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A prática de grupos sempre se constituiu como parte essencial no escopo de atendimentos de uma equipe multiprofissional (eMulti) na Atenção Básica. Este relato traz um modelo de grupo de práticas corporais como recurso potencial no cuidado em saúde da população. Trata-se de um grupo aberto terapêutico conduzido por uma eMulti, realizado em praça pública dentro do território da UBS. A possibilidade de facilitar o acesso da população aos cuidados em saúde e alcançar usuários que residam em locais mais afastados da UBS, culminou na criação deste grupo que associa a auriculoterapia à abordagem coletiva. Considerando o território que abrange trabalhadores e idosos heterogêneos no seu processo de envelhecimento, e a integralidade que é característica das abordagens em PICs, foi essencial pensar em um grupo com uma potencialidade abrangente e que conservasse as diretrizes dos processos de trabalho de uma eMulti. Assim o formato desse grupo foi pensado visando a ampliação do escopo de práticas em saúde do usuário e maior alcance dos serviços da UBS. A associação das práticas corporais à auriculoterapia individual proporcionou uma modalidade de atendimento coletivo que é inclusivo, pois trata-se um grupo aberto que, ao mesmo tempo, proporciona a continuidade do cuidado com a aplicação da auriculoterapia.
Relatar a experiência da criação e implantação de um grupo terapêutico de práticas corporais em uma unidade básica de saúde da região Oeste do município de São Paulo e promover reflexão sobre formatos de grupos abertos em PICs.
A UBS já vivenciou outras experiências positivas de grupos realizados em outros momentos, em outras praças do território, com boa adesão de usuários. Com esse histórico, foi avaliado pela equipe multiprofissional que seria uma oportunidade de rever esse recurso com um novo formato e local. Foi definida uma praça pública ampla com solo plano e, portanto, adequada para a realização de práticas corporais. A divulgação do grupo aconteceu através de usuários participantes de outros grupos, além de convites que foram enviados por meio de mensagem de aplicativo aos pacientes cadastrados, cartazes expostos na UBS e indicação dos profissionais durante os atendimentos. No grupo são realizadas práticas corporais da Medicina Tradicional Chinesa como o Lian Gong ou Xiang Gong, seguidas de dança circular ou meditação ativa. Em seguida, os pacientes que demonstram interesse em realizar auriculoterapia permanecem no local e são avaliados individualmente. Cada profissional atende cerca de dois pacientes por no mínimo seis sessões, podendo se estender a depender de cada caso. Utiliza-se uma anamnese específica para auriculoterapia para cada paciente e ao final das sessões as evoluções são arquivadas em prontuário. Neste período o grupo foi conduzido por três profissionais da eMulti das áreas de Nutrição, Terapia Ocupacional e Fisioterapia, o que permitiu um olhar mais ampliado às questões que eram levantadas pelos usuários.
No período de 06/02/2023 a 18/12/2023 foram realizados 39 encontros do grupo de Práticas Corporais, que configuraram 916 atendimentos no período citado. Ele ocorreu semanalmente com uma média de 24 participantes por encontro, em sua maioria idosas, usuários sedentários e/ou com questões de saúde mental e/ou queixa de dor crônica, e também participantes que não são cadastrados na UBS mas se interessaram pela proposta e aderiram ao grupo. Ao longo do tempo, usuários referiram melhora na qualidade de vida e estresse, nos quadros de dores crônicas e redução do sedentarismo. Observa-se que o grupo foi efetivo em estimular o convívio social, pois o grupo conseguiu se organizar em festividades, auxiliaram colegas quando em situações de doença, e passaram a reconhecer seus pares em outros espaços. Novos participantes foram introduzidos por recomendação de outros, o que demonstra maior alcance na população. No geral, estreitou o vínculo com os profissionais o que possibilitou melhoria no cuidado. No quesito da auriculoterapia, foram atendidos uma média de 13 pacientes com pelo menos 4 sessões de auriculoterapia, além das aplicações pontuais em outros usuários do grupo. A maioria dos usuários que procuraram o atendimento sofriam de dores crônicas e ansiedade, e relataram melhora nas queixas. A oferta da auriculoterapia melhorou a adesão contínua ao grupo e ampliou o olhar no cuidado em saúde do usuário.
Conclui-se que o formato do grupo de Práticas Corporais aliada a sessões de auriculoterapia se mostrou eficaz como um recurso terapêutico inclusivo, de fácil acesso e com olhar integral à saúde do usuário. As limitações encontradas incluem o fato do espaço ser aberto e inviabilizar a execução do grupo quando as condições climáticas não são favoráveis. Vale lembrar que a associação desse recurso terapêutico a outras formas de cuidado em saúde é mais eficaz do que ela isoladamente, mas pode ser um início ao autocuidado para usuários com maior dificuldade de adesão a práticas corporais como um todo ou para pessoas que residem no território e desconhecem as iniciativas de promoção à saúde ofertadas pela UBS. Além disso, a condução interdisciplinar deste grupo oportuniza a transversalidade e a integralidade do cuidado.
auriculoterapia, práticas corporais, PICS
Ailim Yukari Kurata, Tatiane Maria dos Santos, Monica Ferreira