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Esse encontro tem início no dia 06 de agosto de 2024 e se encerra no dia 30 de dezembro de 2024, com a morte de Gato Preto. O cenário é Caieiras, especificamente nos corredores, cozinha e portão do CAPS Adulto, onde Gato mais gostava de permanecer e conversar. Gato chega no CAPS dizendo ter questões importantes com uso de álcool e drogas desde criança, acompanhados de agressividades descontroladas. Tinha bronquite e frequente convulsões. Relatava não poder contar com ninguém. Tinha um apreço enorme pelos sobrinhos e esse afeto era retribuído. Presenciou desde pequeno violências mútuas à mãe, realizadas pelo pai, usuário de álcool intensivo. Defendeu a honra da mãe até seu último dia, inclusive saindo de casa por ainda ressoar as violências e culpa do pai sobre a morte da mãe e sua presente vida. Iniciou sua presença com o braço enfaixado no dia a dia do CAPS. Assim como nossa presença em sua vida: em movimento, às vezes precisando ser brutal e urgente, com reflexão e enfaixada para alinhar os espaços quebrados e ausentes da rede. Gato Preto é um jovem preto de 22 anos, exala flerte e boemia, além do seu gingado de malandro desviando das dores da vida. Esculpiram a ele um corpo que, exatamente como Luiz Antônio Simas disse sobre os Malandros na Umbanda, “levam ao limite da exasperação um projeto civilizatório que não consegue lidar com tamanha radicalização na alteridade.” O nome Gato Preto é uma homenagem ao personagem Gato, malandro de Capitães de Areia.
“Lidar com o impulso (fissura) e se organizar com seus compromissos (tomar remédio, entrega de currículo)” foi a proposta pactuada no Projeto Terapêutico Singular de Gato com o CAPS. Mas de longe não foi o rumo norteador e suficiente para as ações da equipe com ele. O objetivo foi sendo repactuado ao longo dos encontros com os desafios e potencialidades apresentados e compartilhados, tornando-se o maior provocador de como mesmo a rede intra e intersetorial poderia cuidar das demandas surgidas. Um dos objetivos específicos foi reorganizar a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) para melhor cuidar de casos em que a vida das pessoas, principalmente as vulnerabilizadas, inundava as barreiras de acesso construídas anteriormente.
O cenário é o CAPS, mas também percorremos a Casa da Passagem, a UBS, Pronto Socorro, Pronto Socorro de Laranjeiras, CREAS, a rua, a casa da irmã, a cena de uso e o Posto de Atendimento ao Trabalhador. Gato chega no CAPS em agosto de 2024, dizendo ter questões importantes com uso de álcool e crack desde criança. É inserido semanalmente em 5 atividades no CAPS. Logo em setembro brigou com o pai, quebrou o braço e perdeu a moradia. Foi acolhido no mês seguinte na Casa de Passagem e o transporte para as atividades se tornou um desafio. A Casa requeria o tratamento para a permanência da estadia. Gato foi a pé alguns dias para as atividades, até o CAPS ter ciência e se organizar para buscá-lo para as atividades, enquanto articulava com o CRAS a liberação do Bolsa Família. Com o tempo, entendemos que suas convulsões eram mais frequentes e se tornaram outro desafio ao cuidado. Ainda neste meio tempo, Gato teve escabiose e precisou de isolamento, trazendo a UBS mais perto da Casa. Em paralelo, o CAPS fez visita domiciliar à família, reavaliou as medicações, encaminhou para Neurologia, estruturou seu currículo junto a ele, o acompanhou no cadastro para emprego, o atendeu individualmente e mobilizou os pontos de atenção para compartilharem os mesmos esforços. Em outubro, a Casa da Passagem criou um grupo de WhatsApp para acelerar e estreitar as informações e apoio – como por exemplo reafirmar o compromisso do SAMU em prestar socorro, mesmo com repetidas ocorrências.
Nas últimas três semanas, Gato foi expulso da Casa de Passagem por conflito interno com outro morador. Nesse tempo, técnicas do CAPS pedem à irmã com residência em Caieiras para acolhê-lo somente por aquela noite. Deu certo, nunca mais saiu da casa da irmã e retomou seu vínculo familiar. Seu compromisso com o CAPS continuou firme, tinha mãos habilidosas em macramê para a produção de dezenas de pulseiras coloridas, que ora viravam presentes, ora viravam dinheiro de passagem de ônibus ou refeição. Temia estar vulnerável aos apelos do crack e zangava-se com a deselegância com que era tratado nas esquinas que não aceitavam que a ginga do Gato Preto não fosse relativa a alguma substância. Recebeu seu então buscado benefício. Dinheiro esse que chegou retroativo e Gato entrou em clima de festa. Alisou e cortou o cabelo, comprou cama e fogão para a irmã, roupas e um brinco de cruz prata reluzente. Fez entrevista e aguardava para ser chamado. Escolheu trabalhar à noite para não faltar no CAPS. Estava procurando casa para morar, mas ainda com muita dificuldade pelos preços altos dos bairros centrais e pelos baixos preços dos bairros em frente às cenas de uso. Fez tomografia do crânio, passou com neurologista e realizou eletroencefalograma em sono. No dia 05 de dezembro foi encaminhado ao PS com mais uma ocorrência de convulsão. Também não saiu mais. Evoluiu para parada cardiorrespiratórias e foi transferido para cuidados de Terapia Intensiva. Morreu no dia 30 de dezembro de 2024.
Nada a tempo daquele que sofria há 22 anos. Seu prontuário no CAPS encerrou com 44 páginas, com registros sem dar conta da perversidade que é se encontrar com a complexidade dos agravos determinados e potencializados socialmente. Este relato é, fundamentalmente, um manifesto. Um manifesto de nossas emoções e corações que ainda ecoam o nome completo de Gato Preto, junto com seu sorriso descomunal em acreditar na vida, igualmente na crença dilacerante que a mesma oferece. É um manifesto para os trabalhadores e trabalhadoras da saúde, para gestores e gestoras, usuários e usuárias de que, o território, dito como vivo (Merhy, 2002), vive em nós. E morre também. Quando a vida não se sustenta, todos caímos. É preciso continuar contando as histórias, reverberações, afetos, mortes e rearranjos da rede. Ao contrário do que dizem, Gato nos ensina em vida, caminhando conosco, colocando a reorganização organizativa da rede na mesa e mostrando a vida invisível de um homem preto, usuário de drogas, socializado na violência e com sofrimentos suprimidos. Sua morte nos mata. Seguimos.
Redução de danos, Saúde Mental, CAPS
JULIA DE CAMPOS CARDOSO ROCHA, ROGERIO LEME LIMA, ELIANE DE FRANÇA CORDEIRO, ADRIANA DELLAGIUSTINA, RAQUEL PAIVA COSTA