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Na atuação em um CAPS adulto, é notório que muitos dos usuários admitidos no serviço apresentam demandas específicas em sua fase do desenvolvimento infantil. É observado que muitas questões trazidas em atendimentos individuais demandavam muita dor e sofrimento, e alguns nem conseguia de fato expressar todo o sentimento que permeiava sua trajetória. Desta forma, foi notado que esta demanda não era exclusivamente do profissional psicólogo; outros profissionais da equipe multidisciplinar também traziam essas questões. Pensando na proposta que é o CAPS, onde o foco não é a psicoterapia, mas o cuidado ampliado e multidisciplinar, foi criado um grupo terapêutico para que esses usuários fossem acolhidos e pudessem falar de sua história de vida. Para tornar a experiência mais leve, foi inserida a arte. Inicialmente, pensou-se na construção de uma pintura em um tecido, feita por 8 (oito) usuários. Cada um teria um espaço delimitado no tecido para contar sua história, seja por meio de pintura, desenhos ou escrita. O grupo seria fechado e estruturado, com encontros semanais de 1 hora, e programação de aproximadamente dois meses e meio, reiniciando com nova turma. Ao longo do grupo, foi perceptível que a arte servia como mola propulsora para falar dos assuntos densos da vida dos usuários, observando suas crenças, formas de lidar com a dor e poder de ressignificar fatos do passado.
Sabemos que a fase do desenvolvimento em qualquer indivíduo é importante. A maneira como ele foi acolhido: Desde a descoberta da gravidez, a fase inicial de vida, se ele foi amamentado ou não, se ele recebeu afeto ou não dos pais, dos cuidadores ou da figura que exerceu esse papel são fatos que ficam registrados ou não em sua memória. Início dos primeiros sintomas identificados ou não como transtorno mental, a receptividade dos familiares em ter alguém com diagnóstico ou até mesmo da falta de recursos e acessos em que aquele usuário enfrentou no desenvolvimento infantil. E quando falamos de usuários que, na fase adulta, apresentam algum transtorno mental grave, estamos falando de pessoas que, pelo estigma enfrentado ao longo dos anos, foram silenciadas, acreditando que sua história era irrelevante às suas condições atuais, sendo negligenciadas às vezes pelo próprio usuário, em se permitir acessar estes conteúdos. Promover um espaço acolhedor e de ressignificar o passado.
A base do grupo foi fundamentada na teoria de Jean Piaget, na qual ele classificou em quatro estágios do desenvolvimento infantil. Desta forma, cada grupo era estruturado em uma fase desses estágios. No início do grupo, foi acordado o contrato terapêutico com o usuário explicando a proposta. O grupo era formado por oito usuários, acompanhados por uma psicóloga e uma artesã. Cada usuário demonstraria sua arte da forma que desejasse, seja por pintura, desenho, escrita, colagem, etc. Reforçamos que o grupo seria estruturado e que deveriam evitar faltas e atrasos. A duração de cada grupo seria de uma hora semanal, com programação de dois meses e meio. Cada participante teria um espaço delimitado no tecido para manifestar sua arte e estaria livre para verbalizar ou apenas expressar em arte a sua história de vida É importante salientar que, em cada fase do desenvolvimento, o usuário expressava aquilo que lembrava ou que lhe contaram, e os sentimentos acerca do que se passava; Para pacientes psicóticos o manejo e a compreensão da sua estrutura psíquica era um facilitador quando se envolve a arte.
A proposta do grupo inicialmente tratava de absorver uma demanda que era coletada individualmente nos atendimentos. Foi perceptível ver a melhora dos usuários respeitando e validando sua própria história e podendo expressar por meio da arte. O tecido se tornou pequeno diante de todas aquelas histórias de vida, algumas marcadas por abandono, negligência, violência e perdas. O tecido foi se transformando em outras manifestações de arte. No início, o mesmo era longo, com mais de dois metros estirados em uma mesa na sala de oficina do CAPS. Foi necessário adaptar a forma da arte. As histórias também foram contadas na confecção de bolsas, estojos e almofadas, pois o que mas importava era ser um espaço leve, apesar dos assuntos pesados e marcantes. E com isso, também acessível, no grupo, tivemos uma usuária com deficiência visual que, ao seu modo, expressou as fases do seu desenvolvimento, marcando em braille o tecido. O grupo foi se fomentando e criando um espaço acolhedor, resistente e artístico, ao qual os próprios usuários deram o nome de Minha História, Nossas Vidas. Ali estava a história de vida individual e coletiva, nas identificações ao qual todo grupo psicoterapêutico tem como objetivo. Este tecido foi pano de fundo de muitas das ações do CAPS, sendo levado e exposto na passeata que ocorre anualmente na Paulista em maio em comemoração da luta antimanicomial. A ideia que era apenas individual se tornou uma rede coletiva e fortalecedora.
A infância é uma fase extremamente importante na construção da psique. A maneira como a pessoa enxerga o mundo interno e externo muitas vezes está escondida nas histórias do seu passado. O objetivo inicial do grupo era dar voz aos silenciados, mas para acessar conteúdos que causam sofrimento, a arte é a melhor aliada. Relembrar não só fatos densos, mas também fatos comuns em grupo, como brincadeiras e a descoberta da sexualidade, foi fundamental para que o usuário se sentisse acolhido. O grupo foi se aprofundando e, como se fosse uma linha terapêutica da vida, chegar ao ponto em que se encontravam percebendo as crenças adquiridas, padrões mentais e ciclos repetidos de gerações, tornou-se um espaço para refletir sobre aquilo e poder escolher o que levar e deixar de sua história. A arte não só manifestou a dor, mas também acolheu e, melhor ainda, deu sentido, seja na confecção de algo útil ou em um enorme tecido com tantas histórias formando uma bandeira que mostra que essas pessoas com transtornos mentais são livres e sua história de vida importa.
Fases do desenvolvimento infantil, CAPS
HELLEN JOANA CARDOZO