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O trabalho em grupo extra-muros da UBS mostra-se fundamental no que se refere a proposta de trabalho do campo da psicologia para a Atenção Básica (AB), sobretudo diante das dificuldades de ruptura com um modelo estritamente clínico e biomédico, o qual ainda têm se apresentado como resistência a reinvenção de modos outros de promover saúde por parte dos profissionais da área e do modo de funcionamento dos serviços. No tocante a este trabalho da UBS, propomos entender a saúde e a clínica em sua perspectiva ampliada, para além da ausência da doença. Segundo a Política Nacional de Humanização, clínica ampliada implica que o profissional possa escutar e perceber as correlações que os sujeitos estabelecem da doença com sua vida, evidenciando que não é um problema apenas do Centro de Saúde, mas que há uma implicação ativa de sua parte em ser co-participativo. Deste modo, o grupo é tomado como dispositivo clínico e espaço dialógico, para “intensificar em cada fala, som, gesto, o que tais componentes acionam das instituições (sociais/históricas) e de como nelas constroem novas redes singulares de diferenciação”. Logo, trata-se de um campo em que para além das identificações possam surgir as diferenças e singularidades de cada sujeito. Por fim, buscamos trazer para o cotidiano o que a Resolução Nº 17/2022 dispõe acerca de parâmetros para práticas psicológicas no contexto da AB, apontando as ações de práticas grupais como componente que deve ocupar de 5% a 15% da Agenda-padrão mensal.
Visou-se a construção de trabalhos com quatro grupos psicoterapêuticos, além-muros da UBS Drª Maria José de Albuquerque dada a importância do grupo e a importância do território e do laço social no tocante ao eixo da saúde. Por compreender a saúde como ampla, para além do foco na saúde/doença, envolvendo aspectos psicossociais, atravessados pelo território, tivemos a visada da promoção de saúde tendo como norte os princípios de integralidade e igualdade para os sujeitos que buscam a escuta psicológica, trazendo à cena os marcadores sociais dos mesmos. Objetivou-se com a proposta uma perspectiva de clínica ampliada, para além do atendimento individual e medicamentoso e da redução do sujeito portador de uma doença à sua doença. Objetivou-se ainda, ter o grupo como espaço dialógico, no qual os participantes possam ocupar o papel de sujeitos ativos na produção de saber sobre seus sofrimentos.
Iniciamos com planejamento do cronograma e mapeando gênero, faixa etária e queixa das demandas, visando a construção de grupos a partir de semelhanças encontradas, o que resultou em quatro grupos, a saber: mulheres adultas, homens adultos, pessoas idosas e pessoas enlutadas. Os dois primeiros, se destinavam a variadas demandas com a faixa etária de 18 a 50 anos, tendo apenas recorte de gênero. O grupo psicoterapêutico de idosos abrangeu pessoas idosas com questões relacionadas ao envelhecimento. Por fim, o grupo para pessoas enlutadas se destinou para aqueles que, da adolescência à velhice, enfrentam dificuldades no processo de luto. Em todos, o tema era aberto à demanda do grupo, de modo que os integrantes levantassem o tema a ser tratado. Outrossim, foram realizados no Parque das Hortênsias no Jd. Santa Rosa, em Taboão da Serra/SP. Os grupos serão realizados, a partir de outubro, ao longo de um ano para grupos de 2 a 15 participantes, com duração de uma hora e meia e frequência quinzenal, alternando dois grupos quinzenalmente. Ademais, após o planejamento, houve o contato via telefone para explicação da proposta, consulta de interesse e informação do cronograma. Outrossim, com a visada do protagonismo e autonomia, os grupos são abertos à participação, porém é reafirmada a importância do comprometimento com a presença. Por fim, após todo encontro são reunidos os dados sobre o tema do dia, a síntese da discussão e quais participantes estiveram presentes.
Ao longo do período de outubro de 2023 a fevereiro de 2024, notamos maior aderência ao grupo de mulheres adultas, tendo de duas a sete participantes nos encontros, com exceção de um dia. Em soma, ao longo dos encontros do grupo os discursos permearam o marcador do gênero em íntima relação com outros marcadores de diferença como raça/etnia, classe e geração no tocante aos processos de saúde e adoecimento. Todos os encontros trouxeram o gênero como eixo central, sobretudo em relação às violências – simbólicas, psicológicas, sexuais e físicas -, pois todas afirmaram já tê-las vivenciado em algum momento. Em soma, os grupos para pessoas idosas e para pessoas enlutadas tiveram aderência de duas participantes do sexo feminino de 55 a 65 anos, em ambos. Todas participantes apontaram o grupo como importante ferramenta para lidar com as questões e com o adoecimento, dado que a troca intersubjetiva possibilitou a melhora do quadro e a construção de estratégias para lidar com o próprio sofrer. Por fim, no grupo para homens adultos, não houve presença mínima em nenhuma reunião. Em três datas, apenas um homem compareceu no local e todos apresentaram suas demandas solicitando atendimento individual, ressaltando a impossibilidade de compartilhar suas questões diante de outro sujeito, apesar de tentativa de articulação dos mesmos. Ressaltamos que todas as vagas tiveram confirmação de preenchimento via telefone, porém houve forte resistência dos pacientes a adesão.
Notamos forte resistência dos pacientes contatados a aderirem os Grupos por não credibilizarem o mesmo como proposta de cuidado na saúde, evidência de que temos ainda muito a construir em relação às marcas dos avanços e impasses históricos da própria implementação dos modos de cuidar dentro da Atenção Básica. No tocante aos grupos, sobretudo o para mulheres adultas, colhemos dados que apontaram o quanto a vulnerabilidade socioeconômica, a subalternização do trabalho e o trabalho doméstico não remunerado produzem sofrimento na vida das mulheres adultas, apontando a importância de pensarmos nos condicionantes e determinantes de saúde, como disposto na Lei 8080/90. Outrossim, o marcador de gênero esteve presente em todos os encontros dos variados grupos, sobretudo em relação as variadas violências dirigidas aos corpos femininos e aos estigmas, sobretudo, de loucura e fragilidade emocional. Em se tratando dos homens, foram obtidos dados acerca da dificuldade de adesão a tratamentos psicológicos e ao cuidado em saúde como um todo, como consequência de uma sociedade que engendra as masculinidades ocidentais como sinônimo de virilidade. Por fim, notamos o quão difícil tem sido atravessar processo o luto para os sujeitos pós-pandemia.
consultório de rua; saúde mental; grupo
Fairuze Gabryella Ávila Almeida Macedo, Vanini Mandaj, José Alberto Tarifa Nogueira