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José, aos 3 anos foi acolhido na Residência Inclusiva Lar Shalom, pois a família havia perdido o poder familiar. Aos 19 anos a mãe recupera a condição legal e com o dinheiro poupado nestes anos de institucionalização é adquirida uma casa em nome de José, onde reside até hoje. Infelizmente, a mãe falece três meses depois, em julho de 2017, passando a curatela para a avó materna. Em 2018, realiza acolhimento no CEAPS – serviço municipal de saúde mental análogo à um CAPS – apresentava-se estabilizado e estudando em escola regular de ensino, mas logo é realizado o Projeto Terapêutico Singular (PTS) compartilhado com o CAPS III, pois houve a necessidade da consulta médica psiquiátrica. Com diagnóstico de retardo mental, epilepsia e transtorno de ansiedade, as demandas foram se agravando e passou a ser referenciado naquele CAPS. Mesmo não fazendo parte dos atendidos ativos do CEAPS, José permaneceu frequentando o serviço todos os dias, mantendo o vínculo. José foi revelando importantes desafios: o ajuste da medicação e sua administração de forma correta, a avó idosa não conseguia exercer os cuidados com atendido, por fim tios com histórico de dependência química passaram a residir na mesma casa, tornando o ambiente doméstico violento. As ferramentas de trabalho pertinentes aos CAPS como acolhimento, escuta qualificada, PTS, reuniões de equipe multiprofissional e rede intersetorial, foram essenciais para o acompanhamento de José, além de serem bússolas norteadoras para as decisões.
Compartilhar os caminhos trilhados que levaram à experiência exitosa no acompanhamento do atendido José, diante da fragilidade nos vínculos familiares, estando curatelado pela avó materna. Refletir sobre a prática profissional, buscando avaliar se tem sido possível exercer o cuidado a partir da lógica psicossocial, visando o exercício da cidadania e empoderamento social. Tornar pública a experiência exitosa como forma de divulgar a excelência no trabalho realizado nos CAPS, assegurando sua permanência e cada vez mais avanços na rede de atenção psicossocial.
Em janeiro de 2024, João volta a ser acompanhado oficialmente pelo CEAPS, momento do seu cuidado que se pretende dar ênfase pela relevância na recuperação da dignidade humana. Desde o ano anterior diante das inúmeras formas de violência José foi acionando a rede protetiva, incluindo além dos serviços de saúde, outros equipamentos e secretarias. Cabe ressaltar que José se manteve presente e atuante em seu PTS, incansável na busca de seus objetivos, não permitindo que a rede deixasse de trabalhar e de se articular. Foram muitas reuniões e discussões buscando soluções para as demandas trazidas por José no que dizia respeito à garantia dos direitos básicos, quando se fez claro que o único caminho a seguir era de respeitar o desejo de José de autonomia e independência. A partir da avaliação médica a defensoria pública atuou para suspender sua curatela, houve o despejo por ordem judicial de sua família e a Polícia Militar fez valer a medida protetiva. Posteriormente, a perícia judicial confirmou o cancelamento da curatela. Houve um hiato entre a decisão judicial e o banco permitir que José sacasse seu benefício, assim o CRAS forneceu cestas básicas e legumes para que não faltasse alimento. José vendeu rifas para que neste período as contas de consumo fossem honradas. A UBS se responsabilizou pela medicação e o CEAPS ofereceu atendimentos constantes contribuindo na organização da vida diária, como fazer compras no supermercado, adquirir roupas novas, fazer os reparos na casa.
Identifica-se construção de vínculos de confiança e de afeto recíprocos entre os membros da rede e José, que soube conquistar seu espaço e ter seu desejo de independência validado. As ações da rede promoveram e ainda hoje auxiliam na administração de suas conquistas, sejam elas nas relações sociais, organização do seu dia a dia, administração da sua casa, da medicação, e da vida financeira. Desde que assumiu o comando da própria vida tem sido muitas as aprendizagens: manuseio do caixa eletrônico, administrar o benefício, fazer manutenções na casa, garantir a segurança física e patrimonial. Por outro lado, tem vivido o prazer de convidar um amigo para frequentar sua casa, escolher o que vai comer ou vestir, o perfume que vai usar, sente-se autorizado a sair do bairro para fazer compras, votar pela primeira vez nas eleições municipais, ou seja, tem vivido todos os medos, desafios e prazeres da vida adulta. Foi muito significativo e simbólico a reinauguração de sua casa, ocorrida após a saída dos familiares e algumas reformas importantes. Neste momento também recebeu suporte do CEAPS, planejou a festa, escolheu os convidados (membros da rede e vizinhos), arrumou a casa, com ajuda da artesã fez a decoração, com o professor de culinária montou o cardápio e preparou os alimentos. Ou seja, comemorou na sua casa o início de nova fase e convida para festejar todos que participaram, demonstrando gratidão por aqueles que acreditaram em sua capacidade de gerenciar sua própria vida.
Descrever sobre este caso, é poder ser porta voz de alguém que foi capaz de acionar, sensibilizar e articular uma rede de cuidados sendo o desejo de emancipação seu guia. É ser porta voz também da rede de atendimento, que foi decisiva mantendo comunicação constante e ativa, dividindo ações e responsabilidades. Por fim o trabalho em saúde mental é sempre desafiador, segundo Lane, 2002 “Uma pessoa é a síntese do particular e do universal, ou seja, sua individualidade se constitui, necessariamente, na relação objetiva com o seu meio físico, geográfico, histórico e social que irão, através de suas ações, desenvolver, o psiquismo humano constituído, fundamentalmente, pelas categorias: consciência, atividade e afetividade”. Se estamos sempre em construção, como determinar diagnósticos e prognósticos já que a vida carrega tantas incertezas e possibilidades? Se a vida é movimento. Assim caminha o processo de implantação da RAPS, não como estático, mas em constante transformação. Como os atendidos, os profissionais e serviços também não estão prontos e acabados. Não é possível prever por quanto tempo José conseguirá gerir sua própria vida, mas experimentar a autonomia ainda que seja por um dia, talvez é o que faça valer a pena viver.
Autonomia, Protagonismo, Rede Psicossocial.
ELIANA CRISTINA FISCHMAN PASSADOR, GABRIELA MARTINS CYRILLO, LUIZ AUGUSTO PALUDETTO, MATHEUS MARTINS GARCIA, ALESSANDRA MARIA PEDROSO MENDES, PAULA ROBERTA PEDRUCI LEME