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A esporotricose, causada pelo fungo Sporothrix, é uma micose de evolução subaguda ou crônica que, desde a década de 1990 no Brasil, tornou-se uma zoonose emergente com gatos como principais transmissores. A importância desta experiência para o SUS municipal de Campinas reside no enfrentamento de uma emergência de saúde pública que exige notificação compulsória nacional conforme a Portaria GM/MS nº 6.734 de 2025. O projeto foi realizado no território do Centro de Saúde Geraldo Elias (San Diego), abrangendo uma população de 13.202 pessoas. A iniciativa teve início no final de 2023, após a identificação do primeiro caso humano autóctone na região, estendendo-se por todo o ano de 2024. Participaram das ações três Equipes de Saúde da Família (eSF), agentes comunitários de saúde (ACS), profissionais da Vigilância em Saúde (VISA e DEVISA) e serviços de apoio como o SAMU Animal. A população beneficiada compreende tanto os usuários do território quanto a fauna felina local, promovendo o princípio da equidade ao facilitar o acesso ao diagnóstico e tratamento em uma área com casos confirmados.
O objetivo central é implementar ações integradas de vigilância, prevenção, detecção precoce e controle da esporotricose humana e animal no território do CS Geraldo Elias. Pretende-se fortalecer a capacidade de resposta local e a articulação intersetorial entre a atenção básica e a vigilância em saúde. Os resultados buscados incluem a interrupção da cadeia de transmissão zoonótica, a identificação ativa de novos casos suspeitos, a garantia de adesão ao tratamento prolongado fornecido pelo SUS e a redução da subnotificação da doença na região.
A metodologia foi estruturada em seis etapas intersetoriais: Capacitação: Treinamento teórico e prático das eSF e demais trabalhadores do CS sobre transmissão, sintomas humanos e animais, e fluxos de notificação. Sensibilização Comunitária: Atividade educativa durante campanhas de vacinação para informar a população sobre prevenção e sinais clínicos. Busca Ativa: Visitas domiciliares realizadas por equipes de Vigilância e ACS para orientação e identificação de gatos com lesões suspeitas. Atendimento Veterinário Territorial: Instalação temporária de consultório veterinário no estacionamento do CS para avaliação, diagnóstico e manejo de animais suspeitos por demanda espontânea ou encaminhamento. Monitoramento Integrado: Fluxo contínuo entre CS, VISA e DEVISA para acompanhar a evolução clínica e adesão ao tratamento de casos humanos e animais. Análise de Dados: Reunião geral com a equipe para discussão do panorama epidemiológico e reforço de condutas clínicas.
Partindo de um cenário negligenciado até o final de 2023, no ano de 2024, as ações resultaram no diagnóstico de 21 casos de esporotricose em felinos no território. Destes, 85,7% (18 animais) seguiram em acompanhamento pela Vigilância em Saúde, 2 foram a óbito e 1 desapareceu. A dispersão ambiental foi identificada em 10 residências e 2 estabelecimentos comerciais. Em humanos, foram confirmados 4 indivíduos acometidos, todos com histórico de contato direto com felinos locais. Desses, 3 residem na área adscrita e 1 reside em território vizinho, o que confirma a necessidade de vigilância para além das fronteiras da unidade. A estratégia do consultório temporário facilitou o início imediato do tratamento, que pode durar até doze meses, combatendo a subnotificação e fortalecendo o vínculo entre a comunidade e o serviço público.
A análise dos dados evidencia que a esporotricose é um problema relevante de saúde pública local, fortemente associado ao convívio domiciliar com gatos infectados. O caráter zoonótico da doença e a circulação em áreas comerciais reafirmam a necessidade da vigilância integrada e de estratégias de Saúde Única. A experiência demonstrou que ações territoriais, como a busca ativa e a oferta de serviços veterinários na própria unidade de saúde, são ferramentas transformadoras e inovadoras para a interrupção das cadeias de transmissão e detecção precoce. Para o futuro, espera-se consolidar a articulação permanente entre a Atenção Primária e a Vigilância, garantindo a sustentabilidade das notificações e do monitoramento contínuo.
Esporotricose;Zoonoses;Vigilância em Saúde
SARAH MARQUÊS DE SOUZA OLIVEIRA