Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
O matriciamento constitui um modo de produzir saúde por meio da atuação integrada entre duas ou mais equipes, em um processo de construção compartilhada do cuidado, com propostas de intervenção pedagógico-terapêuticas. Neste sentido, a saúde mental do Município de Santo André, iniciou ,em 2013, discussões acerca da temática e a necessidade de implementação deste modelo, voltado para o cuidado integral ao usuário do Sistema Único de Saúde (SUS). É importante destacar que, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade apresentou uma estimativa populacional de 782.048 habitantes para o ano de 2025. No contexto atual, marcado pelo envelhecimento progressivo da população e pelo aumento das demandas relacionadas ao sofrimento psíquico — como depressão, ansiedade, demências, transtornos associados ao uso de substâncias e desorganização psíquica em decorrência de quadros clínicos — a organização da rede de saúde mental torna-se ainda mais desafiadora. A APS passou a receber número crescente de usuários idosos com quadros complexos, exigindo suporte técnico especializado e cuidado longitudinal. Diante desse cenário, os três Centros de Atenção Psicossocial Adultos (CAPS) do território, juntamente com as 34 Unidades Básicas de Saúde passaram a adotar a lógica do cuidado horizontal, fortalecendo a corresponsabilização e a construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS), especialmente diante das novas demandas demográficas e epidemiológicas.
Fortalecer a articulação entre CAPS III Adulto e APS diante do envelhecimento populacional; Qualificar o manejo do sofrimento psíquico, especialmente em usuários idosos; Promover interdisciplinaridade e corresponsabilização no cuidado em saúde mental; Ampliar a resolutividade da APS por meio do apoio matricial, incluindo visitas domiciliares e atendimentos em conjunto; Oferecer retaguarda técnica especializada através do contexto pedagógico; Estreitar o vínculo das equipes dos CAPS III e APS para construção coletiva de PTS.
Para consolidação dos matriciamentos em saúde mental na APS, foram necessárias discussões prévias, articulação entre as Coordenações responsáveis e gestores dos respectivos Serviços. Após este processo, as equipes de cada CAPS foram sensibilizadas, através de reuniões, para a construção de um novo modelo de cuidado horizontalizado. Este processo de consolidação permeou por cerca de cinco anos, ocorrendo de 2013 à 2018, porém, no período pandêmico de 2019 à 2020 as equipes passaram a realizar encontros virtuais e mais espaçados, considerando a necessidade emergencial nos cuidados clínicos. Somente em 2021 o processo foi retomado parcialmente, os 03 CAPS do Município passaram a realizar encontros nas UBS em formato presencial. Em 2023 com a contratação de equipe médica e multidisciplinar, os três Serviços estabeleceram cronograma mensal com as 34 UBS e organizaram-se através de mini-equipes territoriais. Algumas UBS adotam o revezamento do local de realização das reuniões, sendo um mês no CAPS e o próximo na UBS, e assim sucessivamente. Além dos encontros mensais, os profissionais mantêm comunicação semanal por meio da ferramenta digital. Os matriciamentos envolvem discussões de casos, com um olhar atencioso aos usuários idosos, registrando aumento do acolhimento dessa população nos CAPS após a Pandemia. As equipes constroem conjuntamente estratégias terapêuticas e definem responsabilidades, por meio do Projeto Terapêutico Singular.
A partir da vivência das equipes na perspectiva do cuidado horizontalizado, a consolidação dos matriciamentos entre a Saúde mental e APS, trouxe resultados significativos no que tange ao acompanhamento do sujeito considerando a sua integralidade. A partir de 2021 com as consequências da Pandemia as equipes redobraram o olhar sob a população idosa, que passou a apresentar queixas como sentimentos recorrentes de tristeza, irritabilidade, insônia, esquecimentos e confusão mental, sendo alguns casos associados à quadros degenerativos do próprio processo de envelhecimento, mas grande parte relacionada à situações de vulnerabilidade e fragilidade das redes de apoio, conciliado com o isolamento social. Outra parte que apresentou desorganização psíquica, estava atrelada à infecções, desencadeando quadro de Delirium, das quais, necessitam de atendimento pela Rede de Urgência e Emergência de forma prioritária à qualquer outro acompanhamento. Pontua-se como ponto importante que os matriciamentos alcançaram 100% em todas as Unidades Básicas de Saúde mensalmente. A constância desses espaços fortalece a integração entre as equipes, favorece a troca de informações em tempo oportuno e contribui para a continuidade do cuidado em saúde mental. Ademais, o estreitamento das relações e o cuidado conjunto entre os profissionais possibilitaram a transferência segura dos usuários com quadro psíquico estável para a APS, garantindo maior resolutividade e acompanhamento adequado no território.
Diante do cenário contextualizado, concluímos que o matriciamento proporciona um cuidado na perspectiva da integralidade, sendo uma “ponte” cada vez menos distante entre as equipes da Saúde Mental e APS de Santo André. Os encontros são espaços potentes, das quais refletem notavelmente no território, facilitando a horizontalidade do cuidado, principalmente da pessoa idosa, que por vezes, precisam do apoio das equipes para o acionamento de outros dispositivos da Rede para compor as discussões e o cuidado. Sendo assim, consideramos de extrema relevância a manutenção desses espaços, enfatizando sempre o caráter pedagógico e participativo na construção do PTS do indivíduo. Esta abordagem ultrapassa a lógica da medicalização, especialmente no cuidado à população idosa, e este talvez seja um dos principais desafios, diante de uma cultura arraigada pelo silenciamento dos sintomas. Muitas vezes, esses sintomas podem ser minimizados por meio do fortalecimento das redes de apoio, que contribuem para o bem-estar emocional e cognitivo. Nesse sentido, destacam-se os espaços terapêuticos coletivos ofertados nos CAPS e nas UBS, que se configuram como fundamentais para a promoção da integralidade do cuidado e da qualidade de vida.
Apoio Matricial, Envelhecimento, Integralidade.
BRUNA BADOLATO, VINÍCIUS SOUZA ATALAIA DA SILVA, TOMAZ EUGÊNIO DE ABREU SILVA, THAIS STANDE CAIANO DOS SANTOS, PATRÍCIA ROMANO TOMÉ, PATRÍCIA BATISTA ALVES TEIXEIRA, ELIANA CONCEIÇÃO ZANATA, ARIANA APARECIDA DA SILVA, ANTÔNIO RINALDO PAGN, ANA MARIA SANTOS DA SILVA