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A dor crônica musculoesquelética, especialmente lombalgia e dor em membros, está entre as principais causas de incapacidade e impacto funcional na população idosa (Vos et al., 2020). Na UBS Parque Esplanada, que integra a APS municipal, observava-se aumento de encaminhamentos para fisioterapia, tempo prolongado de espera na regulação, dificuldade de deslocamento dos idosos para consultas especializadas e ausência de espaços no território para prática orientada de exercícios. Evidências indicam que o manejo da dor crônica deve priorizar exercício físico, educação em dor e abordagem psicossocial, reduzindo intervenções exclusivamente medicamentosas (Foster et al., 2018; WHO, 2023). A compreensão da sensibilização ou centralização da dor auxilia na redução do medo de movimento e na melhora da funcionalidade (Louw et al., 2011), em consonância com o modelo biopsicossocial (Engel, 1977). Diante desse cenário, em 03/2024 foi implantado um grupo semanal de autocuidado, conduzido por médico de família e comunidade, aberto a qualquer usuário do território, como estratégia resolutiva dentro da UBS Parque Esplanada.
: Oferecer alternativa terapêutica no território para usuários com dor crônica, reduzindo a dependência exclusiva de encaminhamentos especializados. Promover autocuidado e autonomia por meio de exercícios domiciliares baseados em evidências. Ampliar o conhecimento sobre sensibilização/centralização da dor, reduzindo o medo de movimento. Integrar abordagem psicossocial e estratégias de autorregulação emocional, favorecendo melhora da funcionalidade e da qualidade de vida. Otimizar o fluxo assistencial da equipe diante das queixas recorrentes de dor crônica.
Relato de experiência desenvolvido em Unidade Básica de Saúde na Atenção Primária à Saúde, com encontros semanais de aproximadamente 90 minutos, realizados há um ano, conduzidos por médico de família e comunidade da equipe. O grupo foi criado em resposta à sobrecarga de encaminhamentos para fisioterapia e às dificuldades de acesso dos idosos às consultas reguladas. A participação é aberta a qualquer usuário do território interessado. Os encontros são organizados em quatro momentos: alongamentos e mobilidade articular; exercícios de fortalecimento adaptados para prática domiciliar segura; educação em dor com espaço de escuta; e breve sessão final de atenção plena com respiração guiada. Ao final de cada sessão, são entregues folhetins com guia dos exercícios realizados e material simplificado de manejo da dor crônica com enfoque biopsicossocial, reforçando os conceitos discutidos e estimulando a continuidade do cuidado no domicílio. A educação aborda, em linguagem simples, o conceito de sensibilização/centralização da dor e a importância do movimento seguro, integrando dimensões emocionais e sociais conforme o modelo biopsicossocial.
Após um ano, observou-se adesão regular e crescimento progressivo do grupo por indicação entre usuários. O caráter aberto ampliou o acesso a práticas corporais no território, inclusive para idosos com dificuldade de locomoção. A estratégia contribuiu para redução parcial da demanda repetitiva por encaminhamentos relacionados à dor crônica. As consultas individuais foram otimizadas: diante de queixas persistentes, a equipe passou a encaminhar usuários ao grupo para abordagem mais completa e longitudinal, permitindo melhor organização do atendimento individual. Relatos qualitativos indicam melhora funcional nas atividades de vida diária, maior segurança para movimentação e redução do medo de esforço físico (Hayden et al., 2021; Louw et al., 2011). Alguns participantes referiram redução do uso frequente de analgésicos. A prática de atenção plena com respiração guiada foi associada a relatos de relaxamento, melhora do sono e redução da ansiedade, aspectos relevantes na dor persistente (Mills et al., 2019). O grupo consolidou-se como espaço coletivo de cuidado integral.
A experiência demonstra que o médico de família e comunidade pode estruturar estratégia coletiva baseada em evidências, ampliando o acesso e qualificando o cuidado na APS municipal. Ao integrar exercício terapêutico, educação sobre centralização da dor, material educativo para prática domiciliar e atenção plena, o grupo fortalece o modelo biopsicossocial e as recomendações atuais para manejo da dor crônica (WHO, 2023). Além dos benefícios clínicos, houve otimização do processo de trabalho da equipe e redução da dependência exclusiva da rede especializada, configurando prática replicável no SUS municipal. O próximo passo será obter dados, analisar o grau de eficiência do grupo e avaliar a redução da fila de espera para fisioterapia na regulação da unidade.
Dor crônica; Atenção Primária à Saúde; Autocuidado
EDUARDO RICARDO VIEGAS SANTOS, SHIRLEY DE JESUS PINHEIRO, ERIVANDA BATISTA DE HOLANDA, MARIA DAS GRAÇAS R.S. SILVA