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A experiência da horta terapêutica ocorre no CAPS Felício Gaspar, serviço de modalidade CAPS II, voltado ao atendimento de usuários adultos em intenso sofrimento psíquico no município de Osasco. Trata-se de um serviço comunitário e territorial de atenção psicossocial, de cuidado diário e em regime aberto. A iniciativa teve início em 15 de setembro de 2025, como parte das estratégias de cuidado em saúde mental alinhadas aos princípios da Reforma Psiquiátrica e da Política Nacional de Humanização do SUS. A proposta emergiu da necessidade de ampliar os espaços de convivência, fortalecer vínculos e desenvolver práticas de cuidado que extrapolassem intervenções exclusivamente clínicas. A horta foi concebida como um dispositivo de ambiência, compreendida como produção de condições que favorecem pertencimento, permanência e circulação no serviço. Participam da experiência usuários do CAPS, incluindo pessoas com histórico de longa permanência em Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HTCP), público historicamente marcado por processos de institucionalização e fragilização de vínculos sociais. Ao articular cuidado em saúde mental, práticas territoriais e reutilização de materiais recicláveis, a experiência dialoga diretamente com os princípios do SUS, ao promover cuidado em liberdade, inclusão social, sustentabilidade e fortalecimento da autonomia, configurando-se como prática de baixo custo e passível de replicação em outros pontos da Rede de Atenção Psicossocial.
Implementar uma horta terapêutica como dispositivo de cuidado em saúde mental no CAPS Felício Gaspar, fortalecendo a ambiência, os vínculos e o sentimento de pertencimento ao serviço. Estimular experiências de cuidado em liberdade, especialmente junto a usuários com histórico de institucionalização em Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HTCP), favorecendo processos de autonomia, participação e circulação no território. Incentivar práticas de educação ambiental por meio da reutilização de materiais recicláveis, ampliando saberes relacionados ao cultivo, ao cuidado com o ambiente e à sustentabilidade. Contribuir para a construção de projetos de vida, incluindo possibilidades de inserção social e geração de renda articuladas ao território.
A experiência foi desenvolvida de forma coletiva no CAPS Felício Gaspar, a partir da construção e manutenção de uma horta terapêutica integrada à rotina do serviço. A metodologia fundamenta-se no fazer compartilhado, envolvendo usuários e trabalhadores do CAPS desde a coleta de materiais recicláveis até o plantio, o cuidado cotidiano e a colheita. A horta foi construída majoritariamente com materiais reutilizados, como garrafas PET e caixas de leite, organizados em estruturas verticais e horizontais, de acordo com as possibilidades do espaço físico disponível. Os encontros com o grupo da horta ocorrem semanalmente, às segundas-feiras, constituindo-se como momento coletivo de organização, planejamento e troca. Para além desses encontros, o cuidado com a horta se dá de forma contínua, sendo incorporado ao cotidiano do serviço e assumido espontaneamente pelos usuários que circulam pelo CAPS. O processo inclui rodas de conversa, organização coletiva das tarefas, manejo diário das plantas e compartilhamento de saberes relacionados ao cultivo e ao reaproveitamento de materiais. Buscou-se ainda a articulação com iniciativas territoriais, como hortas urbanas e propostas de economia solidária, ainda que de maneira inicial.
Observa-se que a horta terapêutica se consolidou como um importante espaço de convivência e pertencimento no CAPS, qualificando a ambiência do serviço e ampliando as possibilidades de encontro entre usuários e trabalhadores. O cuidado cotidiano com a horta favoreceu a participação ativa dos usuários, especialmente daqueles com trajetória de institucionalização em HTCP, possibilitando vivências concretas de autonomia, escolha e responsabilidade compartilhada. Destaca-se também o aprendizado relacionado à reutilização de materiais recicláveis. Os participantes passaram a se apropriar de práticas de reciclagem e reaproveitamento, fomentando essas ações tanto no serviço quanto em outros espaços de circulação. Há relatos de usuários que passaram a orientar familiares e pessoas do território sobre essas práticas, além de aplicá-las em domicílios e em hortas urbanas distribuídas pela cidade. Em alguns casos, os conhecimentos adquiridos no cultivo e no reaproveitamento de materiais passaram a se articular a iniciativas de geração de renda, como a participação em bazares mensais promovidos no CAPS. O custeio dos materiais necessários à manutenção da horta tem sido viabilizado, em parte, por meio da venda de produtos produzidos ou doados pelos próprios usuários nesses espaços, fortalecendo práticas de economia solidária e a sustentabilidade da experiência.
A experiência da horta terapêutica no CAPS Felício Gaspar evidencia o potencial de práticas coletivas e territoriais na qualificação do cuidado em saúde mental no SUS. Ao articular ambiência, cuidado em liberdade e sustentabilidade, a horta se configura como um dispositivo que produz efeitos tanto no cotidiano do serviço quanto na vida das pessoas que dele participam. Entre os desafios identificados, destacam-se o custeio dos materiais necessários à manutenção e ampliação da horta, a necessidade de fortalecimento do trabalho intersetorial para expansão das iniciativas de geração de renda e a sensibilização contínua dos demais usuários do serviço para maior engajamento na atividade. Esses desafios são compreendidos como parte constitutiva do processo de cuidado em liberdade. Como perspectiva futura, espera-se ampliar parcerias e consolidar a horta como estratégia permanente de cuidado, autonomia e inclusão social no município.
REFORMA PSIQUIATRICA, CUIDADO EM LIBERDADE, CAPS
LANA FORTES SILVA, SHARA CRISTINA NUNES MACHADO