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De acordo com a Organização Mundial de Saúde, uma em cada 160 crianças tem transtorno do espectro autista (TEA) ao redor do mundo. Há mais de 50 anos estudos vêm sendo realizados e indicam um aumento global nos casos de TEA. Esse crescimento pode estar ligado a maior conscientização, critérios diagnósticos mais amplos, melhores ferramentas de diagnóstico e dados mais precisos. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, estimou em um estudo de 2020 que a prevalência do TEA no país era de 1 a cada 36 crianças de 8 anos. No Censo de 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) apontou que 2.759.004 pessoas na cidade de São Paulo tinham algum tipo de deficiência. Destas, 19,69% relataram grande dificuldade ou incapacidade, enquanto 80,31% apontaram alguma dificuldade. Esses dados reforçam o crescimento expressivo dos atendimentos no Município de São Paulo, que aumentaram 384% nos últimos seis anos. Em 2023, por exemplo, foram registrados quase 130 mil atendimentos, enquanto em 2019 esse número era de 26.521. Para garantir que as pessoas com TEA tenham acesso equânime, integral e qualificado, foi necessário repensar e adequar o fluxo de atendimentos à Linha de Cuidado da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista e à grande demanda de casos nas 20 Unidades Básicas de Saúde que o CER II Tucuruvi é referência.
O principal objetivo deste projeto é organizar a Linha de Cuidado TEA internamente, adequando-a à realidade do serviço. Como segundo objetivo, busca-se proporcionar uma avaliação mais detalhada, auxiliando em um diagnóstico mais preciso e evitando equívocos na identificação do TEA. Por fim, como terceiro objetivo, estruturar um plano de avaliação ampliado e específico para pacientes com diagnóstico suspeito ou confirmado, garantindo um acompanhamento mais assertivo e individualizado.
Semanalmente são ofertadas vagas via SIGA (sistema de regulação e agendamento da SMS-PMSP) nas quais as UBSs encaminham os pacientes para avaliação em reabilitação intelectual. Assim, é realizada uma avaliação pela equipe multiprofissional do CER focada em coletar o histórico, dados sobre o neurodesenvolvimento da criança, além de questões culturais e do ambiente em que está inserida. Quando a equipe técnica detecta um encaminhamento por suspeita ou caso diagnosticado de TEA, é realizado o agendamento para uma avaliação específica que é dividida em 4 momentos. No primeiro momento é realizado uma anamnese com os pais ou cuidadores da criança baseada e direcionada aos critérios para o diagnóstico do TEA e nas questões das dificuldades de comunicação, socialização e de independência para as atividades de vida diária. Após esta etapa, é aplicado o Inventário de Comportamentos Autísticos (ICA) – que também é conhecido como Autism Behavior Checklist (ABC) – um questionário que permite a coleta sistemática de dados dos comportamentos relacionados ao TEA, auxiliando os profissionais no planejamento de intervenções personalizadas que favoreçam o desenvolvimento e o bem-estar da criança. Na terceira etapa, a criança participa de uma avaliação em grupo conduzida pela equipe multiprofissional, com foco na observação de suas habilidades, desafios e interações sociais. Esse momento permite uma análise mais ampla do desenvolvimento infantil, considerando as principais queixas levantadas
Entre os pacientes avaliados e monitorados de junho a dezembro de 2024, 65,2% foram inseridos para reabilitação e acompanhamento no CER II Tucuruvi, e 21,9% foram contra-referenciados para suas unidades de referência, pois não atendiam aos critérios para atendimento. Houve absenteísmo em 12,5% dos casos avaliados. Além disso, observou-se um aprimoramento técnico significativo, com avaliações mais detalhadas e precisas, o que contribuiu para o enriquecimento na condução dos casos e permitiu desmistificar diagnósticos equivocados. Essa abordagem resultou em uma redução nas queixas dos serviços encaminhadores sobre a conduta do CER II Tucuruvi, especialmente nos casos de reencaminhamento por não atenderem ao perfil do serviço. Houve também um aumento na assertividade e na expertise durante as discussões na rede de saúde com outros serviços, favorecendo decisões mais bem fundamentadas e um atendimento mais qualificado.
A organização da Linha de Cuidado da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no CER II Tucuruvi destaca a importância de uma gestão eficiente na qualificação do atendimento, na organização da demanda, otimização dos fluxos e redução da fila de espera, garantindo acesso oportuno e equânime. A estruturação do processo avaliativo em quatro etapas – anamnese, aplicação de escalas diagnósticas, avaliação em grupo e elaboração do Projeto Terapêutico Singular (PTS) – fortalece a tomada de decisão clínica e possibilita intervenções mais assertivas. A equipe multiprofissional, com sua atuação integrada, assegura um atendimento mais eficiente e um melhor direcionamento dentro da rede de cuidados. Além disso, a implementação desse modelo contribuiu para a redução de diagnósticos ou suspeitas equivocadas de TEA, garantindo que apenas os casos com critérios bem estabelecidos fossem encaminhados para acompanhamento especializado. Dessa forma, a experiência do CER II Tucuruvi não só impacta positivamente o fluxo assistencial, reduzindo o tempo de espera, mas também qualifica o cuidado oferecido, aprimora a tomada de decisão clínica e fortalece o suporte às famílias. O alinhamento entre gestão e equipe técnica permite uma avaliação mais
CER TUCURUVI
RAUL LÚCIO DA SILVA, PATRICIA PEREIRA GOUVÊA THEODOROFF - 220.177.758-60