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Com o processo advindo da Reforma Psiquiátrica o tratamento em saúde mental vem sendo afetada por sucessivas transformações no que concerne ao cuidado em liberdade. Partindo disso, os serviços que surgiram como substituto a hospitalização manicomial foram os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), os quais utilizam de diversos recursos como às atividades de suporte terapêutico buscando a reabilitação psicossocial do usuário, objetivando reinserir o indivíduo na sociedade junto à família e comunidade. Uma das atividades desenvolvida são os grupos terapêuticos, que tem como objetivo principal o compartilhamento de experiências entre os participantes, tendo a escuta mediada por profissionais. Partindo disso, foi viabilizado um grupo em que fosse trabalhado questões ligadas a estratégia de redução de danos para usuários de múltiplas drogas, que fazem o uso preferencial por drogas estimulantes, como: cocaína, crack, anfetaminas, entre outras. O grupo tem como nome “Bambu”, pois remete-se a antiga lenda Zen budista sobre o bambu, que traz a reflexão 7 lições, são elas: 1) se curva, mas não quebra; 2) a fragilidade é somente aparente; 3) vive sempre em comunidade; 4) não se deixa derrotar pelas adversidades; 5) busca a sabedoria do vazio; 6) cresce sempre e sempre para o alto; 7) procura buscar a simplicidade. Assim, o grupo vem criando suas raízes e se fortalecendo diante da composição de seus participantes.
Este grupo tem como objetivo: discutir, refletir, intervir em questões da vida, a partir dos eixos temáticos, como: família, aspectos sociais, redução de danos, estigmas, emoções e projeto de vida. Contribuir para o enfrentamento dos estigmas, que envolvem o cotidiano e minimizar o sofrimento decorrente do uso e ofertar práticas de cuidado. Estimular o autoconhecimento psicológico e emocional. Promover um espaço de escuta terapêutica. E, ainda fomentar reflexões para quebra de paradigmas histórico-culturais.
Os atendimentos desse grupo são realizados nas dependências do CAPS álcool e outras drogas de Guaianases, com frequência semanal e duração de uma hora e meia de atendimento. O público-alvo conta com homens adultos, que fazem uso de múltiplas substâncias psicoativas, que tem como preferência as drogas estimulantes, bem como que apresentam prejuízos decorres do uso abusivo. O grupo tem formato aberto e seus encontros não são sequenciais, pois as atividades propostas são construídas de forma conjunta com os usuários visando estimular o exercício da autonomia e o protagonismo. Como técnicas utilizamos de roda de conversa, dinâmicas de grupo, atividades reflexivas e compartilhamento de experiências.
Inicialmente os temas abordados giravam em torno do uso abusivo de substâncias psicoativas, bem como os prejuízos advindos delas e o preconceito gerado em torno dos usuários. Ao longo do desenvolvimento grupal, os participantes foram inconscientemente mudando o foco das discussões, migrando para temas outros que perpassavam a redução de danos, chegando a temas mistificados por eles como do universo masculino: masturbação, pornografia, sexualidade, prostituição, e ainda, trabalho, amizades, religiosidade etc., dado percebido e entendido pelos coordenadores do grupo como a carência e a falta de oportunidade deste público ter explorado tais temáticas em outros momentos da vida. Tendo encontrado nesse grupo o espaço para essas trocas de experiências. Assim, os participantes foram aumentando o nível de entrosamento, aumento da adesão no projeto terapêutico e ainda contamos com crescente número de participantes, acabaram desenvolvendo rede de apoio consistente para além do espaço grupal, gerando troca de indicações de oportunidades de trabalho, experiências religiosas, onde estão frequentando e conhecendo a religião dos colegas, visita à casa um dos outros, demonstração de afeto e preocupação, entre outros encontros.
Diante do exposto é possível compreender a forma como a antiga lenda Zen budista sobre o Bambu foi dando formato e conduzindo o desenvolvimento do grupo, pois é um grupo partilhado por homens adultos que estão unidos por meio de histórias de sofrimentos vivenciados e ausências de oportunidades de diálogos ao longo da vida. Num primeiro momento, o grupo fora criado para atender a demanda de usuários de múltiplas substâncias psicoativas, que utiliza como técnicas roda de conversa, dinâmicas de grupo, atividades reflexivas e compartilhamento de experiências, tem como intuito de trabalhar estratégia de redução de danos, entretanto, essa roda de conversa semanal foi evidenciando outras necessidades para além das estratégias de redução de danos, como a necessidade de abordar outras temáticas do universo masculino, pouco ou não exploradas por seus participantes. Com o decorrer da ação, verificamos que os participantes encontraram nesse grupo o espaço para essas trocas de experiências, o que justifica a manutenção dele, haja visto os ganhos obtidos, como aumento do nível de entrosamento, aumento de adesão ao projeto terapêutico e mantendo crescente de participantes.
reinserção social
Ricardo de Jesus Gomes