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A rede de atenção atenção psicossocial (RAPS) é constituída por vários pontos de atenção, a atenção primária à saúde (APS), inclusive as que atendem populações específicas, como o Consultório na Rua; atenção psicossocial especializada, com os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS); os serviços de atenção às urgências, serviços hospitalares para atenção ao transtorno mental, dentre outros. Um dos objetivos da RAPS é a articulação e integração desses pontos de atenção no território, a fim de qualificar o cuidado por meio do acolhimento, do acompanhamento contínuo e da atenção às urgências. Além disso, há a preocupação com uma oferta que seja oportunizada de forma multiprofissional, baseada na integralidade e equidade, reconhecendo os determinantes sociais da saúde (BRASIL, 2011). A articulação entre os serviços está no cerne de alguns trabalhos que destacam a necessidade de melhoria dessa comunicação para efetivar um melhor cuidado em saúde mental. O Consultório na Rua em Ribeirão Preto desenvolve ações no âmbito da APS há aproximadamente 3 anos e tem, ao longo desse tempo, identificado a grande demanda em saúde mental, articulando ações no território e em parceria com outros serviços da RAPS para fortalecimento das práticas e propostas. Identificar situações ainda mais excepcionais que exigem uma resposta efetiva pode ser decisiva em especial para as pessoas em situação de rua em que há a sobreposição de vulnerabilidade biológica, psicológica e social.
A experiência da equipe de Consultório na Rua (eCR), relatada neste trabalho, trata-se de um caso em que foi possível articular diversos pontos de atenção da RAPS e ofertar um cuidado que compreendia a complexidade de uma mulher em situação de rua, gestante, preta, com transtorno mental mediante acolhimento no território e identificação das necessidades prioritárias. Relatar o caso de acompanhamento a uma gestante em situação de rua e as articulações da rede de saúde para proteção ao binômio mãe e bebê.
Em Fevereiro de 2024, em rotina da equipe do Consultório na Rua (eCR) à Praça das Bandeiras, uma mulher A. C. T. S., 22 anos, relatou sangramento vaginal, estava enrolada em uma toalha, falava pouco, cabeça baixa, com um discurso confuso e infantilizado. Foi feito escuta e articulação com equipe de Serviço Especializado de Abordagem Social (SEAS) para levá-la à Casa de Passagem Feminina (CP), equipamento da rede de Assistência Social destinada ao acolhimento em situação de rua. Alguns dias após, a equipe foi acionada pela CP para avaliar a acolhida devido ao resultado de teste de gravidez positivo realizado na UPA. A paciente relatou ser natural do estado do Pará, sem referência familiar em Ribeirão Preto, sem telefones de contatos, sem documentação, sem saber explicar como chegou na cidade e com qual objetivo. No sistema Hygiaweb verificamos relato de uso de crack e que possuia algum transtorno mental, mas que só soube dizer que tomava ácido valpróico e sertralina. Nesta ocasião, foram prescritas medicações pela eCR. A eCR agendou consulta de pré-natal na UBS do território de referência, com a orientação de que um técnico da CP a acompanhasse, dado o aparente déficit cognitivo. No dia seguinte, recebemos a informação de que ela foi deixada no serviço de saúde para a consulta de pré-natal sem acompanhante e não retornou à CP. Constatamos que ela não passou na consulta e não deu início ao pré-natal.
No início estava evitativa, outras vezes confusa mas em geral, higienizada, com roupas limpas, acessórios e comportamento infantilizado, apresentando solilóquios. Foram feitos exames laboratoriais e de imagem, identificando a normalidade dos mesmos. A eCR permaneceu fazendo contatos na praça, com objetivo de fortalecer vínculo e acompanhando-a em consultas. Aos poucos foi possível entender a dinâmica dela na rua, conhecemos o parceiro da paciente, que se mostrou disponível para colaborar nos cuidados com ela, mesmo não sendo o pai da criança. Ele relatava que às vezes sentia-se perdido sobre o que fazer, principalmente porque ela ficava irritada e agressiva com facilidade. À medida em que a conhecíamos melhor, foi possível perceber a necessidade de intervenção em saúde mental pois ela não fazia contato visual, respondia com poucas palavras, mesmo estando mais à vontade com a equipe. Não tinha sinais de auto ou heteroagressividade, sem ideação suicida, não a víamos sob efeito de substâncias psicoativas e se mostrava afetuosa com o movimento do bebê na barriga. Solicitamos apoio à Equipe de manejo e suporte domiciliar intensivo à crise em saúde mental – EMASC – “equipe de crise”, para avaliação do estado mental em abordagem conjunta com a eCR.A paciente foi regulada para o Hospital das Clínicas (HC) com um quadro psicótico agudo, permanecendo até o pós parto.O hospital e o CR articulou o retorno da paciente à cidade natal, Rio Maria, no estado do Pará, com a criança.
O aprendizado do caso relatado para a equipe de Consultório na Rua e demais equipes parceiras foi uma experiência potente de articulação com a rede de saúde, com os parceiros do território, a partir de uma oferta possível e com respeito às particularidades. Trouxe à tona a reflexão acerca da mulher em situação de rua, e o pressuposto de sua incapacidade de exercer a maternidade e a maternagem, como pode acontecer por muitos da sociedade, e o enfoque necessário em subsidiar formas e meios de amparo e suporte. Por fim, entendemos que o cotidiano da eCR é atravessado por situações complexas, marcadas por invisibilidade e estigmas, e que exigem capacidade técnica mas também sensibilidade para oferta de um cuidado centrado nas necessidades das pessoas em situação de rua.
Pessoa em situação de rua, maternagem
TATIANA MARIA COELHO VELOSO, PÂMELA VIDAL MENDONÇA, ADRIANA CRUZ DE LIMA, JULIANA CRISTINA DIAS