Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
O CAPS IJ é um serviço da Rede de Atenção Psicossocial que atende crianças e adolescentes do município de Rio Claro e microrregião, que apresentam intenso sofrimento psíquico decorrente de transtornos mentais graves e persistentes, desenvolvendo um trabalho articulado entre os serviços de atendimento à criança e ao adolescente. Pensando no cuidado integral com a saúde mental das crianças e adolescentes atendidas no CAPS IJ, iniciamos um grupo de teatro, visando à expressão das emoções através do corpo, com o auxílio de técnicas e dinâmicas teatrais. A palavra teatro teve origem grega e significa “lugar de onde se vê”. Desde o principio da humanidade, através de danças e rituais o ser humano já fazia teatro para expressar seus sentimentos e para contar histórias sobre a sua vida cotidiana. Em suas origens, teatro esteve diretamente ligado com a religião, o povo acreditava que através das encenações era possível invocar os deuses e manipular as forças da natureza. Usavam máscaras e fantasias, cantavam, dançavam e encenavam, sem diálogos. Com o passar do tempo o teatro evoluiu e começou a abranger vários temas. Pensando na origem do teatro, definimos o nome do grupo como LOS – Lugar onde se vê. O teatro é um instrumento lúdico, criativo e eficaz de estímulo à reflexão, ao diálogo e à elaboração de propostas, oferecendo condições para que as alternativas e estímulos sejam encontrados.
Estimular o protagonismo, a interatividade, a expressão corporal, o pensamento, a concentração, a memória, a comunicação e o improviso para lidar com diferentes situações cotidianas, visando aliviar o sofrimento e proporcionando melhoria da saúde mental e qualidade de vida das crianças e adolescentes. Realizar uma peça teatral com os usuários, com o intuito de trabalhar a timidez e a interação com diferentes pessoas. Encontrar novo modelo de atendimento em grupo, com enfoque mais artístico.
O grupo é realizado semanalmente por uma dupla técnica Psicóloga (com formação em teatro) e Assistente Social (com formação em arteterapia), com duração de uma hora, previsão de participação aproximadamente de dez adolescentes de quaisquer gêneros, com idade superior a 11 anos. Após o acolhimento inicial pela equipe técnica, as crianças e adolescentes que apresentam os critérios para inserção no grupo são agendadas para início imediato. São realizadas rodas de conversa; temas abertos e programados; dinâmicas de grupo; dança-teatro, música, auto massagem, exercícios corporais, meditação, improviso, pinturas, jogos e dinâmicas teatrais. Para início do grupo é estabelecido um contrato terapêutico (assiduidade, não usar celular durante o atendimento, usar o sanitário antes de entrar no grupo, sigilo, usar roupas confortáveis). O ambiente é preparado com tatame, almofadas, e demais materiais conforme planejamento da atividade.
Durante o ano de 2024 foram realizadas atividades com rodas de conversa, construção de poesia e confecção de máscaras. Como primeira experiência, o grupo LOS participou da abertura da Semana Municipal de Prevenção ao Suicídio, com a apresentação da poesia construída. Participaram da construção as crianças, adolescentes, estagiárias de psicologia e serviço social, e as técnicas responsáveis pelo grupo. Observamos inicialmente grande dificuldade na participação das adolescentes, principalmente timidez. Aos poucos o grupo foi se conhecendo e pudemos verificar que a ansiedade, dificuldades no relacionamento familiar, questões de gênero, sexualidade e ambiente escolar foram assuntos em comum. A falta de assiduidade das adolescentes reflete as dificuldades que a família apresenta no comprometimento com o trabalho realizado, não dando a devida atenção à queixa apresentada. Com as adolescentes que apresentaram assiduidade, conseguimos observar grandes avanços em termos de socialização, timidez, posicionamento sobre assuntos polêmicos e diálogo sobre as questões pessoais e familiares de cada uma, possibilitando a identificação entre as usuárias, as quais muitas vezes tiveram vivências semelhantes. Outro aspecto positivo foi à articulação de soluções em conjunto e que faziam sentido para elas.
É notório o sofrimento das crianças e adolescentes, com relação às suas diversas dificuldades emocionais e comportamentais, o que em sua grande maioria acarreta em transtornos emocionais e/ou dificuldades de socialização, além do grande sofrimento psíquico envolvido. Incluir espaços mais soltos e em sintonia com manifestações artísticas, ampliou o olhar de cuidado de maneira mais lúdica, ajudando no processo de despatologização. A vivência do grupo trouxe inúmeros aprendizados, como discutir questões pessoais e dolorosas. Aos poucos usuárias e usuários apropriaram-se deste processo e conseguiram discutir, propor e intervir em diversas situações delicadas com criatividade e respeito. O vínculo criado no grupo permitiu que se sentissem aptas e aptos a acolher e cuidar, agregando leveza às discussões mais complexas. Em muitos momentos a intervenção técnica tornou-se dispensável e deu lugar a intervenções efetivas entre integrantes do grupo. Vivenciar esta experiência nos fez perceber que encontrar e efetivar novos modos de cuidar em saúde mental de forma integral e libertadora é extremamente necessário, mas demanda articulação coletiva (não só de usuárias e usuários, familiares ou profissionais de saúde, mas de todos).
Teatro, CAPS IJ, saúde mental infantojuvenil
JULIENE PATRICIA ANTONIO, NATALIA BRUDERHAUSEN DE SOUZA, JOCIELLEN FERNANDA GOIA DE SOUZA