Oprimido é importante aliado da saúde mental, e isso também pode ser experienciado pelos usuários do CAPS III Sul Oeste de Diadema que compõem o Grupo de Teatro do Oprimido Fora da Cápsula. A partir dos joguexercícios e da construção da performance e do Teatro Fórum, ampliaram-se as experiências corporais, compreendendo que este corpo faz parte de suas vidas e não somente afetos e ideias dicotomizados. O protagonismo advém de suas próprias histórias de vida e da compreensão das camadas de contradições a que estão submetidos no cotidiano, mas também, quando conseguem superar estas contradições explicitando as relações opressor x oprimido, de forma singular e coletiva. O protagonismo dificilmente se dará de forma individual, ele pressupõe sujeitos ativos e ações coletivas para a verdadeira transformação social.
saúde mental, teatro do oprimido, protagonismo
Maria Mercedes Whitaker Kehl Vieira Bicudo Guarnieri, Caroline Azevedo Barbosa, Pamela Palomares Bezerra Pereira