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As Unidades de Acolhimento Adulto (UAA) ainda são pouco conhecidas nacionalmente, apesar de terem despontado na Política de Saúde Mental na Portaria 121/12. O escasso conhecimento popular sobre o dispositivo que integra a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) se deve ao também escasso financiamento que, só em 2023, teve o seu valor revisto e um direcionamento mais incisivo. A partir da experiência em Jundiaí, com a implantação da UAA em 2020, o escopo das possibilidades de cuidado se ampliou para o público adulto com agravos decorrentes do uso de drogas. Enquanto serviço residencial transitório, a organização do processo de trabalho depende da forma como os profissionais se colocam no cotidiano da instituição de modo a conseguir viabilizar uma lógica de cuidado diferente do CAPS, ainda que em composição. A UAA visa reproduzir da forma mais próxima possível um espaço residencial, isso implica estar geograficamente localizada no território para facilitar as trocas sociais e também promover pertencimento e apropriação do espaço por seus moradores. O presente trabalho se propõe a trazer as reflexões sobre a prática de trabalho numa UAA, entendendo a especificidade de um equipamento de moradia, de modo a reconhecer quais são as suas ferramentas de trabalho. Tal processo foi fomentado ao longo de 2 anos de supervisão de base materialista histórica-dialética, a fim de elucidar quais são as contribuições singulares desse equipamento para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
O trabalho tem por objetivo principal apresentar as ferramentas de cuidado em uma Unidade de Acolhimento Adulto (UAA). Como objetivos específicos traz o processo de supervisão clínico institucional enquanto um dispositivo norteador para o reconhecimento e consolidação das ferramentas de cuidado e a necessidade de dar visibilidade à UAA enquanto Política Pública de reabilitação psicossocial para pessoas com agravos decorrentes do uso intenso de drogas.
Baseia-se em um relato de experiência de duas profissionais a partir dos encontros produzidos na supervisão clínico-institucional de uma UAA ao longo de dois anos. Assim, os aspectos clínicos com seus atravessamentos institucionais, a reflexão sobre as práticas de cuidado e a construção de projetos terapêuticos guiados pelo aparato teórico da Saúde Coletiva e materialismo histórico-dialético; foram o alicerce desse trabalho realizado junto com a equipe, com frequência mensal, ao longo do período descrito acima. A equipe trazia como demanda discussões envolvendo os casos inseridos e dificuldades de manejo, bem como o funcionamento institucional e as relações entre a própria equipe. Composta por dez orientadores sociais, uma assistente social, uma psicóloga, uma coordenadora, uma auxiliar de serviços gerais e um assistente administrativo, a supervisão visa promover trocas e composições entre os diferentes núcleos profissionais. Diante de um equipamento ainda novo na RAPS, a supervisão auxiliou a localizando o seu papel dentro da Reforma Psiquiátrica, a reconhecer as especificidades de um Serviço de moradia, de modo a valorizar e reconhecer suas ferramentas de cuidado.
Por meio do caráter também pedagógico do espaço de supervisão e da experiência desenvolvida em seu fazer, a equipe foi nomeando o que seriam as ferramentas de cuidado, não exclusivas, mas prioritárias à prática na UAA: o cuidado em liberdade; o acompanhamento terapêutico na promoção de novas contratualidades; a reapropriação de um cotidiano com vistas a estimular a autonomia e o fortalecimento de vínculos afetivo-sociais. Sendo o cuidado em liberdade inegociável para qualquer prática dentro da Reforma Psiquiátrica, em primeiro lugar, é a partir do estar no território que aparecem as potencialidades/dificuldades a serem trabalhadas, estando a prática de cuidado intimamente ligada com a vida concreta. Por meio desta, se dá o acompanhamento terapêutico a fim de promover maiores trocas sociais e vinculação com o sujeito que pode estar com maior ou menor passabilidade nos territórios que transita ou que teria o direito de transitar. A reapropriação do cotidiano se daria a partir do estímulo de uma maior autonomia para conduzir a própria vida, a rotina e o cuidado de si. Por fim, o fortalecimento de vínculos afetivo-sociais se configuraria como ferramenta norteadora, pois não é possível cuidar de si sem a noção de alteridade. Dito de outro modo, para a promoção de uma lógica de cuidado que se diferencie da lógica individualizante e excludente, é necessário considerarmos as interações do coletivo com o sujeito a fim de construir ou fortalecer suas redes de apoio.
Pelo encontro de supervisão mensal, a equipe foi se interrogando sobre quais seriam as ferramentas de cuidado numa UAA, identificando o cuidado em liberdade, o acompanhamento terapêutico, a reapropriação do cotidiano e o fortalecimento de vínculos afetivo-sociais como as prioritárias. Como as UAAs ainda tem um número pouco expressivo de equipamentos a nível nacional, escassas têm sido as produções acerca de suas práticas. Ainda que dentro da Reforma Psiquiátrica haja uma produção mais expressiva acerca dos Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs), as UAAs têm a particularidade da transitoriedade, ou seja, podem acolher pessoas por até seis meses e, além disso, o público atendido tem como característica o uso intenso de drogas e as dificuldades derivadas disso. Assim, faz se necessária a produção de novos trabalhos sobre a prática cotidiana nas UAAs a fim de ampliar o conhecimento sobre a especificidade desse equipamento da RAPS, bem como consolidar e legitimar o arcabouço teórico-prático deste Serviço de moradia.
Residencialidade, reabilitação, saúde mental
THAIS DAINEZ SOUZA, ALINE GODOY VIEIRA, ADRIANA CARVALHO PINTO