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Na Atenção Primária à Saúde (APS), temas como acolhimento, trabalho em equipe, ações coletivas e cuidado ampliado reforçam diretrizes da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) como resolutividade, longitudinalidade e cuidado centrado na pessoa. Temas de conversas permanentes para análise dos processos de trabalho. Neste sentido, a Política Nacional de Humanização (PNH) marca um caráter transversal e crítico, podendo contribuir para qualificação do SUS, enfrentando a fragilização dos vínculos entre equipes, fragmentação dos processos de trabalho, pouca interação entre profissionais e gestores e o frágil modelo “queixa-conduta”. Foi nessa perspectiva que o apoio em Humanização à Juquitiba iniciou, em janeiro de 2025, a partir do convite da Secretária Municipal de Saúde à Articuladora de Humanização da RRAS 4 Mananciais. Juquitiba, localizada na Região Metropolitana de São Paulo, possui uma população estimada de 28 mil habitantes. A cobertura potencial de seu extenso território pela APS é de mais de 100%, com suas 12 equipes, porém há deficit de ACS (mais de 20 microáreas descobertas). O apoio em Humanização como dispositivo investe em espaços de rede, aproximação da gestão aos territórios e protagonismo das equipes no cuidado ampliado. As prioridades identificadas foram: acolhimento à demanda espontânea; gestão compartilhada e trabalho em equipe; discussões de casos; ações coletivas; aproximação em rede e continuidade do cuidado.
De forma geral, a gestão municipal está sob constante pressão de órgãos de controle e metas dos governos federal e estadual para garantir o repasse de verbas. Isso cria uma agenda focada em indicadores, e ainda, em demandas diárias relacionadas a processos administrativos, de recursos humanos, judicialização, entre outras. Fato que pode criar distanciamentos entre gestão central e equipes dos territórios. Por outro lado, as equipes da APS acabam pressionadas à cumprir as demandas repassadas pela gestão, além de estarem diretamente envolvidos com complexas situações de saúde e sociais. Nesse sentido, o objetivo do apoio ao município foram: promover a aproximação da gestão ao cuidado em saúde; ampliar a visibilidade e protagonismo das equipes; qualificar o acolhimento à demanda espontânea; fortalecer o trabalho em equipe e discussões de caso; ampliar as ações coletivas e ofertas de cuidado.
O apoio em Humanização a municípios e regiões de saúde considera a composição e construção coletiva com os atores locais. A aposta metodológica é na produção de espaços coletivos que convidam as pessoas para análise do território e dos processos de trabalho para a qualificação do cuidado. As estratégias utilizadas foram: -Apoio à gestão, coordenadores da SMS e eMulti; -Oficinas com equipes das USF e gestão; -Atividades de dispersão nas unidades e nos territórios; -Encontros com as unidades de saúde; -Encontros com as enfermeiras das USF; -Análise compartilhada do processo entre apoio, gestão e equipes; -Elaboração de Documento Norteador dos temas discutidos. De janeiro à dezembro de 2025 foram realizados os seguintes encontros: -10 Reuniões com a gestão para alinhamento e análise das ações; -09 Reuniões com as equipes da APS para levantamento dos processos de trabalho relacionados aos temas propostos; -02 oficinas com a rede de saúde municipal; -Apresentação das 07 equipes da APS: acolhimento à demanda espontânea na APS, discussão de casos, produção de redes, trabalho em equipe e reuniões de equipe, ações coletivas, depoimento de usuária; -02 reuniões com gestão e enfermeiras das 7 UBS com discussões sobre os temas abordados na 2ª oficina para elaboração de Documento Norteador.
Os movimentos do processo incluíram 23 encontros com envolvimento de 253 pessoas (trabalhadores, gestores e apoio), favorecendo avanços na assistência, gestão e redes. Sobre melhoria da assistência, observamos fortalecimento da APS com protagonismo das equipes na qualificação do acolhimento à demanda espontânea; na produção do cuidado ampliado; no aprimoramento de ações coletivas e discussões de casos e principalmente na reorganização da agenda programática e agendamentos. No componente melhoria da gestão, houve maior integração com equipe gestora, aproximação mais intensa da APS, retomada de reuniões de equipe com cronograma pactuado, além de valorização do trabalho e dos (as) trabalhadores (as). No campo produção de redes, ampliou a capacidade de análise sobre os modos de aproximação nos territórios, identificando fragilidades e potencialidades, além da integração da eMulti à APS. Outro desdobramento relevante do processo é a elaboração de Documento Norteador relacionado às temáticas abordadas, em composição junto às equipes das UBS. Abaixo, um relato de equipe: “Vivemos histórias que não cabem nos relatórios, gestos que não estão nos protocolos, mas mudam vidas. Cuidado se constrói com articulação constante em rede. A diferença está em como fazemos: com escuta atenta, vínculo e presença real na vida das pessoas. Buscamos atender necessidades imediatas, oferecer soluções possíveis. Nesse espaço, invisível, produzimos cuidado verdadeiro, feito de humanidade e compromisso“
O apoio prolongado em Humanização indica conexão e confiança nos modos de “conduzir com”. O apoio, como uma das forças para ampliação da capacidade local, reconhece arranjos de gestão mais compartilhada e cuidado ampliado, mas também arranjos de controle do trabalho vivo2. Trata-se, então, menos de formas prontas e mais de desorganizações que se podem suportar e (re)agir. Tanto que, ao longo do processo apoiador, foram realizadas mudanças nas equipes que produziram estranhamentos, mas também redistribuições mais interessantes. A experiência indica a importância de falarmos sobre o que nos marca3, como nos vários dizeres na 2ª oficina em que trabalhadores(as) e usuária conseguiram expressar o que era importante no cuidado. Apoio que se mostra um “estar a caminho”, como uma travessia. Verbo “fazer com” no sentido de esculpir afetos, estar junto, um comum feito de singularidades. Continuamos conversando, incitando diferenciações, saberes e acontecimentos. Cuidando para não sermos aprisionados pela dessensibilização e naturalização de desigualdades. Recomendamos a continuidade do apoio compartilhado; ampliação da eMulti e arranjos compartilhados com APS; outras ações nos territórios “fazendo com” as potências existentes.
Atenção Primária à Saúde; Humanização em Saúde
KAREN ROBERTA STEAGALL BIGATTO, MIRIÃ KAROLINA KURNIK PEDROSO, SILVANA SOARES DE LIMA, VANESSA CRISTINA POLEGATI, CRISTIANE MARCHIORI PEREIRA