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Durante os últimos anos a unidade foi observando um aumento cada vez maior dos encaminhamentos das unidades escolares públicas municipais de referência do território. O número alto de encaminhamento sobrecarregava por vezes o acolhimento na unidade. Na observação das fichas de acolhimento, foi possível avaliar que muitos destes encaminhamentos não vinham de forma qualificada, o que prejudicava a experiência da jornada do paciente, gerando desgaste com usuários e seus familiares. No ano de 2023, realizamos reuniões mensais com a escolas públicas municipais do território Itaquera (Fórum das Escolas), com a presença das equipes dos CEFAI (Centro de Formação e Acompanhamento à Inclusão) e NAAPA ( Núcleo de Apoio e Acompanhamento para Aprendizagem), para discussão de caso, alinhamento de fluxos, formações e manejos. Porém notamos que estas discussões contávamos sempre com a presença apenas de coordenadores e diretores escolares, não alcançando o público-alvo que trabalhava diretamente com os alunos, os professores. Foi a partir deste cenário que surge a proposta de trabalharmos juntos aos professores das escolas que eram os nossos maiores encaminhadores, procurando entender o motivo do encaminhamento, e criar estratégias para acolher e forma estes professores para encaminhamentos mais assertivos e manejos com os alunos que estavam em acompanhamento no CAPS IJ.
O trabalho relatado teve como objetivo acolher e formar os professores para manejo de pacientes com transtornos mentais e qualificar os encaminhamentos das escolas demandantes, potencializando a assertividade dos encaminhamentos, através de oficinas de formação com professores das escolas públicas municipais do território de Itaquera-SP.
Trata-se de um relato de experiência desenvolvida pela gerência e por técnicos do CAPS IJ II Cidade Líder em conjunto com professores das escolas municipais na região de Itaquera, entre os meses de fevereiro e dezembro de 2024. Primeiramente a gerência da unidade faz um levantamento mensal das fichas pacientes que passaram por acolhimento inicial na unidade, são coletados dados como o número de encaminhamentos escolares, quais escolas que mais encaminharam, os motivos dos encaminhamentos e se os pacientes foram ou não inseridos no serviço. Após análise dos dados, a gestora entra em contato com os coordenadores e diretores das escolas com o maior número de encaminhamentos, com CEFAI e NAAPA, dependendo do motivo do encaminhamento e disponibiliza ações da equipe técnica do CAPS IJ II Cidade Lider junto aos professores no horário da JEIF (Jornada Especial Integral de Formação). Nas ações com professores, realizamos escuta ativa, esclarecimento de dúvidas sobre fluxo, dinâmicas de sensibilização e manejo, com objetivo de promover empoderamento dos professores, promovendo maior segurança nas ações juntos aos alunos com demanda de saúde mental.
Ao longo do ano de 2024, podemos constatar resultados quantitativos e qualitativos imediatos; – Diminuição de 60% dos encaminhamentos das escolas em que ação foi realizada. – Encaminhamentos qualificados, com maior assertividade, composto com relatório escolar, aprimorando a jornada do paciente. – Ações compartilhadas entre saúde e educação, voltada a familiares e alunos – Articulação maior na rede de cuidados das crianças e adolescentes acompanhados por ambos os serviços. – Tecnologia de baixo custo, não sendo necessário aporte de investimento financeiro. É possível verificar que as atividades movimentaram aspectos importantes da política de saúde mental a medida em que ações realizadas puderam expressar de forma ampliada seu caráter substitutivo à alternativa manicomial, possibilitando a criação de mecanismos e lugares para a produção do cuidado, fora do âmbito da saúde.
Sabemos que o apoio matricial é uma tecnologia extremamente potente utilizada pelos equipamentos de saúde no município de São Paulo e no Brasil, que é um norteador no processo de integração da saúde mental à atenção primária. Que o matriciamento, formulado por Gastão Wagner Campos, tem estruturado em nosso país um tipo de cuidado colaborativo entra as equipes de saúde. Que o matriciamento constitui-se numa ferramenta de transformação, não só do processo de saúde e doença. Baseados nesta tecnologia tão utilizada por nossos serviços, ampliamos o recorte de trabalhar o apoio matricial na intersetorialidade, mais precisamente nas escolas. Hoje muitos territórios se caracterizam por uma rivalidade dos serviços intersetoriais, e em nossa experiência fica claro que devemos unir forças em prol de um bem comum que é a criança e o adolescente. Que perpassam por diversos serviços que trabalham muitas vezes de forma individuais, dividindo um sujeito que é único em várias partes. A ação iniciada no ano de 2024 nos mostrou que é possível sim, trabalharmos juntos, cada equipamento com os seus saberes e formações, visando a melhoria e qualidade de vida de nossos usuários.
educadores, saúde
MICHELLE F. BATISTA