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Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), são constituídos por uma equipe multiprofissional, que atua na perspectiva interdisciplinar, realizando atendimentos a usuários (as) que apresentam transtornos mentais graves e persistentes, em situações de crise e nos processos de reabilitação psicossocial (BRASIL, 2015). Ao atendermos mulheres nos espaços de cuidado em saúde mental, notamos que por trás dos diagnósticos, das crises e dos sintomas, escondem-se histórias marcadas pela força e pela resiliência. No entanto, para além do adoecimento, o que ganha destaque em suas histórias, são marcas profundas de um sistema que insiste em silenciá-las, que mantém feridas abertas de uma violência que se repete nos espaços privados e públicos, pelas normas que ditam o “corpo perfeito”, a fome vivenciada desde a infância, o desemprego e o julgamento revelado pelo olhar daquele que passa. Mas ao aprofundarmos o olhar através das lentes que os processos grupais produzem, destacam-se também elementos como a empatia, o apoio mútuo, o encorajamento, a sororidade, a crítica criativa e propositiva, os sorrisos e choros, o engajamento, a busca por alternativas que a mulher sozinha, talvez não teria condições de enxergar. O Grupo de Mulheres – Narrativas nasceu da necessidade que identificamos junto às mulheres atendidas no CAPS III Adulto Sem Fronteiras – Jundiaí, cujas complexidades demandavam atendimento em espaço coletivo e exclusivo para elas.
À luz das relações de gênero, facilitar a construção de abordagens coletivas quanto a temas do cotidiano que interferem na saúde da mulher, na perspectiva do fortalecimento individual e coletivo. Objetivos específicos: a – Contribuir com que o grupo de mulheres possa verbalizar suas vivências, tanto acerca da esfera pública quanto privada, na perspectiva da troca de experiência e do fortalecimento individual e coletivo; b- Através de um grupo de mulheres em diferentes condições, contribuir com a promoção do respeito e a valorização das diferenças facilitando a desconstrução de preconceitos e crenças de viés machista; c- Facilitar que temas relevantes e velados pelo e no cotidiano sejam evidenciados, a partir dos relatos das próprias mulheres, a fim de provocar através do falar e do ouvir, reflexões sobre si mesmas e quanto ao coletivo; d- Proporcionar novos espaços coletivos de escuta, capazes de promover reabilitação psicossocial, promoção de saúde, circulação e participação social.
Forma de inclusão: não há necessidade de inscrição prévia. Mediadoras: assistente social e farmacêutica. Critérios de elegibilidade: mulheres a partir de 18 anos, indicadas ou não por referências técnicas, residentes no município de Jundiaí. Atualmente são usuárias desse CAPS, sendo uma familiar. Periodicidade e horário: semanal, às terças feiras, das 9h30min às 11h. Início : janeiro/2024 sem previsão de término. Sobre o nome do grupo: “Narrativas” em razão dos discursos narrados de cada participante que, mesmo singular, também diz sobre o coletivo feminino. Planejamento: no primeiro ano o planejamento foi realizado pelas facilitadoras, em 2025, no mês de fevereiro, pelas usuárias. Avaliação: realizada de modo coletivo a cada seis meses, porém a cada encontro, as usuárias também, de modo voluntário, se posicionam. Estratégias – Apontamos para elementos que dão origem às ações ou compõe as estratégias de trabalho: Horizontalidade, que interfere na escolha e modo de realizar as ações; consideração às demandas apresentadas pelo grupo; modo de abordagem não escolarizante e disciplinador; temas que atravessam o cotidiano de todas as mulheres, escuta/compartilhamento e uso de recursos lúdicos; interdisciplinaridade; fomento à participação social; foco no fortalecimento do coletivo; educação em saúde à luz das relações de gênero, numa perspectiva sócio crítica, tratando dos temas não de modo biologizante mas de forma contextualizada histórica, econômica, social e culturalmente.
Os objetivos desse grupo, apresentados de modo qualitativo foram alcançados, em 40 encontros, com a participação de cerca de 40 mulheres. A- O grupo foi considerado pelas mulheres um local de escuta; o fato de não se sentirem julgadas, torna possível falar de temas tabus, de seus sofrimentos e isso lhes causa alívio. Os diversos temas (20) abordados, eram temas transversais relacionados às esferas pública e privada, as mulheres expressaram satisfação em conhecer novos assuntos que tornaram significativos para suas vidas. As mulheres foram se vinculando entre si, inclusive se relacionando e se apoiando também fora do CAPS. B- Conforme o grupo foi ganhando uma dinâmica de maior independência, as participantes também foram conquistando maior confiança, inclusive para apresentarem opiniões contrárias umas às outras. O respeito e a consideração estiveram presentes em todas as situações e eram evocados literalmente, quando necessário. C- O grupo se tornou um ponto de encontro de mulheres, um local onde se posicionam, se fortalecem e se protegem. O fomento à participação popular impactou na eleição de uma participante no Conselho Gestor e na maior frequência delas na Assembleia do serviço. Alguns encontros foram conduzidos por algumas usuárias, que se colocaram como facilitadoras. D- Houve maior implicação das mulheres na corresponsabilização no tratamento; passaram a se conhecer melhor e a construir estratégias de cuidado singulares e partilhadas.
As demandas referidas por mulheres dentro de um CAPS, podem ser invisibilizadas pelo olhar dos profissionais que ao desviar das causas que sustentam boa parte delas, notam apenas os sintomas, colocando-os invariavelmente como origem e não como consequência. Portanto, no sentido de promoção e cuidado em saúde, o grupo de mulheres se torna um espaço coletivo potente e valioso do ponto de vista da reabilitação psicossocial e também como ferramenta de inclusão numa sociedade desigual, de caráter machista e misógina, sobretudo no recorte da saúde mental. Almeja-se que esse grupo, em um futuro breve, ultrapasse as paredes do CAPS e seja desenvolvido em outros dispositivos e/ou espaços do território, de forma que outras mulheres estejam presentes e que possam também ocupar este lugar para verbalizar suas vivências na perspectiva da troca de experiência e do fortalecimento individual e coletivo. Pretende-se ainda que possamos focar em mais ações que potencializam a participação social, de modo que essas mulheres consigam ocupar outros espaços, que se sintam fortalecidas e pertencentes a esses novos lugares que não só o grupo de mulheres, dentro do CAPS.
Mulheres; Narrativas; Grupo
MICHELE GOMES DA PAIXÃO SANTANA, IZABEL CRISTINA DE REZENDE