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Pesquisas indicam que o córtex pré-frontal, responsável pela regulação emocional e tomada de decisões, só amadurece completamente por volta dos 25 anos, o que prolonga o desenvolvimento do controle de impulsos e da avaliação de riscos. Considerando também fatores psicológicos e sociais, trabalhamos esses aspectos em rodas terapêuticas que fortalecem autonomia, identidade e desenvolvimento. O grupo ocorre semanalmente, antes da inserção, cada caso é avaliado pela equipe para garantir condições cognitivas de participação. A Reforma Psiquiátrica e no CAPS como dispositivos substitutivos aos antigos manicômios, tornam-se essenciais para reabilitação, garantindo um cuidado que respeite a singularidade de cada usuário. Através da escuta, os encontros passaram a abordar temas ligados à adultidade, amadurecimento emocional, fortalecimento de vínculos, criticidade sobre o próprio quadro, responsabilização nos cuidados, autonomia nas decisões, construção de projetos de vida, integração social, autoconhecimento, vulnerabilidades e realizações pessoais ou profissionais. Aspectos que reforçam a importância do empoderamento para o sucesso do tratamento.Observa-se que quanto maior o engajamento do usuário e a compreensão do próprio sofrimento, maior é a adesão e a evolução no cuidado. Assim, o serviço é reconhecido como espaço de confiança e acolhimento, especialmente nas crises, evitando isolamento, rupturas com a rede de apoio e uso de SPA ou medicalização como recurso.
Nosso objetivo central é fortalecer o vínculo desses jovens adultos com a equipe, propiciando a permanência e um tratamento adequado. Muitos vivenciam estereótipos relacionados ao transtorno mental sentindo-se não pertencentes ao serviço, especialmente ao compartilhar espaços com usuários mais velhos, cujas visões podem não dialogar com sua realidade. Também enfrentam julgamentos e piadas sobre frequentar o CAPS, além de desafios como adaptação social, impulsividade, agressividade e conflitos com a lei. Assim, torna-se essencial oferecer um espaço acolhedor onde possam se reconhecer e criar vínculos, aumentando as chances de intervenções eficazes e de um prognóstico mais favorável a médio e longo prazo.
Utilizamos como instrumento a escolha de um espaço adequado, reduzindo interferências para que os usuários se sintam seguros, acolhidos e capazes de interagir entre si. Como quebra de gelo ao usuário iniciante, realizamos uma rodada de apresentação com nome, idade e uma característica complementar indicada pelo grupo, relacionada a vivências como hobbies, qualidades, preferências ou vulnerabilidades. Antes das atividades, os intermediadores informam sobre eventos sazonais, datas de reuniões, ações externas e planejamentos do serviço. Depois, são convidamos, caso se sintam confortáveis, a apresentar demandas que possam ser acolhidas ao longo do encontro, mesmo com um cronograma estruturado. Assim, discutimos temas relevantes a partir de suas experiências e opiniões, valorizando a troca. Para garantir um ambiente atraente e cuidadoso, buscamos profissionais externos que contribuam conforme as necessidades apresentadas, fortalecendo o processo terapêutico com diferentes olhares da RAPS. Também contamos com a equipe multidisciplinar, ampliando vínculos e favorecendo a construção de uma teia de cuidado que apoie expressão, autonomia e participação ativa. Dessa forma, o espaço permanece dinâmico e orientado pelas necessidades reais do grupo, estimulando corresponsabilidade, escuta qualificada e participação contínua. A intenção é que cada encontro fortaleça o vínculo entre usuários e equipe promovendo um ambiente de apoio mútuo e desenvolvimento.
Sobre os resultados, destaca-se a melhora significativa na adesão do público jovem adulto ao CAPS, não apenas no espaço terapêutico do Grupo Adultei, mas também em outras atividades previstas no PTS. Avaliamos que essa ampliação ocorreu pela desmistificação de questões relacionadas à Saúde Mental e ao próprio CAPS, além do fortalecimento do sentimento de pertencimento. Quanto ao processo de cuidado, foram possíveis avanços importantes, como altas por melhora, inserção de usuários em espaços profissionais e conquistas ligadas ao autocuidado, às relações familiares e sociais, à expressão de sentimentos e à tomada de decisões. O grupo também abordou temas do calendário da saúde e datas sociais, como a Consciência Negra e o mês da Luta Antimanicomial. Nessas discussões, vimos resultados relevantes. No mês da Luta Antimanicomial, por exemplo, após refletirmos sobre a importância da participação dos usuários em assembleias e espaços de organização da saúde, uma integrante foi eleita para o conselho gestor do serviço para 2026. O grupo ainda atuou de forma expressiva na festa junina do CAPS, especialmente no papel de “correio elegante”. Por fim, percebemos que o principal resultado aparece nas relações sociais construídas. Os participantes criaram vínculos de amizade, marcaram encontros fora do serviço, compartilharam informações sobre atividades, justificaram ausências e, em alguns casos, buscaram os mediadores para relatar preocupações com outros integrantes.
O Grupo Adultei iniciou em 2024 após o serviço identificar a baixa adesão de jovens adultos ao CAPS e perceber que muitos mantinham apenas o vínculo medicamentoso, sem construir relações terapêuticas. Como principal questão o sentimento de não pertencimento aos espaços existentes, sobretudo pela convivência com usuários mais velhos, que muitas vezes não compreendiam experiências atuais, como dificuldades de socialização, pressões digitais ou críticas geracionais, como fatores adoecedores. Também reconhecemos a necessidade de acompanhar temas atuais do cotidiano desse grupo, como o uso de novas SPAs nos “rolês” e o impacto de ferramentas de mídia social que rapidamente expõem ou excluem quem não se encaixa. Discutir essas vivências permite avaliar potencialidades e prejuízos, criando um espaço seguro para reflexões. Assim, o grupo tornou-se uma das principais bases terapêuticas para jovens adultos no CAPS III Praça Chile, contribuindo para a construção e o fortalecimento de seus PTS, promovendo vínculos, acolhimento e participação ativa no cuidado. Esse processo também favoreceu maior autonomia, ampliou a confiança na equipe e reforçou a importância de um espaço que acolhe a singularidade das trajetórias jovens.
Jovens Adultos, Integralidade, Grupo Terapêutico
ALEXSANDRA MARIA PEREIRA DE SOUSA GARCIA, MÜLLER DE OLIVEIRA MENDONÇA, BRUNA BADOLATO