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A saúde pública em Franco da Rocha pulsa em um cenário de alta voltagem. Com 150 mil habitantes e dependência massiva do SUS, a Atenção Primária opera por meio de 59 equipes de ESF em 15 UBS. A complexidade social do território — que soma presídios, assentamentos e áreas de risco — impõe um fluxo exaustivo de demandas. Notou-se que a busca incessante por cuidado, somada à vulnerabilidade extrema, gerava embates crônicos nas UBS. De um lado, o munícipe em sofrimento chegava à recepção impaciente e ríspido; do outro, os profissionais administrativos, em uma tentativa de autoproteção emocional, reagiam com distanciamento e falas pouco empáticas. Essa dinâmica criou ambientes emocionalmente insalubres e reativos. A educação em saúde é desafiadora, e quando a linha de frente lida com pessoas esgotadas, o conflito torna-se a regra. Notou-se que esse comportamento era alimentado por um desconhecimento técnico: muitos profissionais não compreendiam a história do SUS, seus princípios doutrinários e organizativos. O sentimento de desamparo dos usuários x trabalhadores gerava um ciclo de reclamações na Ouvidoria. Justifica-se, assim, uma intervenção que resgatasse o orgulho de fazer parte do SUS e fornecesse ferramentas emocionais para lidar com a agressividade do cotidiano, transformando o atendimento em acolhimento. A relevância deste projeto reside coibir a fragmentação do cuidado e o adoecimento emocional do trabalhador, fortalecendo o SUS.
Capacitar os profissionais administrativos da linha de frente da baixa e média complexidade sobre a história do SUS e seus princípios doutrinários e organizativos. Reduzir o número de queixas na Ouvidoria relacionadas a conflitos na recepção. Promover a saúde mental do trabalhador através de espaços de escuta e valorização. Desenvolver estratégias de comunicação não-violenta e receptividade frente a situações desafiadoras. Fomentar o sentimento de pertencimento e a compreensão do papel vital de cada servidor na engrenagem do SUS.
A metodologia do HumanizaFranco foi desenhada para ser uma imersão sensorial e reflexiva, rompendo com o modelo de treinamentos rígidos. O planejamento começou com a escuta das dores dos profissionais, seguido da organização de um evento marcante. No dia da ação, o ambiente foi transformado: os participantes foram recebidos por quatro servidores designados especificamente para o acolhimento, reforçando a ideia de que quem cuida também precisa ser cuidado. A decoração utilizou torres de bexigas estrategicamente posicionadas. Dentro de cada balão, inserimos frases motivacionais e informações chave sobre o SUS. O cronograma incluiu um café da manhã coletivo, visando a integração horizontal entre os pares. A parte teórica utilizou metodologias ativas, apresentando a luta histórica pela criação do SUS, enfatizando seus princípios doutrinários e organizacionais e sua interface com a nossa Constituição brasileira. Apresentamos estudo de casos reais: situações de desrespeito e sofrimento foram debatidas coletivamente, buscando saídas empáticas sem anular a dignidade do trabalhador. O uso de crachás coloridos e a entrega de certificados nominais reforçaram a identidade profissional. A trilha sonora, com a canção Tempos Modernos de Lulu Santos, serviu como fio condutor para discussões sobre a evolução das relações humanas e a necessidade de desenvolver “a habilidade de dizer mais sim do que não”, e que o “não” seja dito com fundamentação, empatia e cuidado.
Os resultados foram imediatos e profundos. O encontro revelou-se um espaço terapêutico e pedagógico onde os relatos de desamparo deram lugar a uma postura de disponibilidade para a mudança. A maior surpresa foi perceber que o domínio sobre o funcionamento do SUS conferiu segurança aos profissionais para explicar processos aos usuários, reduzindo a hostilidade gerada pela desinformação. O clima organizacional nas recepções apresentou melhora significativa, com profissionais relatando maior resiliência emocional para conduzir situações de crise. Em termos quantitativos, a intervenção mostrou-se altamente efetiva: o número de queixas na Ouvidoria municipal relacionadas a embates ríspidos entre administrativos e munícipes apresentou uma queda drástica de 65% em comparação ao mesmo período do ano anterior. Além disso, a aplicação de avaliações pós-evento indicou que 97% dos participantes sentiram-se mais valorizados pela gestão e mais preparados tecnicamente para defender o SUS. A dinâmica das bexigas — onde os balões foram estourados ao final para a leitura das frases — simbolizou a quebra de barreiras e o nascimento de uma nova consciência coletiva. O HumanizaFranco consolidou-se não como um evento isolado, mas como uma estratégia permanente de gestão do trabalho e da educação na saúde.
O HumanizaFranco demonstrou que a eficiência da saúde pública não depende apenas de protocolos clínicos, mas da qualidade das interações humanas na porta de entrada. A experiência comprovou que investir na subjetividade do trabalhador e na sua formação política sobre o SUS é o caminho para resolver gargalos históricos de gestão. Ao trocar o distanciamento pela comunicação horizontal e pelo acolhimento, conseguimos converter ambientes voláteis em espaços de cuidado compartilhado. Concluímos que a valorização do servidor, materializada em gestos simples como um café preparado com carinho e o reconhecimento nominal, funciona como um potente combustível para a transformação social. O SUS é feito de pessoas para pessoas, e Franco da Rocha deu um passo decisivo para humanizar essa engrenagem. A música que embalou nosso encontro ainda ecoa nas unidades: hoje, nossas equipes buscam ter a habilidade de dizer mais sim do que não, ou, ao menos, de dizer o não com a dignidade e a empatia que cada cidadão merece. O SUS é imenso, é uma política civilizatória, sua força reside na importância de cada trabalhador que, agora, se reconhece como peça fundamental dessa história de luta.
Humanização, Educação Permanente, Acolhimento
JULIANA ARANTES MANHA, MARIA OLÍVIA PIMENTEL SAMERSLA, ARIANE BACCARINI MENEGATHI