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A vigilância epidemiológica e sanitária enfrenta desafios relevantes na organização e no monitoramento de estabelecimentos privados de saúde em territórios urbanos extensos e dinâmicos. Entre 2022 e 2025, no território de Lapa–Pinheiros, município de São Paulo, observou-se aumento do número de salas particulares de imunização a serem acompanhadas pela vigilância epidemiológica, não necessariamente decorrente da abertura de novos serviços, mas da identificação e formalização desses estabelecimentos, evidenciada sobretudo a partir da solicitação de acesso ao Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI). Além da necessidade de cadastro e supervisão desses serviços, as visitas técnicas tinham como finalidade qualificar o registro das doses aplicadas no SI-PNI. A ausência ou atraso na digitação das vacinas administradas por estabelecimentos privados podia resultar em subestimação dos índices de cobertura vacinal da região, configurando um problema não apenas administrativo, mas epidemiológico, por comprometer a leitura real da situação vacinal do território. Nesse contexto, a equipe local dispunha de recursos operacionais limitados, incluindo apenas um veículo para atividades externas, o que exigiu estratégias de organização territorial capazes de otimizar o planejamento das visitas técnicas e racionalizar os deslocamentos.
Relatar o uso do georreferenciamento como estratégia de apoio à gestão territorial da vigilância epidemiológica, visando otimizar o planejamento das visitas técnicas a clínicas privadas de imunização.
Inicialmente, foi construída uma planilha eletrônica única, integrando diferentes fontes de informação, como planilhas antigas, registros manuscritos e dados provenientes de formulários de supervisão. A partir dessa base, a equipe iniciou as visitas técnicas aos estabelecimentos privados que possuíam salas de imunização, incluindo clínicas especializadas, consultórios médicos, laboratórios e drogarias. Durante o processo, os registros eram atualizados com informações obtidas nos formulários de supervisão e complementados por contatos via e-mail para solicitação de acesso ao Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI). Paralelamente, estabeleceu-se articulação com a Vigilância Sanitária, que fornecia informações sobre a abertura de novos serviços de imunização na região. As informações consolidadas foram validadas no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e georreferenciadas por meio do Google Maps. Os registros foram categorizados segundo o status de supervisão e integrados ao Google My Maps, com a criação de camadas correspondentes a cada situação dos estabelecimentos e uma camada adicional com a divisão territorial por distritos, obtida na plataforma Geosampa. O mapa foi compartilhado com os profissionais responsáveis pelo planejamento das ações e atualizado continuamente, sendo revisado a cada vez em que ocorriam visitas técnicas. Ao final do período analisado, a base acompanhava aproximadamente 100 clínicas.
A ferramenta foi incorporada à rotina de trabalho da equipe e passou a subsidiar o planejamento das ações da vigilância epidemiológica. A espacialização das informações permitiu a leitura integrada do território, evidenciando a distribuição e a concentração das clínicas de imunização na região e favorecendo a definição de rotas mais eficientes para as visitas educativas. A distinção visual entre estabelecimentos supervisionados, não supervisionados e aqueles que não realizavam mais a aplicação de vacinas contribuiu para evitar deslocamentos improdutivos e para organizar prioridades de atuação. Embora não tenham sido produzidos indicadores quantitativos capazes de mensurar objetivamente seus impactos, a equipe observou melhora no planejamento das ações e no acompanhamento das clínicas quanto ao uso do SI-PNI, tornando possível reorganizar os roteiros de visitas para atender, em um único dia, estabelecimentos concentrados em uma mesma área.
A experiência reforça que a organização da informação territorial constitui elemento central para a tomada de decisão na gestão local do Sistema Único de Saúde (SUS). O relato também demonstra o potencial do georreferenciamento como ferramenta de baixo custo para apoiar a vigilância epidemiológica, especialmente em contextos de limitação operacional. Ainda que não seja possível estabelecer relação causal direta entre a estratégia adotada e o aumento dos registros no SI-PNI, é plausível supor que a organização territorial tenha contribuído para ampliar a capacidade de acompanhamento das clínicas e a regularidade das visitas educativas. A iniciativa apresenta elevada possibilidade de replicação, utilizando dados rotineiros e ferramentas digitais acessíveis, reforçando a importância da inteligência territorial no fortalecimento das ações de vigilância em saúde.
Georreferenciamento, Vigilância Epidemiológica
RICARDO JOSE VIDAL