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O presente relato de experiência, descreve o processo de qualificação da gestão e da Educação Permanente em Saúde no município de Nantes, com foco na linha de cuidado das pessoas que vivem com hipertensão arterial sistêmica (HAS) e diabetes mellitus (DM). Antes de iniciar está experiência, a gestão de saúde de Nantes tinha uma sensação conhecida de muitos municípios pequenos: fazia-se muito esforço, mas faltava clareza sobre o quanto esse esforço se transformava em cuidado organizado para quem vive com hipertensão e diabetes. Os cadastros existiam, mas eram pouco analisados; os dados de sistemas oficiais eram vistos mais na hora de prestar contas do que para planejar. As decisões do dia a dia acabavam sendo guiadas mais por urgências do que por prioridades definidas coletivamente. A seleção do município pela Coordenadoria da Atenção Básica da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo para integrar o projeto “Hipertensão e Diabetes na Atenção Básica” representou uma oportunidade estratégica para reposicionar o tema na agenda da gestão. O Departamento Municipal de Saúde de Nantes assumiu o compromisso de utilizar o apoio institucional e a educação permanente como indutores de mudança nos planejamentos. A experiência foi conduzida pela facilitadora/articuladora da Atenção Básica, em articulação com a equipe gestora municipal, composta pela chefia do Departamento de Saúde, coordenação da Atenção Básica, técnica municipal, fisioterapeuta e médico da Unidade Básica de Saúde.
Fortalecer a capacidade da gestão municipal para planejar, apoiar e monitorar o cuidado às pessoas com HAS e DM na Atenção Básica, utilizando o projeto estadual como indutor de mudanças organizacionais e formativas. Como objetivos específicos, destacam-se: – Compreender a magnitude e as características epidemiológicas da HAS e DM no território; – Utilizar cadastros e informações dos sistemas oficiais como base para o planejamento; – Analisar os processos de rastreamento, diagnóstico, acompanhamento e articulação com a rede de atenção à saúde; – Construir planos de ação temáticos com metas factíveis e monitoráveis; – Incorporar a educação permanente como prática contínua de gestão, e não como ação pontual.
No período de maio a novembro de 2025, foram realizados encontros sistemáticos com a equipe gestora, organizados conforme os eixos temáticos previstos nos Termos de Referência do projeto estadual: território e cadastramento; diagnóstico e rastreamento; acolhimento e estratificação de risco; Projeto Terapêutico Singular (PTS) e Autocuidado Apoiado; organização do processo de trabalho na ESF; articulação com a rede de atenção e intersetorialidade. A condução metodológica fundamentou-se em três movimentos principais: 1. Resgate das práticas existentes — identificação do que já era realizado no município; 2. Análise crítica à luz de dados e referências técnicas — confronto entre práticas locais, indicadores e diretrizes técnicas; 3. Pactuação de mudanças possíveis — definição de ajustes e estratégias de apoio da gestão às equipes. Progressivamente, a equipe gestora passou a revisitar cadastros, produção assistencial e atividades coletivas relacionadas à linha de cuidado de HAS e DM, articulando essas informações aos instrumentos formais de planejamento do Sistema Único de Saúde (SUS), como a Programação Anual de Saúde (PAS) e os Relatório Anual de Gestão (RAG).
A centralidade conferida à linha de cuidado da hipertensão e do diabetes na agenda da gestão possibilitou maior visibilidade sobre o funcionamento do cuidado na ponta. A análise deixou de se restringir ao volume de atendimentos realizados e passou a incorporar questões estratégicas, como a identificação de usuários sem acompanhamento regular e a adequação das agendas às necessidades dos grupos de maior risco. Com base no plano de ação construído no âmbito do projeto estadual, a ESF recebeu orientações objetivas para: – Revisão e qualificação de cadastros; – Intensificação do rastreamento de casos; – Reorganização das agendas assistenciais; – Implantação da estratificação de risco; – Qualificação do seguimento pós-urgência e pós-atendimento especializado. Paralelamente, a gestão instituiu o acompanhamento sistemático de indicadores operacionais simples — como número de usuários com consultas atualizadas, grupos educativos realizados e cadastros revisados — compartilhando essas informações em reuniões internas. Tal estratégia ampliou a transparência do processo e fortaleceu o compromisso institucional com o cuidado às condições crônicas.
A experiência apresentada evidencia que, mesmo municípios com estrutura enxuta podem exercer papel protagonista na qualificação do cuidado às pessoas com HAS e DM, sobretudo quando se apropriam de iniciativas estaduais como oportunidades de transformação. Ao assumir postura ativa frente aos dados, escutar as equipes da ESF e construir planos de ação de forma compartilhada, a gestão desloca o planejamento de um campo meramente formal para uma prática orientadora de mudanças concretas no serviço. Persistem desafios, especialmente no que se refere à consolidação de rotinas de monitoramento e à incorporação de metas mais específicas para HAS e DM nos instrumentos oficiais de planejamento. Entretanto, o movimento iniciado em Nantes demonstra que é possível aprimorar a governança da linha de cuidado das condições crônicas, articulando conhecimento técnico, apoio institucional e a experiência acumulada pelas equipes que atuam no território.
Gestão em Saúde, Educação Permanente, Governança.
ELOA MODESTO NOROES, RENATA BEZERRA PEREIRA, MARA ANDREA DE LIMA ANDRADE, LUCAS BORDIGNON ULIANA