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A dívida histórica que a sociedade branca possui para com as populações indígenas jamais será paga inteiramente – os séculos de escravização, genocídio, segregação e todas as outras formas de violência que ainda hoje se fazem presentes não são compensáveis e o sangue derramado seguirá para sempre encharcando a nossa história. A garantia do acesso aos direitos básicos é o mínimo que podemos fazer, sendo esta ainda dificultada pelos interesses econômicos da classe dominante. A Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra surge como forma de resistência e luta por esta garantia de acesso à direitos, além da busca pela reafirmação de uma identidade que é constantemente negada, sobretudo aos indígenas do contexto urbano. Conhecer a sua história é também conhecer mais sobre a própria cidade de Guarulhos, e refletir sobre a íntima relação entre este território e a saúde mental de seus habitantes é começar a desvelar as possibilidades de cuidado à saúde mental dos indígenas em contexto urbano. Portanto, o presente trabalho se mostra relevante por buscar trazer luz às questões ligadas à saúde mental dos indígenas em contexto urbano da cidade de Guarulhos, partindo da análise das iniciativas potentes já tomadas por eles mesmos nessa busca para que possamos compreender quais ações a comunidade identifica como necessárias no que tange essa especificidade, podendo, assim, contribuir para o resgate histórico e a ampliação das vozes dos trabalhadores que compõem a equipe de saúde indígena.
A partir da história da criação da Reserva Multiétnica Filhos desta Terra e a reflexão do vínculo entre território, identidade e saúde mental de populações indígenas, pensar em conjunto com as percepções dos profissionais da equipe de saúde indígena de Guarulhos quais os impactos na saúde mental dos moradores do território e as intervenções possíveis, e desejadas pela comunidade, para sua melhoria.
A pesquisa seguirá com o levantamento bibliográfico da história de formação da aldeia e das pesquisas já publicadas que apontam a relação entre território e saúde mental dessa população e, embasada pela metodologia de pesquisa exploratória, com entrevistas semiestruturadas de profissionais da equipe de saúde indígena de Guarulhos, analisar quais as demandas percebidas por eles no que tange o cuidado em saúde mental, para refletirmos intervenções possíveis a serem construídas em conjunto com a comunidade. A pesquisa exploratória é uma ferramenta rica para pesquisas voltadas à área da saúde por consistir em um levantamento de dados a respeito da forma de vida de determinadas comunidades. A pesquisa possui caráter qualitativo, buscando compreender as percepções da equipe saúde indígena de Guarulhos – ligada ao CEMEG São João e à UBS Cabuçu – a respeito das demandas de saúde mental da população atendida e a relação das mesmas com as questões territoriais que perpassam a existência dessa parcela da população – para, a partir disso, pensar em intervenções possíveis neste cuidado. Será utilizada a ferramenta das entrevistas semiestruturadas, partindo de perguntas norteadoras mas que não buscam limitar os assuntos abordados, possuindo uma maior maleabilidade no momento da conversa com a pessoa entrevistada.
Buscamos, com a presente pesquisa, compreender a história da Reserva Multiétnica Filhos Desta Terra desde sua criação até os dias atuais, sempre levando em consideração o contexto sócio-histórico no qual a população indígena brasileira está inserida como um todo – passando pela invasão portuguesa de 1500 e seguindo até a atualidade com a ameaça constante da tese do Marco Temporal – e sua luta ininterrupta pelo direito de existir de acordo com sua cultura. A partir disso, esperamos obter uma assimilação mais ampla da correlação entre este território e a saúde mental de seus habitantes, como forma de demonstrar a interseccionalidade necessária para a atenção à saúde indígena, uma vez que tudo se conecta – território, identidade, saúde, educação, política, alimentação. Essa complexidade precisa ser pensada e discutida para que possamos, enfim, pensar em políticas públicas eficazes no cuidado à saúde – sobretudo a saúde mental – da população indígena em contexto urbano. Procuramos também, a partir da reflexão por parte dos profissionais de saúde que já estão em contato direto com a comunidade, tornar palpável a percepção dessa população a respeito do cuidado em saúde mental – fortalecer a escuta dos mesmos quanto ao que é compreendido por “saúde mental” e, principalmente, encorajar a fomentação de discussões dentro da Aldeia quanto às intervenções que eles próprios considerem necessárias e possíveis quanto ao bem estar emocional.
Enquanto este trabalho era produzido mais diversos ataques às vidas indígenas ocorreram, dentre eles destaco a invasão do território Pataxó Hã Hã Hãe no sul da Bahia culminando no assassinato à tiros de Maria de Nega Pataxó irmã do cacique Nailton Muniz que também foi baleado, além de diversos feridos por ruralistas da região que montaram um grupo invasor que busca “retomar” por meios próprios um território que julgam ser deles e segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, contam com o apoio da Polícia Militar. As populações indígenas resistem, lutam e se mobilizam e com o auxílio das redes sociais possuem hoje um alcance maior de suas vozes na busca por apoio às suas reivindicações cabe à sociedade branca estar lado a lado nessa luta constante e se aprimorar cada vez mais para contribuir no cuidado ao adoecimento que decorre do contato com a nossa forma de organização social, além de ampliar a disponibilidade de ferramentas para que eles próprios construam suas formas de cuidado – cotas, políticas de permanência estudantil, ampliamento de espaços para discussões da questão indígena, reconhecimento dos saberes já presentes dentro de suas culturas ancestrais e acima de tudo, combate ao racismo e punição de seus assassinos.
Território e saúde mental; Saúde Indígena.
RAPHAELA NOCHELLI BRAZ, CARLA RAFAELA DONEGÁ