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O envelhecimento cresce no mundo e no Brasil, impactando de forma significativa a organização dos serviços de saúde e a formulação de políticas públicas. Estudos apontam lacunas na compreensão sobre como os determinantes do envelhecimento ativo se relacionam com a qualidade de vida em diferentes contextos, embora essa associação seja fundamental para orientar intervenções precoces e efetivas (Março et al., 2023). Apesar de o envelhecimento ativo constituir um paradigma amplamente reconhecido, os serviços de saúde ainda concentram suas ações no controle de doenças crônicas, com limitada oferta de programas específicos voltados à promoção da autonomia e funcionalidade (Davodi et al., 2023). Evidências internacionais demonstram que intervenções multidisciplinares são capazes de melhorar a percepção de vida saudável, a saúde mental, a participação social e os desfechos relacionados ao envelhecimento ativo (Chi et al., 2021). Nesse cenário, a APS assume papel estratégico na identificação de vulnerabilidades, redução de agravos e apoio à autonomia da população idosa, especialmente no SUS, onde processos organizados, monitoráveis e baseados em indicadores qualificam o cuidado. No âmbito do SUS municipal, a avaliação estruturada da pessoa idosa fortalece a gestão do território e, ao ampliar o uso de instrumentos como a AMPI, contribui para o monitoramento de resultados e o aprimoramento dos processos de trabalho. É nesse contexto que se insere a experiência desenvolvida nas duas UBS.
Objetivo geral Avaliar o impacto da implementação de uma ferramenta gerencial no aumento quantitativo das aplicações da AMPI em duas Unidades Básicas de Saúde do território de Perus (São Paulo), a partir de junho de 2025, visando qualificar o cuidado à pessoa idosa na APS. Objetivos específicos Ampliar o número de AMPIs aplicadas na população idosa atendida em duas UBSs do território de Perus. Organizar e padronizar o processo de trabalho para aplicação da AMPI. Definir metas e monitorar sistematicamente o indicador quantitativo e qualitativo de AMPIs realizadas no período pós-implementação. Fortalecer o envolvimento das equipes por meio de alinhamento de rotinas, acompanhamento de resultados e devolutivas periódicas. Qualificar a identificação de vulnerabilidades e necessidades relacionadas à autonomia e funcionalidade, a partir do aumento da cobertura de avaliação pela AMPI.
A partir de junho de 2025, foi implementada uma planilha gerencial como ferramenta de monitoramento da aplicação da Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa (AMPI) nas Unidades Básicas de Saúde Jardim Rosinha e Morada do Sol, em Perus, município de São Paulo. A planilha passou a ser alimentada a partir da base de dados do sistema Radar e do banco de dados extraído do sistema FastMedic, permitindo a consolidação e o cruzamento das informações dos pacientes idosos acompanhados no território. Com essa integração, tornou-se possível identificar quais idosos tiveram AMPI aplicada, a data da última avaliação e o período previsto para reaplicação, possibilitando o acompanhamento sistemático da periodicidade e a identificação de atrasos ou lacunas no processo de reavaliação. Paralelamente, a ferramenta passou a gerar indicadores de produção por profissional/equipe, evidenciando os profissionais que mais realizaram avaliações e contribuindo para a visualização de padrões de desempenho e cobertura. Os resultados consolidados eram apresentados para discussão com a equipe, apoiando a análise coletiva dos dados, o alinhamento de estratégias e o direcionamento de ações para ampliar a aplicação e a reaplicação oportuna do instrumento no território.
Analisando os dados de janeiro a dezembro de 2025, observa-se que, no período anterior à implementação da planilha gerencial (janeiro a junho), o número de AMPIs aplicadas nas duas unidades permaneceu relativamente baixo e oscilante, sem tendência consistente de crescimento. Na UBS Jardim Rosinha, os registros variaram aproximadamente entre 21 e 57 aplicações mensais; na UBS Morada do Sol, entre 19 e 41, indicando um padrão de execução mais limitado e pouco padronizado ao longo do primeiro semestre. A partir de julho, com o início do uso da planilha de monitoramento gerencial, nota-se um aumento expressivo e simultâneo nas duas unidades. A UBS Jardim Rosinha atingiu 130 aplicações e a UBS Morada do Sol 122, sugerindo que a organização do processo de trabalho, a definição de metas, o acompanhamento sistemático e a mobilização das equipes impactaram diretamente o volume de questionários aplicados. Além do ganho quantitativo, o comportamento observado indica maior adesão à AMPI como parte da rotina assistencial. No período pós-intervenção (julho a dezembro), embora haja oscilações mensais, o indicador se manteve em níveis significativamente superiores aos do primeiro semestre, com aumento médio de 185% na UBS Jardim Rosinha e 182% na UBS Morada do Sol. Em síntese, a comparação entre os semestres evidencia um crescimento relevante após julho, compatível com o impacto da ferramenta gerencial no fortalecimento do monitoramento e na ampliação da aplicação da AMPI nas unidades.
Os resultados indicam que a gestão orientada por dados, apoiada por uma ferramenta gerencial de monitoramento, pode ampliar de forma consistente a aplicação da AMPI na Atenção Primária à Saúde, fortalecendo a identificação de vulnerabilidades e a organização do cuidado à pessoa idosa. Para além do aumento quantitativo, observou-se maior incorporação da AMPI à rotina assistencial, com melhor visibilidade sobre as avaliações realizadas, a necessidade de reaplicação e o engajamento de profissionais e equipes, favorecendo devolutivas periódicas e ajustes no processo de trabalho. Mesmo com oscilações ao longo do segundo semestre, os resultados se mantiveram acima do padrão observado no primeiro semestre, sinalizando capacidade de sustentação. Dessa forma, a ferramenta integrada às bases Radar e FastMedic e acompanhada de pactuação interna, contribuiu para qualificar o cuidado longitudinal e apoiar a reaplicação oportuna. Recomenda-se a continuidade e a expansão da estratégia para outras unidades do território.
Envelhecimento; APS; Gestão em Saúde; AMPI
DANILO ZEPPELLINI DO PRADO