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Com a Constituição de 1988 torna-se responsabilidade do Estado a garantia do direito e do acesso à saúde de toda a população. Ainda nesta constituição, as crianças e adolescentes deixam de ser vistas como propriedade dos pais, e passam a ser consideradas como cidadãos de direitos. Como ferramenta dessa garantia, em 1990 é aprovada a Lei Orgânica da Saúde (Lei no 8.080), na qual é estabelecido o Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse mesmo ano é aprovado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) pela Lei no 8.069/90. Após isso, teremos uma legislação sobre cuidados com adolescentes apenas em 2006, com a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), revista posteriormente em 2011 e 2017, que trata de alguns aspectos, incluindo o direito à vacinação. Dentro da PNAB, apenas a parte de Saúde de Adolescente em Conflito com a lei é específica dessa faixa etária. Em 2008, criou-se a Caderneta do Adolescente, desatualizada desde 2013 e não é mais utilizada nos dias de hoje. Nota-se, portanto, uma ausência de ações destinadas a adolescentes, bem como é uma população sem uma política pública específica. Assim, fornecer espaços e propostas terapêuticas específicas para adolescentes se torna essencial dentro da Atenção Primária à Saúde (APS). Esse relato de experiência trata da vivência de dois profissionais residentes inseridos em Equipes Multidisciplinares (e-Multi) sobre a manutenção de um Grupo de Adolescentes em uma Unidade Básica de Saúde (UBS).
Retratar como foi desenvolvido durante o ano um Grupo de Adolescentes. Como os coordenadores perceberam o grupo, o que acham importante e o que acham difícil nesse processo. Como foram desenvolvidos os objetivos do grupo, com foco na interação social e auto cuidado, mas principalmente fornecer um espaço onde eles possam ser ouvidos e cuidados, mas acima de tudo evidenciar a como existência de uma espaço para adolescentes dentro de um equipamento de saúde funciona não apenas como espaço terapêutico, mas também como espaço de visibilidade para que eles possam ser vistos como parte das políticas de cuidado integral à saúde. Reafirmar também que o grupo é como um meio de comunicação dos adolescentes com a UBS, em que eles possam ser assistidos em suas demandas de saúde. Esse relato trata como os coordenadores vivenciaram o grupo, como perceberam os participantes e como eles se perceberam.
Foram realizados encontros semanais, que aconteciam em uma Unidade Básica de Saúde da cidade de Campinas, no período de 14/03/2024 a 12/12/2024, no período das 18:00h às 19:h00, se estendendo caso necessário às 19:30. Os adolescentes eram encaminhados por qualquer profissional da UBS, e o primeiro encontro dos novos integrantes era com uma dupla de referência em um atendimento agendado. O grupo teve como principal objetivo fornecer ferramentas para que os adolescentes possam desenvolver diversas habilidades. Tentamos de várias formas ajudar no desenvolvimento social, tanto individual quanto em grupo, para que eles possam se entender como pessoas e como membros de algo que extrapola o papel individual e o núcleo familiar. Os encontros eram baseados em propostas terapêuticas variadas, englobando rodas de conversa com temas propostos pelos participantes, atividades físicas com propostas de desenvolvimento sócio-cooperativo e de coordenação motora, jogos diversos visando espaço de descontração e diversão, encontros culturais, gincanas temáticas, visitas a espaços públicos e exibição de curtas e desenhos. As regras do grupo eram chamadas de combinados e foram elaboradas pelo grupo. O grupo também optou por intercalar os encontros, sendo feito uma semana na UBS e uma semana em uma praça pública próxima à UBS. Os resultados partem das observações e sentimentos de dois dos coordenadores do grupo.
No que se propôs, em ser um grupo que fornecesse informações e ferramentas para a autonomia dos adolescentes, consideramos do nosso ponto de vista que o grupo se mostrou exitoso. Foi importante porque proporcionou um espaço que possam ser escutados, que eles possam se escutar uns aos outros e principalmente conviver. Um espaço que seja deles e que faça sentido para eles no cotidiano de cada um. Conseguir criar e manter um grupo de adolescentes dentro de uma UBS é muito importante visto a dificuldade de adesão dessa população aos planos de cuidado integral à saúde, e a ausência de políticas públicas específicas mais variadas e atualizadas. Ter esse contato direto faz com que possamos entender qual demanda eles trazem e de que forma isso pode ser atendido ou incluso nos projetos terapêuticos. Poder estar com os adolescentes em grupo e planejar o cuidado deles de forma planejada. Ter a experiência de ver um grupo se formando, como cada um assumia seu papel, pensar como se daria o manejo dessa grupalidade que tem características bem específicas. Tem algo muito bonito na adolescência, essa intensidade das vivências e como eles criam, defendem e criticam seu próprio mundo. Poder criar uma subjetividade e uma identidade de grupo com eles torna essa experiência algo único, porque estão sujeitas a todas as inconstâncias que a adolescência traz consigo. Uma certeza que tínhamos, é que eles nunca respondem da forma como esperávamos.
O grupo foi bem desafiante e cansativo. Eles trouxeram consigo todo o questionamento de regras e da autoridade, ainda que não houvesse uma autoridade definida, que a adolescência carrega. Mas isso faz parte do papel de coordenador, lidar com esses momentos de forma acolhedora, deixando a reatividade para eles. E para nós, profissionais, conhecer o mundo deles, ver eles convivendo, negociando regras e combinados, com base em uma proposta de respeito, e que fazem sentido pra eles, é enriquecedor. Nisso entra um dos princípios do SUS, a vinculação. Estimular um agrupamento de pessoas a formarem uma identidade grupal, a desenvolverem um sentimento de pertencimento é uma coisa incrível que, apesar de não ser fácil, traz uma sensação muito gratificante. Mas quando esse grupo te acolhe, te aceita como parte dele e não como a cabeça organizadora, a gente começa a entender que uma vinculação forte com esses participantes pode ser a ferramenta transformadora. O vínculo é uma espécie de elemento quase metafísico, estando lá, se apresentando quase como um ente invisível que estende seus múltiplos braços e conecta todos um um grande abraço.
Grupo de Adolescentes,encontros semanais.
CLARA JOANA DE ALMEIDA FIGUEIRA, SEITI HOCAMA JUNIOR