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A adolescência é uma fase do desenvolvimento humano marcado por mudanças biopsicossociais. Neste momento, onde a construção de autonomia se faz necessária, é observado um distanciamento dos vínculos familiares, processo natural deste período. Por outro lado, os pais continuam exercendo um papel fundamental, são provedores e responsáveis pela educação, saúde, segurança e pela manutenção financeira. Nesta relação ambivalente de autonomia X dependência, necessária para a construção da identidade do adolescente, surgem o distanciamento, os embates e ausência do diálogo. Durante o atendimento da equipe multi realizado no Centro de Atenção a Saúde do Adolescente (C.A.S.A.), foi verificado a dificuldade e desconhecimento dos responsáveis no cuidado integral da saúde deste indivíduo em desenvolvimento. As discussões dos casos e o manejo clínico dos profissionais envolvidos nos atendimentos da C.A.S.A., trouxe a reflexão sobre a necessidade prática de fortalecimento da rede familiar de apoio dos adolescentes.
A implementação deste espaço terapêutico voltado para os responsáveis do cuidado tem como objetivo principal: Fortalecer a estrutura de apoio ao adolescente. Objetivos secundários: Implantar espaço terapêutico voltado aos responsáveis do cuidado com foco no desenvolvimento adolescente; Analisar a percepção dos familiares a respeito de sua conexão com seu adolescente; Estimular a família e comunidade na participação da saúde integral deste indivíduo.
A estrutura foi elaborada em 03 encontros, com oferta de lanche, de periodicidade semanal, tendo a duração de 2h. 1º. Encontro com o familiar abordou: o processo da adolescência no âmbito biológico, jurídico e psicossocial e a responsabilidade no processo da autonomia. Recurso utilizado: mini palestra, espaço de diálogo, troca das vivências e curta metragem. Foi entregue um instrumento avaliativo das relações interpessoais com escala de 0-5 para as questões sobre (tempo de conversa, passeio juntos, passeio com a família, tempo de brincadeiras, refeição juntos e construção de memórias afetivas). 2º. Encontro com o familiar, revisitou o comportamento adolescente nos últimos 30 anos e na atualidade. Recurso utilizado: roda de conversa, multimídia e uma dinâmica para autorreflexão. Partindo da vivencia deste dia, preparar um bilhete com suas expectativas e aprendizado com o seu adolescente, para o próximo encontro. 3º. Encontro com o adolescente e seu responsável, trabalhou a temática sobre comunicação não violenta. A leitura dos bilhetes escritos anteriormente, uma dinâmica com um instrumento para avaliar a conexão familiar com perguntas para ambos (nome do melhor amigo, comida favorita, time favorito, lugar que prefere ficar, o que te deixa feliz, música/ritmo preferido). Recurso utilizado: Mini palestra, instrumento para avaliar a conexão familiar e novamente o instrumento das relações interpessoais para avaliar possíveis mudanças.
Participaram aproximadamente 80 famílias (avós, genitores e tutores). Após análise do instrumento avaliativo das relações interpessoais entregue no primeiro e último encontro, com classificação numérica de 0 à 5, dos seguintes critérios: tempo de conversa, passeio em família, tempo de brincadeira, refeição juntos e construção de memorias afetivas. Observou-se impacto positivo pelo incremento da classificação atribuída que foi mais expressiva em relação ao tempo de conversa e refeições juntos. Também foi solicitado a avaliação da vivência no grupo, nenhuma observação negativa foi pontuada. Após análise do instrumento para medir e quantificar a conexão familiar, com seis perguntas sobre suas preferências, foi observado que nem os adolescentes e nem seus cuidadores tiveram uma pontuação maior que 50%. Desta forma, podemos concluir que segundo a percepção familiar dos participantes as conexões família/adolescente estão fragilizadas e que a ausência de diálogo também interfere neste processo. Na análise da dinâmica sobre o bilhete “o que você aprendeu com o seu adolescente e o que você espera deste adolescente foi possível observar diferentes devolutivas envolvendo realidades e afetos. Com maior frequência observou-se uma mistura do que os responsáveis recomendam como caminhos a serem trilhados por seus adolescentes e sua crença quanto ao futuro positivo de seus filhos.
O grupo terapêutico: “Adolescência e agora?” surgiu a partir dos atendimentos multiprofissionais da CASA, onde se observou pouca interação familiar no que tange ao acompanhamento do adolescente nos equipamentos de saúde. A ausência dos responsáveis neste processo atribui ao adolescente uma responsabilidade pela qual ele ainda não está apto cognitivo nem emocionalmente a assumir. Assim este projeto foi elaborado para informar sobre os processos da adolescência normal e saudável, refletindo sobre os papeis dentro desta relação com intuito de promover mudanças positivas. Os relatos dos responsáveis sobre suas vivencias na adolescência traz um resgate de memórias afetivas, o que levou a reflexão sobre seu comportamento aprendido como cuidador, modificando algumas atitudes frente a este adolescente. A vivência no projeto oportunizou uma reflexão sobre o processo da adolescência por parte das famílias, favorecendo uma abertura ao diálogo com seus adolescentes, capaz de promover modificações positivas nas inter-relações. Para o nosso serviço favoreceu maior engajamento comunitário e fortalecimento de rede de cuidado.
adolescente; vínculo familiar; grupo
Rosana Angelo Ribeiro, Aline S.Markoski dos Santos, Carla A Borges, José Alberto Tarifa Nogueira